logo AzMina

“Dei à luz sozinha e com suspeita de coronavírus”

por Letícia Ferreira
30 de abril de 2020
Regina Silva conta como foi sozinha para o hospital fazer o parto em meio à pandemia com o marido diagnosticado com covid-19

(Foto: Unsplash/Aditya Romansa)

“A minha bolsa estourou num domingo, quase uma da manhã. Por conta da pandemia do coronavírus, coloquei uma máscara para proteger as outras pessoas que teriam contato comigo e peguei um táxi sozinha. Foi o jeito, não podia ir com ninguém. Já de quarentena em casa, meu marido tinha que ficar com os nossos dois filhos.

Falei para o taxista que a minha bolsa tinha rompido e ele me deixou na porta do hospital. E isso foi só o começo de um parto completamente diferente de tudo que eu tinha imaginado.

Tudo começou sete semanas antes. Eu já estava de licença maternidade, com 36 semanas de gravidez, quando meu marido começou a ficar mal. Ele continuava saindo para trabalhar e numa sexta-feira começou a ficar mole, com febre e dor no corpo. Como faltava muito pouco para nosso recém-nascido chegar e com as notícias sobre a chegada do coronavírus ao Brasil, eu fiquei bem preocupada. 

Depois que passou a febre, veio a tosse. Quando percebi que meu marido estava doente fiquei bem assustada. Logo pensei nos meus pequenos, temos um filho de 3 anos e outro de 13 anos, e insisti para meu marido fazer o teste para o covid-19. Pagamos pelo exame na rede de saúde particular e o resultado foi positivo. 

Com o teste em mãos, tomamos as medidas necessárias. Meu marido ficou em um quarto sozinho, usando máscara, álcool gel e toda a rotina recomendada pelo médicos. Eu, grávida, e nossos filhos tivemos o menor contato possível com ele. 

Leia mais: Mães de recém-nascidos redobram cuidados diante da pandemia

Dois dias após o resultado, eu comecei a sentir dor de garganta e um pouco de tosse, mas não tive sinais de febre, como é comum entre pacientes suspeitos de coronavírus. Não foi fácil, para dizer o mínimo. 

Com esses sintomas e 40 semanas de gravidez, achei que poderia morrer no parto! Minha família estava super preocupada, sem poder ajudar e qualquer contato físico desde o início do isolamento social. 

Como se não bastasse isso tudo, no dia seguinte eu tinha uma consulta de pré-natal  no posto de saúde, mas a unidade estava fechada para atendimentos que não fossem casos suspeitos de coronavírus. Como  apresentei os sintomas da doença, fui para a consulta, mas não consegui passar pelo de pré-natal, fui examinada por um médico como mais um caso suspeito.

Fiquei muito nervosa sem a consulta de pré-natal. O meu parto estava muito próximo e eu não sabia se o bebê estava bem. O médico queria que eu esperasse até completar 41 semanas, sem monitorar o coração, sem nada. Como a minha gestação foi muito saudável, para eles não tinha risco [na época as grávidas ainda não eram consideradas grupo de risco].

No mesmo dia eu fui até o hospital público da região onde moro para ver o coração do bebê. A médica me mandou ir pra casa e voltar lá na mesma semana para fazer a indução do parto se eu não sentisse nada. 

Leia mais: Pandemia dificulta acesso a contraceptivos quando mulheres mais precisam evitar gravidez

Mas não deu tempo, logo depois disso que minha bolsa estourou. Fui para o hospital sozinha, os profissionais fizeram minha internação e uma enfermeira obstetra me acompanhou. Ela ficou comigo e não saiu de perto de mim. Falo que Deus a usou, porque foi uma pessoa muito boa para mim. Fez meu parto, foi muito rápido e me deu segurança. 

Mas como eu esperava que o meu marido fosse o acompanhante, não planejei levar outra pessoa que não fosse ele, os funcionários foram a minha única companhia nesse momento. 

Depois do parto, que foi uma cesária, eu fiquei sozinha e só pude ver o bebê seis horas depois do nascimento. Eles falaram que era um protocolo da maternidade devido à suspeita e estavam arrumando um quarto para o meu isolamento na maternidade. A pediatra liberou o bebê dez e pouco da manhã e a partir daí ele ficou comigo. Eu deveria usar máscara e álcool em gel, por causa dos sintomas do novo coronavírus. 

Até a chegada das minhas coisas no hospital, na segunda-feira à tarde, meu filho ficou enrolado no lençol da maternidade. Enquanto isso, meu marido ficou sem notícias. Ele ligava no hospital e ninguém sabia informar, ele até pensou que o pior tinha acontecido!

As minhas coisas, inclusive o celular, foram colocadas em um saco logo que cheguei e, por isso, fiquei totalmente sem contato com as pessoas. Quem nos ajudou foi uma vizinha, que me visitou na segunda à tarde. Ela não conseguia falar comigo no hospital, mas eu a vi de longe quando fui ao banheiro, só consegui fazer um sinal de longe.

Leia mais: “Não engravidem!” é o novo “fechem as pernas”

No período em que eu fiquei sozinha no hospital eu só pensava na minha casa, nos meus filhos, sem saber como eles estavam. Minha pressão até subiu de tanta preocupação. E também com o meu bebê, se ele ia ficar bem.

Eu e meu filho ficamos na maternidade de domingo até terça-feira, quando o tio do meu marido foi nos buscar. Fiquei angustiada em trazer o bebê pra casa, o medo tomou conta de mim.

Meu marido ficou sozinho com as crianças durante esse tempo, em total isolamento. Não tinha como colocar outra pessoa dentro de casa com a suspeita e depois confirmação do meu marido.

Mais de um mês depois do parto, eu não tenho o resultado do meu exame para o novo coronavírus que fiz no hospital e no posto de saúde. Mesmo que o resultado seja negativo, eu quero saber. É um descaso muito grande. Agora minha família está bem, mas continuamos isolados em casa, eu, meu marido e meus filhos. Os nossos vizinhos têm medo da gente.”

Quem senta no Divã é Regina Silva, 30 anos, em relato à repórter d’AzMina.


Você tem uma história para contar? Pode vir para o Divã d’AzMina. Envie para [email protected]

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente, já ganhou prêmios e tem mais de quatro anos de impacto na vida de milhares de mulheres. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo sério e responsável que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e livre para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher