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Aymê Brito
28 de julho de 2025

‘Parditudes’ e o movimento negro da internet

Disputa sobre quem é negro não começou nas redes, mas ganhou novos contornos com a ‘parditude’. Vamos refletir sobre o tema e ouvir a socióloga Flávia Rios?

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Arte gráfica de incentivo à doação para o jornalismo feminista. À esquerda, há um QR Code. À direita, sobre um fundo em tons de azul claro com detalhes florais coloridos, está o texto: "Com o seu pix o jornalismo feminista chega mais longe. Doe R$1 para: fortalecendo@azmina.com.br"
Colagem artística com duas mulheres negras abraçadas, olhando em direções opostas, sobre fundo azul estampado. Ao redor, há imagens de bocas abertas saindo de telas de celular e computador, com setas verdes sugerindo gritos ou ataques, além de uma mão apontando para elas. A estética remete a críticas sobre violência ou pressão social no ambiente digital

Não é de hoje que rola uma discussão sobre pessoas pardas fazerem ou não parte do movimento negro. De tempos em tempos, o assunto reaparece, mesmo que com outras roupagens. Recentemente, essa discussão voltou com força nas redes sociais. E foi impulsionada pelo “parditudes”, conceito que separa pretos e pardos, focando nas pessoas mestiças e é muito disseminado por pessoas que se tornaram personalidades no meio digital (acadêmicas ou não).

O debate sobre mestiçagem e identidade racial é antigo, passa pela época do mito da democracia racial, do apagamento indígena e de movimentos nacionalistas de linha conservadora. Muitas mulheres negras e indígenas, intelectuais, ativistas e militantes já deram sua contribuição sobre a questão do pardo. 

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Feminismo bem informado

Não poderia escrever sobre esse tema sem olhar para a trajetória desses movimentos e boa parte do que escrevo aqui é fruto de uma entrevista com a professora e pesquisadora Flávia Rios, que você lê logo abaixo.  

Nos anos 60 e 70, o movimento negro brasileiro pautou o problema da integração de uma parte da população que, no período pós-abolição, foi colocada às margens da sociedade, sofrendo com problemas econômicos e de violência estatal. Na busca por unificar essas pessoas em torno de uma categoria sociopolítica, uniram os grupos que mais sofriam: pretos e pardos. 

Ser negro é fazer parte de uma categoria social historicamente marginalizada, em que a cor de pele é um dos fatores, mas também classe, ancestralidade e território.

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Identidade é construção e política

Claro, nem toda pessoa parda se identifica como negra — e tudo bem. Assim como existem pessoas pretas que também não se reconhecem no movimento negro. Identidade é processo, é construção, e é política. As vivências de pessoas pardas não são necessariamente iguais às de pessoas pretas. Existem singularidades mesmo. 

Há no debate de parditude a tentativa de construir um meio do caminho entre pretos e brancos, como se os “mestiços” estivessem nessa fronteira. Mas, ainda que a experiência de pardos não seja exatamente a de pretos, ela é radicalmente diferente da de pessoas brancas. São para esses dois grupos racializados, os pardos e pretos (os negros), que o estado brasileiro e grupos de poder têm direcionado sua força opressora e a retirada de direitos sociais e econômicos. 

A mestiçagem não é exclusividade das pessoas pardas, é bem provável que todos nós sejamos mestiços. Reivindicar pureza e exclusividade racial nunca nos levou para um bom lugar. Esse não pode ser o caminho, seja para pardos, seja para pretos. Os pretos representam apenas cerca de 10% da população, segundo o IBGE. Então, o movimento negro é formado majoritariamente por pessoas pardas, e é esse conjunto que o constitui. 

O próprio processo de construção do movimento negro é marcado por disputas e por diferentes movimentos negros. E eles ainda hoje estão na linha de frente contra as opressões e problemas sociais que afligem os pardos e pretos da sociedade: encarceramento em massa, violência policial, racismo institucional, violência contra mulheres, precarização do trabalho. 

Questionar a atuação do movimento negro é diferente de dizer que pardos não são negros, que não pertencem a esse grupo social. E considerando a história de luta e ganhos concretos que esta categoria política nos permitiu, é sempre bom perguntar: a quem esse conceito de parditude serve?

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Entendendo os conceitos e expressões Mestiçagem Conceito histórico que trata do processo de mistura entre diferentes grupos étnico-raciais. No Brasil, envolve principalmente indígenas, africanos e europeus. Foi abordado de formas distintas por diferentes autores e intelectuais. No final do século XIX, o conceito passou a ser utilizado para justificar políticas eugenistas — que buscavam a eliminação de determinados grupos étnicos e o branqueamento da sociedade. Identidade racial No censo brasileiro, a identidade racial é autodeclaratória. Ela costuma ser construída a partir de um sentimento de pertencimento a determinado grupo, mas também está ligada à construção histórica e social, à trajetória de vida e à forma como a pessoa é percebida socialmente. Banca de heteroidentificação Processo utilizado em vestibulares e concursos públicos para verificar a veracidade da autodeclaração racial em programas de cotas. Colorismo Termo usado para designar as diferenças de tratamento e de acesso a direitos entre pessoas negras, com base na tonalidade da pele. Mito da democracia racial É a ideia de que não existe racismo por aqui por conta da “mistura”. Essa noção romantiza a mestiçagem e ignora as desigualdades históricas e estruturais que afetam principalmente pessoas negras e indígenas. Criado no século XX como um projeto ideológico, esse mito serve para apagar o racismo e enfraquecer a luta antirracista, ao negar que a cor da pele afeta diretamente o acesso a direitos, oportunidades e reconhecimento social.

Um debate de internet 

A ascensão do debate racial nas mídias digitais é muito responsável pelo surgimento dos movimentos de parditudes. Hoje em dia, é comum que a minha geração e a anterior se engajem na luta contra o racismo a partir da internet e sigam figuras que se tornaram porta-vozes das discussões raciais nas redes. 

Talvez – e eu desconfio que sim – tenhamos erroneamente focado na ascensão negra individual, no empoderamento estético, nos debates sobre ‘palmitagem’ e colorismo, discutindo quem é mais negro, pautados pelo ressentimento.

Esse tipo de ativismo negro na internet mais desmobiliza do que unifica a luta, e afasta pessoas pardas do que de fato significa ser negro. E acredito que seja também um reflexo do esvaziamento da luta do movimento negro nas ruas, do apagamento de movimentos antiencarceramento, contra a precarização do trabalho, do transporte, contra o despejo, dos movimentos de mães contra a violência de estado. Eu, mulher negra retinta, me considero parte do movimento negro, mas isso não tem a ver apenas com a cor da minha pele, e a minha experiência sequer pode representar a experiência de todas as pessoas negras (pardas e pretas). Ser negra não é um conceito para afirmar a minha existência biológica, é se colocar como uma sujeita política. E isso o movimento de mulheres negras nos ensina bem, e há tempos! 

É verdade também que não se faz esse enfraquecimento do negro só na internet: as bancas de heteroidentificação também fazem parte do problema que afasta e violenta pessoas pardas. Existe ainda uma invizibilização das pessoas indígenas. Nem todas as pessoas pardas são negras, e isso precisa ser complexificado no debate das relações raciais.

Eu conversei, então, com a pesquisadora Flávia Rios sobre as causas, consequências e possíveis caminhos desse debate todo. Se você quer entender melhor também, vale a leitura da entrevista com ela: 

Entrevista

Nos últimos meses, a gente viu essa discussão sobre “parditude” crescendo nas mídias digitais. Como você enxerga esse debate hoje?

Flávia: Essa discussão sobre pardos é antiga. As ações afirmativas destinam reservas para pessoas pretas, pardas e indígenas. E aí houve um grande desafio pro enquadramento das pessoas pardas, o que tem gerado muitas tensões. Parte da emergência desse debate tem a ver com as políticas públicas e o fato de que nas comissões nem sempre a autoclassificação converge com a heteroidentificação. Isso gera ressentimento, contestação, judicialização, relatos, biografias e injustiças, pessoas querendo se dar bem, mas também pessoas que são prejudicadas.

As pessoas querem projeções, então há um ambiente propício para visibilização de certas questões por necessidades geracionais de representação do eu na esfera midiática. Também tem esse retorno à mestiçagem como retórica nacional. As lutas por direitos, a questão do nacional e dos oportunismos individuais nos mundos tecnológicos… Tudo isso mostra o potencial que esse tema tem. O debate dos pardos hoje encontrou no Brasil um solo diferente daquele do século XX, que não tinha política pública. 

E a questão indígena diante dos pardos?

Flávia: Tem esse outro lado que me interessa bastante, que são as pessoas pardas de ascendência indígena que se identificam mais como indígenas do que negras, e isso o movimento ainda não tinha flagrado. Isso é mais forte no Norte, mas também acontece no Nordeste e no Sudeste. Tem muita gente que é de origem indígena, mas não é aldeada, está em contexto urbano, e é da quarta, quinta geração. Desde crianças, são obrigadas a se declarar pardas, mas não se veem como negras. Esse é um debate muito interessante.

Vale puxar um pouco o processo dessas pessoas que se redescobriram indígenas. Tem a Evelyn Cristina Araújo Tupinambá. Ela é do Norte, mora no Centro-Oeste, e desde a infância sabia da sua origem indígena. Foi obrigada a ser parda porque, se você perde os vínculos, o movimento indígena pode não te reconhecer. Mas ela fez toda a movimentação cartorial e conseguiu formalizar seu nome como Tupinambá, passando isso para sua filha. 

Como as dinâmicas das mídias digitais entram nessa discussão?

Flávia: Algumas lideranças de rede social promoveram muito o debate do colorismo. E essa dinâmica fortaleceu discursos de ressentimento e estigmatização da figura parda. Tem muito falas do tipo: “você é uma pardinha de turbante”. Isso serve para quê? Estamos debatendo racismo, reconhecimento, ancestralidade, desigualdades, preconceito, e aí vem essa narrativa que acirra sentimentos coloridos. E vem o “orgulho pardo”. Toda vez que você desonra um grupo, o grupo vai reagir.

Essa dinâmica violenta das redes impulsionou sentimentos que os movimentos dos anos 70 e 80 tentaram frear. Eles diziam: assuma sua cor, sua ancestralidade. O fato de você ter a pele mais clara não quer dizer que não sofre racismo. Agora, algumas lideranças midiáticas optaram por uma estratégia de lacração, humilhação, uma luta de ressentimentos. Essa última década tem promovido isso: “eu sofro mais que o outro”, “você é mais claro que eu”. Ninguém quer ser um nada. Discursivamente, ninguém quer ser desqualificado.

Quais são os perigos da reivindicação da mestiçagem e da “parditude” em contraposição ao movimento negro?

Flávia: O movimento negro conseguiu legitimar o discurso de que pretos e pardos são negros, ocupando as bases da pirâmide. Isso confrontou a ideia da mestiçagem como harmonia. Quando surgem discursos que dizem “o pardo é lindo, somos uma nação mestiça”, isso se afina mais com o nacionalismo. É um discurso que não entra em choque com o dominante, apenas o modula. E aí mora o perigo.

Com a ascensão das extremas direitas, que são nacionalistas e valorizam a homogeneidade, esse discurso da “parditude” tem afinidades. A “parditude” tende mais à conciliação do que à ruptura. Criam um discurso de grande poder que o movimento negro não tem. 

Como construir um caminho que acolha pessoas pardas no movimento negro?

Flávia: Os movimentos entenderam que pretos e pardos estavam em condições estruturais semelhantes, por isso os acolheram como negros. Não era uma resposta de humilhação, mas de inclusão. Abdias do Nascimento, por exemplo, pensou o embranquecimento como genocídio cultural.

Uma possibilidade é garantir direitos para esse segmento. Evitar discursos de ressentimento e reforçar teses centrais: como disse Lélia Gonzalez, “negro é político, não cor de pele”. A palavra “negro” já foi usada para indígenas, “negros da terra” porque não eram brancos. O movimento social usou essa polissemia para dizer que negro é quem não é branco, quem está fora da dominação colonial.

Nem todo mundo vai querer ser negro, é um direito. Mas é importante disputar consciências, compreender ancestralidades, garantir acolhimento. Tem muitas pessoas que estão ali porque não se enquadram diretamente. Elas também têm receio, não querem se passar por negras, mas também não se veem como totalmente brancas. O movimento negro já dizia lá nos anos 70: “É o fenótipo, mas não é só o fenótipo, é a origem, a ancestralidade, é tudo isso junto que torna uma pessoa negra”. Sobretudo, é uma questão de política, de consciência. É a sua consciência de que você é negra.

Como lidar com os problemas das bancas de heteroidentificação?

Flávia: A política de ação afirmativa parte do princípio da autodeclaração. O ideal seria: “sou oriundo de escola pública, me autodeclaro preto, pardo ou indígena”, e no caso de indígenas, apresento a declaração da comunidade. Só que algumas pessoas brancas viram nisso uma brecha e começaram a se autodeclarar pardas. Isso gerou revolta, e os próprios alunos denunciaram ao Ministério Público, que cobrou das universidades um controle. Foi aí que surgiram as comissões, como resposta à fraude. Mas quando essas comissões se institucionalizam, o problema deixa de ser só a fraude. Tem também quem não se enquadra perfeitamente no que seria “negro”, mas também não é branco. A política é para pretos, pardos e indígenas. Há perfis fenotípicos diversos, inclusive com traços indígenas, que não são reconhecidos. 

O problema é que a gente não conhece o Brasil. Pessoas do Pará fazem vestibular em São Paulo e são barradas porque “não têm o fenótipo do negro”. Só que elas também não podem se declarar indígenas, porque para isso é necessário vínculo comunitário, não fenótipo. É outro limbo. As comissões são formadas por professores, técnicos, estudantes e às vezes alguém do movimento negro. Mas precisam de formação, compreensão da diversidade regional e de critérios mais abrangentes. O mais importante é lembrar que a comissão é apenas um instrumento. Ela não pode ser mais importante que a política de ação afirmativa.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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