logo AzMina

“Abortei porque quero ser uma mãe melhor no futuro”

por Anô[email protected]
27 de setembro de 2019
O Divã de hoje é anônimo porque aborto ainda é crime no Brasil

“Eu fiz um aborto com remédio.

Já se sentiu muito sozinha em algum momento da sua vida? Ou se sentiu incapaz durante sua jornada aqui neste mundo? Pois é, me senti assim desde o momento em que descobri de estava grávida. Não tive apoio do meu marido, muito pelo contrário. Ele encarou a gravidez como ‘algo que veio para fuder com a vida dele’. Era isso que ele me dizia, fora o olhar frio para mim. Aquilo me matava todos os dias.

Sobre ele não querer o bebê, eu já sabia disso há quatro anos. No mesmo dia em que descobri a gravidez, nós discutimos e a partir dali comecei a pensar se teria ou não estrutura para ser mãe, mas principalmente, se eu queria ser. Contei para minha mãe e ela me deu todo apoio do mundo, mas mesmo assim não foi o suficiente. Decidi fazer um aborto com remédio.

Sempre fui a favor do aborto e foi aí que comecei a procurar sobre métodos de aborto com remédio, até que encontrei uma ONG que me ajudou muito, mas não conseguiu me enviar o medicamento devido a uma greve dos Correios.

Localizei então uma pessoa que vendia de forma clandestina. Com medo, fiz o pagamento e o remédio chegou com três dias de atrasado devido a greve, mas chegou. Tomei o medicamento no último domingo e quanta dor, quanto sofrimento.

Leia mais: Como é feito um aborto seguro?

Foram seis comprimidos divididos em três doses. Foram quatro horas de dor e mais duas horas de expulsão do feto. Foi então que descobri que estava grávida de gêmeos.

Nós, mulheres, não sabemos ou não imaginamos o quão doloroso e solitário é o processo, o quanto podemos nos se sentir incapaz ou menos mulher por ter feito isso. Ou podemos não sentir absolutamente nada e está tudo bem – imaginei que comigo seria assim, mas não tem sido.

Faz quase uma semana que abortei e ainda me sinto sozinha, triste e incapaz. Não incapaz por ter abortado, mas incapaz por em nenhum momento ter amado esses bebês.

Tenho trabalhando o dobro para não pensar no assunto, lendo livros para ocupar minha mente, converso com amigos (ou tento pelo menos), mas sempre antes de dormir vem a imagem dos fetos saindo de dentro de mim (sim, eu consegui ver, já que estava de doze semanas).

Escrevo esse relato para ajudar outras mulheres a se preparar para o que pode vir. Tome a decisão por você, não se sinta culpada ou incapaz, como eu estou me sentindo. Compreenda que cada mulher reage de uma forma e não é isso que faz de você mais ou menos mulher. Procure pessoas que você saiba que possam te ajudar a passar por este momento e você verá: no fim dará tudo certo.

Leia mais: Aborto é sempre traumático? A história de Maria diz que não

Para mim, a única coisa que desejo é deixar de pensar nisso e seguir com minha vida, me tornando uma pessoa melhor a cada dia, para que quando engravidar novamente, eu consiga ser a mãe que meu filho merece, a mãe que meu Benjamin e Gael não tiveram a chance de ter.

Deixo aqui meu agradecimento à Revista AzMina, por compartilhar minha história e por me munir de informações e histórias que me ajudaram e me ajudam até o momento. Estamos todas juntas nessa.”

O Divã de hoje é anônimo porque aborto ainda é crime no Brasil.


Você tem uma história para contar? Pode vir para o Divã d’AzMina. Envie para [email protected]

Leia também: AzMina faz reportagem sobre aborto e é denunciada por Damares
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher