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AzMina foi parar no Congresso: vimos desdém e apoio, mas fomos ouvidas

por Equipe AzMina
11 de julho de 2019
Quem senta no Divã hoje é a Marília Taufic, responsável pelo app PenhaS, d'AzMina
Quem senta no Divã hoje é a Marília Taufic, responsável pelo app PenhaS, d’AzMina (Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados)

“Você já tentou conversar com alguém, explicar algo que te toca profundamente ou contar uma história que te marcou e recebeu como resposta um sorriso de desdém, uma negativa com a cabeça, um suspiro de discórdia?

Isso é você tentando dialogar com o diferente, isso é você tentando construir pontes. Não é fácil, mas é transformador.

Na AzMina temos buscado cada vez mais alcançar pessoas que, em natureza, não concordam, ou discordam em parte, da visão sobre o cenário de abusos e violência contra as mulheres no Brasil e do modo que trabalhamos diariamente para combater este problema histórico.

Eis que fomos parar em Brasília, no Congresso Nacional, um dos grandes símbolos do silenciamento feminino. Fomos convidadas para falar sobre o app PenhaS na Comissão de Defesa das Mulheres da Câmara dos Deputados, no seminário “Tecnologias para o Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Famílias”.

O PenhaS é o aplicativo que lançamos em março deste ano que usa a conscientização coletiva, a informação, mecanismos de diálogo e de formação de grupos de proteção como ferramentas de empoderamento e, consequentemente, de libertação da mulher que sofreu violência. Baixe o PenhaS e conheça 😉

A violência doméstica é um tema que tem unido diferentes atores sociais, adeptos ou não do feminismo.

É que os números gritam: o Brasil é o 5º país no mundo que mais mata mulheres, mais de 500 mulheres sofrem agressão física por hora, mais da metade dos autores de violência são conhecidos das vítimas. Não dá para esconder e maquiar as marcas e os números, mas o que estamos fazendo com eles?

A verdade é que, felizmente, o combate à violência contra a mulher está em pauta. Que bom que estamos falando sobre isso e não ignorando o problema. Mas sempre cabe a pergunta: em que medida estamos realmente construindo mecanismos de prevenção e de transformação social para que um dia mulheres sejam vistas com respeito, igualdade e como sujeitas de direitos?

Leia mais: AzMina debate violência contra a mulher no Congresso

Em geral, nesses eventos públicos em espaços de poder político pouco se vê o diálogo, porque em geral as pessoas querem falar, serem vistas, apresentar seu ponto de vista. É assim que esse barco navega desde que o mundo é mundo. Mas esse também é um ambiente poderosíssimo de escuta.

Foi falado, por exemplo, por alguns homens e mulheres, que ainda é necessário salvar a família acima de tudo, que o combate à criminalidade é uma das formas mais eficazes de salvar mulheres, e que os mecanismos de controle social pelo uso de novas tecnologias como câmeras e rastreadores são ferramentas importantes no combate a violência contra a mulher. Ouvimos.

AzMina apresentou o app PenhaS na Comissão de Defesa das Mulheres da Câmara dos Deputados (Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados)

Com o microfone na mão, percebemos o olhar atento de muitos, a concordância tímida de vários, enfática de alguns, e os sorrisos de desdém e as negativas com a cabeça de outros. Mas fomos ouvidas e, por isso, somos gratas.

Pudemos explicar que, como tentamos fazer com o PenhaS agora e há anos aqui na AzMina, não tratamos a violência contra a mulher simplesmente como um assunto de polícia. Ela se torna um caso de polícia. Inclusive, já abrimos conversas com algumas Secretarias de Segurança Pública para que o app tivesse também a possibilidade de contatar as forças de segurança, mas, até agora, o máximo que ouvimos foi que era muito complicado o que estávamos propondo.

Acima de tudo, este é um problema social, de educação, de desigualdade.

Se não conscientizarmos toda a população, mulheres e homens, sobre a necessidade de promoção de uma sociedade livre, justa e igualitária, nenhum botão de pânico terá efeito transformador.

Olhar para a raiz, eis a solução.

Recentemente participei de um debate com a antropóloga e professora Heloisa Buarque de Almeida, que chamou atenção para o fato de, nos Estados Unidos, ser utilizada a palavra “survivor”, ou seja, “sobrevivente”, para falar das vítimas de violência. Uma palavra que potencializa o caráter de resistência e de luta da mulher que passou por uma experiência de abuso.

A verdade é que hoje, para a maior parte das mulheres, não se dá chance à sobrevivência. Por isso precisamos da uma ação conjunta do poder público, organizações sociais, empresas e cidadãos para ajudar a ressignificar a vida de todas nós.

Se é por todas, precisa ser com muitas pessoas. Vamos continuar construindo pontes, espaços de escuta e de diálogo, por todos os lugares.

Convidamos as deputadas e os deputados brasileiros que estavam ou não no seminário que participamos, senadoras e senadores, governadoras e governadores, prefeitas e prefeitos, ministras e ministros, vereadoras e vereadores, agentes públicos e do empresariado, você que está lendo. Convidamos para conversar e apoiar na busca de soluções para que um dia debates como esses não sejam mais necessários.

Quem aceita?

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Você tem uma história para contar? Pode vir para o Divã d’AzMina. Envie para [email protected]

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As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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