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A necessidade da desobediência

por Viviane Kao
12 de junho de 2019
O controle se tornou tão invisível que o ato de obedecer parece uma escolha. É aí que se esconde a ilusão de que somos livres.
Tradicionalmente, as mulheres ocupam cargos de não combate no exército, mas isso já está mudando. Foto: Women of China

Hao Guai” (好乖)

Esse é o elogio mais comum para as crianças em chinês: ser “boazinha”. Quando um bebê dorme a noite toda sem chorar: hao guai. Quando uma criança tira notas boas na escola: hao guai. Quando come tudo que tem no prato: hao guai. Quando ajuda os pais nos afazeres da casa: hao guai.

Guai é uma qualidade que mistura bondade com obediência e educação. Uma fusão clássica do que é ser bem-comportado basicamente em qualquer cultura. A chinesa criou um padrão tão bem definido disso que uma criança aprende logo cedo a entender o que tem que fazer para ser boa.

Eu me esforçava muito para ganhar a atenção dos meus pais. Eles trabalhavam tanto que chegavam em casa exaustos demais para qualquer forma de demonstração de carinho. Só queriam descansar, então tudo o que meu irmão e eu podíamos fazer sem bagunça e sem depender deles era elogio na certa.

Bastava pegar um livro e ficar balbuciando sem entender nada sozinha ao lado da minha mãe enquanto ela dormia, que ela acordava me olhando emocionada: hao guai. Este reconhecimento enchia meu coração carente de calor. Foi assim que aprendi com as minhas primeiras referências de carinho que obedecer e ficar quietinha era o maior ato de amor que podia dar para receber.

Foi um desafio crescer me descobrindo como individua enquanto tentava caber nos limites que o bom comportamento impõe. Como expressar livremente a minha personalidade e ao mesmo tempo seguir padrões externos do que é ser boa?

Eu tinha vontade de fazer coisas que não eram considerados guai. Queria brincar quando tinha que estudar. Queria comer lasanha quando tinha ovo. Queria sair de casa quando a rua era perigosa demais. Queria pegar chuva mesmo que adoecesse depois. Mas acima de todos estes desejos estava o meu de querer agradar. E por ele, abria mão de todos os outros.

A dualidade da obediência

A obediência tem como pressuposto o reconhecimento de uma autoridade, que em troca da nossa servidão voluntária, como definiu Étieene de La Boétie, oferece algo primordial à vida: seja por via do amor ou do medo. Eu obedecia por amor, mas também por sobrevivência. Eu me comportava bem para agradar, e ao agradar eu evitava aquilo que tinha medo e conseguia o que queria. Ou o que achava que precisava. Me condicionava na certeza de que ao fazer o que se esperava de mim, receberia em troca o que queria deles: afeto, atenção, reconhecimento, amor.

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Isso eventualmente se tornou um ato de controle sobre dar para receber. Um sistema de recompensa e garantias formou a base da minha relação com o mundo social: ao me comportar bem, receberia algo em troca. Difícil discernir quem era o controlador e o controlado, mas estava estabelecido a relação de controle. O ato de obedecer se torna tão manipulador quanto o de mandar. E o ato de não receber, uma frustração incontrolável.

Quando o meu comportamento não gerava o resultado que esperava, eu acreditava que precisava me esforçar mais para aquilo acontecer. E quanto mais me esforçava, menos me conectava com a realidade que se apresentava, presa somente no que queria, do jeito que queria e no tempo que queria. Toda relação social me pedia uma ação, e consequentemente também gerava uma expectativa do que tinha que acontecer. Ou uma frustração quando não acontecia.

O forte e o fraco

O anônimo “homem tanque” na revolução de 4 de junho de 1989 na Praça Tiananmen. Foto: Reprodução

Em 1989 assisti pela televisão um ato de desobediência na China que me marcou profundamente. Um homem magrinho para em frente a uma fileira de tanques. O tanque se vira, na tentativa de dar a volta por ele. Ele não se intimida, e move-se junto, firme na sua postura corporal de que daqui não passa.

Eu tinha 8 anos na época; criança demais para entender sobre todo o movimento de revolução democrática dos estudantes chineses na Praça Tiananmen em Beijing. Registrei apenas a cena que se repetia nas mídias: a de um homem fraco e tolo parado diante de tanques monstruosos, que ao mesmo tempo me emocionava pela força e coragem que demonstrava ao enfrentá-los sozinho. Nunca se falou deste acontecimento. Quando perguntei porque este homem estava fazendo isso, a resposta que recebi em casa foi que ele era “desobediente”. A minha memória gravou que as próximas cenas que seguiam era do tanque passando por cima do homem.

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No dia 4 de junho marcou-se 30 anos deste acontecimento. Fui estudar o que havia acontecido nos bastidores desta cena que marcou a minha infância, e que nunca foi conversado a respeito entre chineses. Aprendi sobre a revolução que os estudantes daquela época organizaram, assumindo a responsabilidade que tinham de ser o futuro. Saíram às ruas para protestar pela democracia e liberdade pacificamente. Persistentes e determinados, eles resistiram durante semanas com a greve de fome, até que a única saída que o governo comunista encontrou para acabar com o movimento foi o massacre. Um número não divulgado de estudantes desarmados foram mortos pelas tropas do governo para dispersar e acabar com a sua ameaça àqueles que estavam no poder.

Para minha total surpresa, descobri que o homem-fraco-e-forte que ficou parado em frente aos tanques havia sido resgatado por outros civis na época, e que ele jamais tinha sido atropelado. Minha imaginação havia construído a condenação e punição pelo seu ato de desobediência às autoridades, e deu a sentença máxima de penalidade. Um reflexo do medo inconsciente que tinha no poder da desobediência, em proporção vital com a qual ela recompensa.

O invisível que controla

Nos confrontos registrados em câmera na época, outra cena me marca. Os estudantes pacíficos que protestavam pelo futuro democrático colidiam com o exército armado que representava o poder. Todos tinham a mesma idade e nacionalidade. A maior crítica internacional a este massacre foi a ordem de extermínio dado aos seus “próprios filhos e executadas pelos seus irmãos”.

A base da obediência, que começa na infância ensinada pelos próprios pais, assim educados pelos seus pais sucessivamente, é a busca pelo controle. Esse controle se torna uma lente pela qual se enxerga a vida, a que nos foi dada e também aquela que perpetuamos. Os limites são claramente estabelecidos, e qualquer tentativa de se sair dela precisa ser executada com repressão: a forma mais infantilizada que existe de lidar com a frustração.

O controle se tornou tão invisível que o ato de obedecer parece uma escolha. É aí que se esconde a ilusão de que somos livres. Nossa vontade de agradar disfarça a necessidade de querer algo em troca. É preciso olhar a fundo para o que está invisível aos nossos olhos e entender o que nos leva, ainda hoje, a obedecer um outro ser humano quando não somos mais crianças dependentes, mas seguimos afetivamente carentes. Já internalizamos tão bem o papel da autoridade, que nem precisamos de um agente externo para ditar o que deve ser feito para agir dentro da conformidade do que é ser correto.

Guai fez com que jovens obedecessem às ordens dadas por autoridades para executarem outros jovens desobedientes à lei. Eu mesma havia feito o mesmo na minha imaginação.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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