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“Peguei coronavírus depois de ordem para trabalhar sem máscara no hospital”

por Letícia Ferreira
30 de março de 2020
Enfermeira que contraiu coronavírus no hospital em que trabalha conta à repórter d'AzMina sobre condições de trabalho na pandemia
enfermeira peguei coronavírus
O hospital orientou a enfermeira a não usar máscaras no atendimento e ela pegou coronavírus (Foto: Pixabay)

“Dor no peito e na cabeça, febre alta e falta de ar. Eu estava em um dos meus plantões no hospital quando senti os primeiros sinais de que não estava bem – sintomas comuns em quem tem coronavírus. Aquilo já me deixou nervosa, porque quando você é da área da saúde, não dá para ficar doente. Sou enfermeira e trabalho em dois hospitais: um da rede pública e um particular. Depois de trabalhar sem os equipamentos de prevenção necessários, meu exame deu positivo para Covid-19.

Os primeiros sintomas apareceram em um dia e no dia seguinte ainda fui trabalhar. Como ainda estava mal, passei por consulta no hospital particular adulto onde sou plantonista no pronto-socorro. Mas mesmo em um ambiente conhecido e no qual trabalho, a experiência foi péssima. A médica que me atendeu achou que eu estava com crise de ansiedade, pois a minha frequência cardíaca estava alta.

Ela pediu alguns exames para descartar outras doenças e me deixar tranquila. A surpresa veio com o resultado de uma tomografia de pulmão com as características de pacientes com coronavírus. Depois disso, ela e outros dois médicos me avisaram que eu estava entre os casos suspeitos.

O pior era que eu tinha me exposto ao vírus trabalhando por causa de orientações descuidadas do próprio hospital, dias antes de sentir os primeiros sintomas. Trabalhei durante o plantão sem máscaras, porque a coordenação do hospital pediu para que os enfermeiros que faziam triagem e tinham o primeiro contato com os pacientes trabalhassem sem essa proteção. Eles queriam evitar que as pessoas se assustassem ao chegar no hospital. 

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Sem contar que na enfermagem do hospital particular, nós temos dificuldade para pegar máscaras, álcool e luva. O que é um absurdo em época de epidemia como a do coronavírus.

É claro que nós da enfermagem ficamos indignadas. São pessoas que estão acima de você e passaram uma ordem incoerente e perigosa. Por isso, falamos com a coordenação e queríamos até usar a máscara sem autorização, mas a postura do hospital mudou só no dia seguinte, quando distribuíram máscaras para todo mundo. 

Mas já era tarde demais. No dia anterior estive em contato com várias pessoas que tinham sintomas do vírus. Eles eram atendidos por um médico específico e eu estava na sala de enfermagem, fazendo a notificação dos casos suspeitos de coronavírus no sistema do hospital. Um ou outro paciente usava máscara, mas não era a proteção adequada para evitar a contaminação de outras pessoas. 

Isso aconteceu no pronto-socorro de um hospital adulto particular, mas também sou enfermeira em um hospital público infantil. Faço plantões de 12 horas e descanso 36 horas em cada um dos hospitais, por isso, a cada dia estou em uma unidade diferente. O salário na área de saúde é baixo e ter dois empregos é a única opção para muitas enfermeiras garantirem uma renda razoável e sustentarem suas famílias.

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A área de enfermagem do hospital infantil tinha instruções para abordar pacientes com sintomas de coronavírus, mas em crianças os casos da doença ainda são poucos. Mesmo com poucas informações, tive mais orientação no hospital público do que no hospital privado para lidar com os pacientes. 

O despreparo dos hospitais compromete a saúde dos profissionais que estão ali para ajudar as pessoas. E sou um exemplo disso. O primeiro teste que fiz para confirmar o diagnóstico inicial de coronavírus deu negativo, só o segundo teste é que confirmou a doença.

Eu fui afastada do hospital antes do resultado dos testes e comecei a cumprir a quarentena de 14 dias, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para pessoas com os meus sintomas. 

Moro sozinha e o primeiro dia após os exames foi o pior. Sentia dores e uma falta de ar muito forte, cheguei a pensar que ia morrer ali, sozinha. Minha família também sofre com isso. Eles gostariam que eu fosse para a casa de um deles, para ter mais cuidados, mas isso não é possível já que a recomendação médica é de total isolamento para quem teve exposição ao vírus ou está com sintomas. Então os deixei de sobreaviso, caso precise de algo. 

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Estou na metade do período de isolamento e o pior já passou. Ainda sinto falta de ar e um pouco de cansaço, mas a febre e a dor no corpo mais forte foram embora. Como tem uma parte do meu pulmão que está comprometida, é normal essa sensação de cansaço. O jeito é repouso, tomar bastante líquido e comer bem. Depois de passar por isso, acho que posso passar por qualquer coisa.”

O relato da enfermeira foi dado sob a condição de anonimato para a repórter d’AzMina.


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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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