
Em novembro de 2024, eu finalmente consegui encerrar e publicar a minha dissertação de mestrado: Alimentação e Patrimônio Imaterial da Humanidade: diálogos a partir do cuscuz no Brasil, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo.
A minha jornada na pós-graduação foi atravessada por muitas dificuldades, porque quando eu ingressei, em março de 2022, eu já vivia episódios de dor crônica. Além disso, minhas funções cognitivas e executivas também estavam bastante prejudicadas.
O meu sofrimento mental foi resultado de dificuldades trazidas pela pandemia de covid-19, que impedia a execução de certas atividades. Aliadas ao tratamento oncológico da minha mãe, que intensificou sobre mim a centralização e a pressão das atividades de cuidado.
Então, estar no ambiente acadêmico, foi só mais um “detalhe”.
Em meio a tudo isso, enviei meu projeto de pesquisa em agosto de 2021, mas o objeto de estudo não estava claro. Os encontros com meu professor-orientador Geraldo Tadeu Souza, em grupo e individual, mostraram que a metodologia, os procedimentos e o referencial teórico estavam vagos. Ao mesmo tempo, me fizeram reconhecer a potência da minha pesquisa sobre o cuscuz no Brasil, e como o meu vínculo com o tema bradava em mim.
O cuscuz como tema central
Eu pesquisava o cuscuz, informalmente, desde o primeiro semestre de 2020. Comecei meses antes do couscous de trigo do Magrebe, noroeste da África, ser declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO.
Desde 2018, por meio da fotografia, eu investigava novas possibilidades de imagens com diversos elementos e objetos. Cheguei no cuscuz nordestino de milho, em janeiro de 2020, quando eu percebi que é um prato do meu dia a dia e que ativa algumas lembranças. Me remete ao que já vivi com a minha mãe, que nasceu e viveu em Recife (PE) até os 20 anos, e com o meu pai, que nasceu e viveu em Lagoa dos Gatos Maracajás (PE) até os 8 anos. Na ocasião da diáspora, nomeada “retirância”, eles se encontraram na cidade de São Paulo, onde me conceberam.
Quando tomei consciência disso, passei a focar na conexão das minhas vivências pessoais com acontecimentos coletivos. Mas, eu também alimentava outros interesses no campo acadêmico, o que motivou a apresentação de um projeto em outra área. Contudo, com dificuldade em manejar meus afetos, pa-ra-li-sei. Me via dividida, queria conciliar as pesquisas formal e informal, mas perdia o foco.
Mesmo tendo elaborado os objetivos, eu oscilava muito entre um movimento ‘megalomaníaco’ e uma completa desconexão com o trabalho. Afinal, eu tinha vários projetos de pesquisa dentro de um, como foi sinalizado na qualificação do mestrado.
Entre os ‘desejos’ e as obrigações
Essa vivência marcada por conflitos entre os meus “desejos” e as obrigações, também foi atravessada pela minha participação no Laboratório Esquizoanálise e(m) Diásporas – um conjunto de saberes transdisciplinares focados em uma outra noção de desejo na psicanálise.
No Laboratório, tive boas discussões com pessoas do campo da psicologia e outras áreas, mas nenhum deles produziu sobre a história do cuscuz no Brasil. Então, eu precisava desenvolver as conexões com o meu tema, mas eu não dava conta de formulá-las, porque eu mesma não havia lidado com as etapas primárias do processo de pesquisa.
Em meio aos meus conflitos, eu desisti do mestrado por alguns meses.
Zonas de cuidados
Mesmo já adotando cuidados espirituais e psicológicos, quando eu ingressei na pós-graduação no início de 2022, percebi que precisava, inclusive, de tratamento psiquiátrico.
Eu já sabia que esse processo para “sanar” o sofrimento psíquico decorrente de problemas mentais pode ser longo. Além disso, meu primeiro psiquiatra me causou mais dor.
Frente às minhas devolutivas queixosas, pois após oito meses eu só piorava, o psiquiatra me respondeu: “Sabe Ariane, quando nenhuma medicação funciona, o problema está na psicoterapia”.
Por isso, rompi com o “tratamento”. Depois, passei por algumas crises e em uma delas, fui socorrida, e em seguida, encaminhada ao CAPS. Na época, eu ignorei o encaminhamento.
Quando voltei a ter crises, já era janeiro de 2023, então, procurei outra psiquiatra. Ela era maravilhosa, mas depois de duas consultas, percebi que eu não conseguiria sustentar o processo.
Na época, eu estava em insegurança financeira. Foi quando lembrei do encaminhamento anterior e iniciei o tratamento psiquiátrico pelo CAPS III “Alegria de Viver” em Sorocaba (SP), onde vivo.
Mana!, em duas consultas nós chegamos em lugares que eu ainda não tinha chegado com as outras profissionais. Tanto na sensação de melhora, quanto no baixo índice de efeitos colaterais.
Ter achado a melhor estratégia não impediu que eu oscilasse entre melhoras e pioras. Mas está tudo bem!
Ciclo de marés e suas ondas num vai e vem sem fim
Viver é mesmo assim
– Destilações, Cordel do Fogo Encantado (2018)
Refeita para voltar ao mestrado
Curiosamente, o meu período de “desistência” do mestrado corresponde ao período em que eu iniciei aulas de dança contemporânea. Lá criamos e compomos coletivamente: gestos, gestus, movimentos e ritmos, sobre o visível e o invisível, manifestos em nossas experiências cotidianas.
Em síntese: os processos em dança contemporânea permitiram avivamento, integração e simbolização. Foi poderoso!
Por fim, junto a estes encontros, está o meu encontro cotidiano com o cuscuz nordestino de milho, uma relação interespecífica, onde eu aprendo, ou sou lembrada, a me hidratar, descansar, deslocar e permitir ser atravessada por outros entes, entidades e substâncias para me nutrir e transfigurar…
Quando retomei o mestrado, ainda em sofrimento, mas um pouco melhor, precisei acelerar o ritmo por causa dos prazos. A pressa fez com que eu ignorasse os artigos sobre o cuscuz e teorias do campo das antropologias e sociologias da alimentação. Felizmente, a pesquisa não acaba na submissão de uma dissertação.
Em especial, esse meu encontro com o cuscuz me faz lembrar que nem todo calor e nem tudo que nos invade – como o cheiro de cuscuz que incensa a casa -, é aniquilador.
Bora celebrar!?
