logo AzMina

‘Eu não abortaria, mas…’ Está na hora de desmoralizar o discurso

por Tayná Leite
12 de setembro de 2018
Tayná Leite diz que "essa premissa é problemática porque moraliza um debate que deveria ser político e jurídico"
aborto
Crédito Fernando Frazão/Agência Brasil

Eu achava que não havia mais muito que eu pudesse comentar sobre aborto. Minha posição sobre o tema é mais do que pública* e a escrevi sobre isso em todos os espaços em que tenho alguma voz. Passados mais de dois anos da coluna sobre o tema aqui n’AzMina, que escrevi grávida de uma criança incrivelmente planejada e desejada, eu hoje como mãe desta mesma criança, que é amada e cuidada com todo o carinho, estou cada vez mais convencida de que a maternidade não deveria ser imposta jamais.

Para mim não é mera coincidência o fato de a maioria das mulheres que aborta já serem mães e casadas. Essas mulheres já se frustraram com a romantização na maternidade e sabem muito bem como ela impacta a vida delas de maneiras absurdamente injustas.

Essas mulheres, ao contrário das adolescentes e jovens que engravidam, não podem nem se dar ao luxo de “imaginar” o impacto que uma criança não planejada e não desejada tem na vida de uma mulher. Elas já sabem. Elas sabem também que mesmo a criança planejada e desejada impacta a vida de uma mulher de uma forma completamente diferente da vida de um homem.

Se a gente tirasse a hipocrisia e o julgamento da frente, aposto que uma parcela considerável das corajosas que encararam a maternidade solo (ou semisolo) não planejada confessaria que, voltando no tempo e sendo seguro e legal, consideraria fazer um aborto, pois subestimou o tamanho do perrengue.

Ninguém fala sobre isso porque as poucas que ousaram foram atacadas publicamente. Ouso dizer que poucas se dão o direito até de pensar sobre isso. O que me leva a um segundo ponto:

o julgamento moral embutido mesmo nos argumentos de quem defende a descriminalização.

Nove entre cada 10 mulheres na minha timeline que defendem a descriminalização do aborto ainda sente a necessidade de se colocar ao lado do “certo”, da “moral” e do não pecaminoso, trazendo a discussão para um campo que não é onde ela deveria estar acontecendo.

“Eu não abortaria mas…”

Essa premissa, embora eu compreenda que na maioria dos casos venha de um desejo de quem escreve ou fala de captar empatia e atenção do interlocutor e se defender do julgamento alheio, é problemática porque moraliza um debate que deveria ser político e jurídico.

É irrelevante se eu abortaria ou não. O que importa é que, em querendo abortar, eu tenha acesso a uma forma segura de fazê-lo sem colocar a minha vida em risco.

Se é certo ou errado, se eu faria ou não faria, não deveria ser a questão. A discussão é sobre direito ao próprio corpo e à autonomia da vontade feminina. A discussão é sobre saúde pública. Ninguém precisa justificar se faria ou não faria algo para se discutir um DIREITO.

Direito este que, como foi muito bem apresentado na audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) que debateu a ADPF 442, o Brasil se compromete a cumprir por força de todos os tratados internacionais ratificados e à luz da própria Constituição da República. A criminalização da mulher e dos profissionais em pleno 2018 é um absurdo, e a única razão para isso é moral. E é por isso que, agregar argumentos morais à esta discussão pode parecer bacana, mas é um desserviço, na minha visão.

Além do mais, o “mas eu não abortaria” coloca em outra categoria mulheres que abortam ainda que estivessem sob a tutela legal. E normalmente anda de mãos dadas com outra situação que me incomoda e que reforça o quanto o debate é moral: a presunção de que a mulher que aborta está sempre vulnerável financeira ou emocionalmente falando.

Claro que as mulheres que mais sofrem as consequências do aborto inseguro são as pobres e negras, mas não é verdade que a mulher de classe média aborte com a maior facilidade do mundo e nem que esses abortos sejam algo feito em segurança. Já acompanhei de longe alguns casos e não é simples encontrar médico que faça e o processo é todo meio sinistro e bastante assustador. Em geral sobra a elas também abortar sozinhas em casa com o misoprostol, isso quando conseguem acesso a ele.

O debate da forma como vem sendo feito infantiliza mulheres e as coloca sempre em um lugar de não agente. Além de ser reducionista.

“Eu não abortaria mas…” normalmente vem acompanhado de quem pode precisar abortar: essas pobres coitadas que não têm a mesma condição financeira, evolução espiritual ou emocional que eu, tadinhas, elas não precisam ser presas, não é mesmo?

O resultado da moralização do assunto é que uma mulher que escolha simplesmente não levar a gravidez a termo porque ela NÃO QUER seja julgada de todo modo que fique entre dois caminhos: 1) ter um filho que ela não deseja e sofrer em silêncio e 2) abortar sozinha e de forma insegura mesmo que tenha acesso a recursos.

Você acha que não? Faça o exercício: como você se sentiria se uma amiga sua estivesse na mesma situação que eu (casada, com uma vida financeira estável e emocionalmente equilibrada) e ao engravidar te dissesse que não quer um filho agora e, portanto, irá abortar? Qual seria a sua reação?

Uma outra questão é que esse discurso preso ao “eu não abortaria, mas coitada das pobrinhas”, presume também que quem é pobre não poderia ter vários filhos. Isso dá legitimidade a essas loucuras de saírem fazendo laqueadura compulsória em mulheres, sendo que o fato de uma pessoa ser pobre deveria ter zero influencia na decisão pessoal de se ter 1 ou 12 filhos.

Como diz a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, “o problema com estereótipos é que não é que eles não são verdadeiros, mas que eles são incompletos. Eles fazem uma história se tornar a única história”. E nós mulheres não temos uma única história.

Se a cada cinco mulheres uma já fez aborto, com certeza tem muita gente que já fez um aborto na bolha de quem “não faria, mas”. E que não fala sobre o assunto, independentemente da questão legal, por medo do julgamento moral.

Muitas mulheres que abortam são religiosas e, até onde eu sei, praticamente todas as denominações religiosas considera errado abortar. Ou seja, ao menos em tese, a maioria das mulheres que aborta também não abortariam.

Não abortariam, mas abortam…

Eu acho que todas nós podemos precisar de um aborto e temos que ter acesso a isso com segurança. A legislação precisa tratar da realidade: e essa é a de que se aborta, sim, pelas mais diversas razões, apesar das convicções pessoais de cada uma.

A decisão, seja ela por desespero ou por escolha consciente, não pode ser condicionada a convicções alheias. E não raro se decide contra a própria crença – porque a realidade atropela tudo.

Já ouvi de mais de uma pessoa que não deveríamos discutir sobre esse tipo de nuance, pois enquanto estamos discutindo entre nós os “pro-vida” avançam nos tirando direitos no legislativo, como aconteceu na Argentina.

Particularmente, não gosto desses argumentos, que me soam muito “enquanto a gente discute raça o patriarcado segue intacto”, de feministas brancas, ou “enquanto a gente tá desunido falando de gênero a direita bla bla bla”,  vindo de esquerdomacho que não quer discutir gênero. Ou “mas ele é um aliado” (leia-se alguém fofinho de esquerda e camisa florida, de preferência branco e que tem então tem passe livre para ser machista, racista, homofóbico ou transfobico, pois está em processo de aprendizado na sua desconstrução).

Não existe método anticoncepcional 100% seguro e, mesmo que existisse, nada muda o fato de que ninguém deve ser obrigada a ter um filho ou a morrer no processo de tentar abortar.

Abortos existem e vão continuar existindo. É um fato. A pergunta é: como fazê-lo em segurança?

Eu vejo da mesma forma a questão das drogas, por exemplo. Todas as drogas que uso felizmente são legalizadas, mas a questão é que isso não importa, porque sim, pessoas usam drogas, sempre usaram e sempre usarão. E o fato de as que eu hoje uso serem legais é apenas sorte. Talvez um dia eu queira usar outras, talvez não, talvez as que eu uso se tornem ilegais, talvez não. O ponto na discussão é jurídico e político e não convicções e preferências pessoais.

A criminalização das drogas também é uma questão racial e de classe. Aborto inclui, além dessas questões, também a de gênero e é aí que se deve discutir o assunto. E não na questão moral do quem faria ou não, especialmente porque a maioria das que faz não faria.

De novo: não faria, mas faz. E não devem morrer, nem serem presas e nem moralmente julgadas por isso.

Aborto seguro já! Nem presas, nem mortas! Nem uma a menos!

*Também escrevi sobre o tema em dois artigos no Huffpost. Um sobre ser a favor da legalização não significar ser a favor do aborto e outro sobre ser uma questão de saúde pública, não de fé.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito