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Ancestralidade Oriental: o encontro do machismo com o feminismo

por Viviane Kao
3 de abril de 2019
De uma família patriarcal, a falta de referências saudáveis do Feminino me abriu caminhos para buscar além do conhecido
Eu, meu irmão e meu avô (Arquivo pessoal)

Sou a primeira mulher da família Kao a nascer no Brasil depois de duas gerações de homens. Meu avô era o terceiro de quatro homens; o meu pai o segundo também de quatro homens. E aí vim eu, a primogênita de dois filhos, e de todos os Kao que aqui nasceram.

Fico imaginando como deve ter sido.

Fugindo da fome e da revolução na China, minha família acreditou só poder encontrar liberdade no outro lado do mundo. Recomeçaram, cada um com o que cabia numa mala, atravessaram oceanos durante 3 meses de navio, onde parte dos passageiros morreu em alto mar até chegar ao Porto de Santos. Foram recebidos pelos padres, que deram teto, comida e aulas de português. Meu pai tinha 15 anos na época.

Santos, São Paulo, Minas Gerais, sapateiros, bazar, floricultura, restaurante, pobreza, sobrevivência, estabilidade, paixão, amor, casamento… Em meio a todos estes movimentos que os fizeram criar raízes no Brasil, nasce uma menina quando todos desejavam um menino. Nascem, na sequência, só meninas na família.

Na China, desde que existe história existe o patriarcado. São os homens que levam o sobrenome e a linhagem de uma família, dando continuidade à existência de um nome que carrega toda a tradição e história. Uma cultura que existe há mais de 5000 anos dá muito valor à perpetuidade, pois ninguém quer ser esquecido pelo tempo.

À mulher, cabe servir a esse homem, com seus dotes, seu corpo… sua anulação. Quanto mais obediente e serviçal, melhor uma mulher.

Uma menina quando se casa passa a servir à família do marido, gerando filhos para outro sobrenome. E também vale menos: além de ganhar menos (quando consegue um trabalho), paga-se muito para conseguir casá-la.

O documentário “It’s a Girl: The Three Deadliest Words in the World” (disponível no Youtube) retrata o infanticídio feminino histórico e crescente na China e na Índia por conta das crenças de que menina é uma condenação. Um investimento sem retorno. Um fardo para carregar.

Se genocídio é o extermínio sistemático de uma raça ou etnia, cabe aqui o uso do termo “generocídio” feminino. Entender a raiz desta desvalorização do feminino faz a morte consistentemente surgir como solução. A China também lidera na taxa de suicídio feminino, enquanto que na proporção global o suicídio é maior entre os homens.

Autoria: Sociedade Wesleyan Methodist Missionary, Março 1865

O Brasil realmente nos trouxe a liberdade: a liberdade da existência feminina na nossa família. Graças ao Brasil, eu e as minhas primas ganhamos a vida, pois as chances são mínimas de que teríamos sobrevivido na China à política de um filho na década de 1980.

Os primogênitos de todos os Kao que nasceram aqui foram meninas. A jornada de imigração foi praticamente uma revolução sexual: viemos uma geração inteira de mulheres chinesas encontrar caminhos para a existência, possível apenas por estarmos no outro lado do mundo.

Leia também: O Tao do Feminismo, o que a China pode nos ensinar?

Crescer ao lado de um irmão me deu a oportunidade de vivenciar o quanto se valoriza um filho homem na cultura chinesa. Começa com uma disputa velada na família para ver quem será o primeiro a ter um menino. Depois que meu irmão nasceu, passei a ouvir como meus pais eram afortunados por terem um casal de filhos. Antes disso, só se perguntava quando teriam outro filho.

Meu irmão sempre teve preferência em casa: do que comer, do que assistir, do que brincar. Quem sentava na janela do carro, quem dormia na cama com meus pais, quem ganhava mais comida no prato. Ele era gordo; eu era magra. Ele era saudável; eu vivia doente. Ele era lindo; eu sempre tinha algo para arrumar. Ele repetia de ano; eu nunca era boa o suficiente (mesmo estando entre os melhores da sala).

A minha maior conquista crescendo foi ter um animal de estimação. Para isso acontecer, eu tinha que estar no ranking dos melhores da sala durante quatro boletins seguidos. Eu tinha 10 anos quando ganhei a minha primeira cachorrinha. Ela se chamava Guai Guai (“boazinha”).

Os estímulos na infância de inferioridade e desvalorização me fizeram sentir constantemente inadequada e insuficiente. Mas mais do que vítima, me tornei agente ao acreditar que isso era verdade. Passei a auto-sabotar o Feminino.

Acreditei tanto que era melhor ser eles que via os homens melhores do que as mulheres

Admirava meus chefes homens e tolerava as chefes mulheres; valorizava os conselhos dos tios e nunca me importei muito com a opinião das tias; sempre tive mais amigos homens do que mulheres. Meus parâmetros de excelência eram todos masculinos: de médicos que escolhia para cuidar da minha saúde até os mestres que busquei como líderes inspiracionais: todos homens. Profecia autorealizada.

É possível ser feminista e machista ao mesmo tempo?

Me faltaram referências de um Feminino saudável. A competição feminina começou dentro de casa, com comparações da minha mãe comigo. “Porque você é assim se eu nunca fui assim? Não age assim. Já me viu agir assim?” E das meninas entre elas: a mais bonita, a mais esperta, a mais educada, a mais obediente… Fui condicionada a olhar para a outra sempre em busca do que faltava em mim, ou nela.

Cresci me vendo como parte de um lado frágil e fraco do ser humano: do sexo oprimido e reprimido de sonhos, desejos e afeto.

Tive muitos exemplos de mulheres fortes… eu diria fortes até demais. Guerreiras, sobreviventes, lutadoras, corajosas, perseverantes. Minha mãe, junto com todas que vieram da China, construíram riquezas sem falar a língua, criaram filhos em culturas adversas, deram toda educação que não tiveram. Sou filha desta força e agente ativa desta energia.

Não herdei os passos de ninguém: abri os meus próprios caminhos pelo desconhecido do mundo corporativo, viajante, interconectado, expressivo e terapêutico, me reinventando constantemente.

Mas fui carente de vivenciar o poder da suavidade, da delicadeza, do acolhimento e da abundância. Mesmo sem saber direito dar nome a essas qualidades, sempre ansiei por algo a mais, no encontro com o Feminino. Não em quantidade nem em força, mas além do que conheço.

Leia também: Mulheres da China Comunista Consumista

Este desejo me inspirou a buscar as minhas próprias referências de como viver o Feminino: uma forma desconhecida para todas as mulheres da minha família, da minha cultura e do meu círculo de convivência. Encontrei na natureza a maior mestre de todas e resgatei nos estudos da ancestralidade a lembrança de como me conectar a essa essência.

Não posso chamar de igualdade porque anseio por algo novo, e “igual” me remete a algum lugar já conhecido. Honro tudo que me trouxe até aqui, mas não é isso que vai me fazer chegar lá.

Quero criar novas terminologias para conceber a energia do Feminino, porque as palavras que existem hoje são criações do patriarcado. Machismo e feminismo são só palavras que criaram para denominar e classificar uma compreensão.

Sou muito mais do que um “ou” outro. Sou ambos em complemento, e nenhum ao mesmo tempo. Sou movimento em formação. Sou emoção sem formato, nem palavras com definição. Sou um ciclo de criação e destruição, invenção e reinvenção, sem ordem nem limitação.

Sou Kaos feminino.

Dedico esta coluna a todas as mulheres chinesas nascidas no Brasil. Nós somos revolução.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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