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Sobre maternidade e Bolsonaro – e as mulheres que estão na trincheira comigo

por Tayná Leite
14 de novembro de 2018
Tayná Leite conta como está sendo ser tudo o que o novo governo ataca, ameaça e agride. "Eu sou aquela que ele diz que tem que sair do país ou ser presa"
Ato de mulheres contra Bolsonaro. Foto: Lula Marques/Fotos Públicas

Eu sabia que estava atrasada. Quando a editora d’AzMina me mandou mensagem perguntando da coluna meu coração acelerou. “Adoraríamos um texto seu sobre os desafios como mãe diante do cenário político”, disse. Eu adoraria escrever esse texto sobre maternidade e Bolsonaro e eu pensei muitas vezes sobre ele.

Abri o Word pelo menos uma vez por dia com o intuito de escrever para a coluna nos últimos dois meses. Mas ou vinha o choro, ou vinha a raiva. Às vezes os dois juntos.

Escreve, deleta, recomeça, fecha a tela e vai pegar um café. Passa dia, entra dia e nada de texto, mas a mensagem que eu esperava chegou. Mesmo assim não consegui. Ainda estava doendo demais. Ainda estava nebuloso demais.

Esse texto está sendo escrito depois de mais de 15 dias do dia da eleição.

Eu sou feminista
Eu sou ativista
Eu defendo os direitos humanos
E eu sou de esquerda
E umbandista

E sou também mãe.

Sou tudo o que o novo governo ataca, ameaça e agride. Eu sou aquela que ele diz que tem que sair do país ou ser presa.

Talvez meu filho seja também.

Talvez não. Talvez ele seja apenas o filho de quem é persona non grata.

Reflexões

Minha vida pessoal está uma loucura, não lembro de me sentir tão confusa profissionalmente desde os meus 15 anos. Na maioria dos dias dos últimos meses eu fui confrontada com todas as minhas escolhas e como elas me trouxeram até aqui.

Em muitos desses dias eu me peguei questionando se fui e estou sendo uma boa mãe por me expor dessa forma e estar pagando o preço disso. Chorei, fiz planos, rasguei esses planos e fiz outros.

Sigo reflexiva sobre os rumos da minha vida pessoal e profissional, mas todas as vezes que eu pensava sobre tudo o que está acontecendo eu suspirava aliviada e orgulhosa por fazer parte da resistência.

Por estar nessa luta há quatro anos, muitas vezes com a sensação de estar falando ao vento e cada vez mais estar vendo tanta gente do mesmo lado, na mesma vibe e saber que somos MUITAS. Me sinto aliviada por saber que o exemplo que estou dando ao meu filho é o de alguém que acredita em si, nos seus ideais e no que há de melhor no ser humano.

De alguém que não silencia diante da injustiça e do desamor. Alguém que vive a diversidade e a pluralidade como valores essenciais para um mundo pelo qual vale a pena lutar.

Carta ao meu bebê

Lembrei da carta que escrevi ao meu bebê, ainda na barriga lá em 2016. Especialmente deste trecho:

“Meu coração chora como mãe por antever um Brasil em que você, meu filho, caso seja gay, trans, de esquerda ou militante de causas sociais, será provavelmente perseguido em um governo totalitarista e conservador que já temos aflorado em nosso Congresso.

Meu coração chora por saber que a corrupção continuará pior do que nunca já que está sendo blindada sob pretexto falso e, pior, com o apoio de tantos e tantas que acreditam que seu voto é melhor ou vale mais simplesmente por serem mais privilegiados!

Hoje não me cabe nada que não a tristeza e o lamento. Mas amanhã, meu pequeno, voltarei a lutar por um mundo melhor, por mim e por você e por todos e todas que precisam da nossa voz, pois constantemente silenciados, invisibilizados e, agora, com seus votos roubados.

Teve golpe, mas vai continuar tendo luta.”

Lembrei da minha promessa de ser sempre instrumento e porta voz daqueles e aquelas que não são ouvidos.

Aí olhei para o lado e vi todas as mulheres incríveis que estão nesta trincheira comigo e quis usar esse espaço para agradecer a todas elas pela energia, força e ânimo que me dão mesmo sem saber. Por estarem comigo na linha de frente e também por serem a fronteira quando eu não pude ou consegui. Por me darem a esperança de que o amanhã pode ser melhor e VAI!

A começar por todas as mulheres dessa revista incrível que tornam possível um conteúdo tão maravilhoso e independente, em especial à Nana Queiroz que me convidou para escrever sobre maternidade e que hoje é também uma mãe incrível!

Eu sempre digo que precisamos escolher nossas batalhas na vida porque não vamos ganhar todas. Mas essa aqui já ganhamos: a batalha da sororidade e de mulheres unidas em prol de um mundo melhor!

Então, minha mensagem nessa coluna é principalmente uma mensagem de esperança e um convite para a ação.

Tome seu tempo, reflita, escolha suas prioridades e quais serão as suas batalhas.

Depois levante-se!

Luta

“Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu!”, disse Hanna Grasby.

Eu tenho muito orgulho da minha história e da mulher que ela fez com que eu me tornasse.

Tenho orgulho de ter me levantado a cada queda – e não foram poucas – mas, principalmente, de ter levantado uma pessoa melhor. Mais humana, mais humilde, mais amorosa, especialmente comigo mesma, e mais ciente de minha responsabilidade, dos meus privilégios e dos meus limites.

Eu me levanto a cada queda, eu lutei e luto muito para me reconstruir todas as vezes que o mundo parece me dizer que eu não sou digna.

Eu me levanto sobre os ombros e com a força de todas as mulheres que vieram antes de mim.

Eu me levanto também pela promessa que fiz ao meu filho antes mesmo dele nascer.

Eu me levanto por todas as mulheres que ainda virão e por aquelas que estão ao meu lado e que talvez nem saibam o quanto me dão forças e inspiram para que eu continue me levantando.

Porque LUTO para mim é VERBO.

Obrigada por me ajudarem sempre a levantar manas!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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