Foto: Arquivo pessoal

Quem senta no Divã hoje é a Bárbara Mengardo, nossa editora de opinião.

“Esse texto é sobre sair do armário. Mas não só. Esse texto é sobre felicidade e, sobretudo, sobre liberdade. É sobre escolher um caminho e viver as dores e as alegrias que ele proporciona, sem ter medo de olhar para trás.

Tenho que confessar que escrevi e reescrevi o começo desse relato várias e várias vezes. Como colocar em letras, palavras e parágrafos uma experiência tão empoderadora e libertadora? Ao final, pensei em alertar a leitora ou leitor: você está prestes a ler sobre a experiência mais feliz da minha vida.

Quando as pessoas descobrem que me relaciono com mulheres, quase sempre me perguntam duas coisas: “Você sempre soube que era lésbica?” é a primeira. “Seus pais reagiram bem?”, a segunda.

Nesse texto vou tratar apenas da primeira questão. A resposta à segunda é “sim”. Meus pais foram maravilhosos, e eu sei que isso é um privilégio e está longe de ser a realidade de grande parte dos jovens LGBTs desse país.

No dia em que resolvi sair do armário eu estava em um relacionamento com um homem. Ele era legal, te garanto isso. Ele era companheiro e nós eramos felizes, de verdade.

O que aconteceu? Bom, para dizer a verdade, eu me apaixonei por uma mulher, mas posso te dizer que não foi por conta dela que eu terminei com ele.

Eu tinha 25 anos quando isso aconteceu. No começo me pareceu um pouco velha, sabe? Eu pensava comigo mesma que havia demorado muito tempo para descobrir o que me faria feliz.

Hoje, porém, eu vejo essa idade como um marco: foi o momento no qual eu pude definir meu futuro e olhar para o meu passado de uma forma totalmente nova.

No momento em que resolvi me abrir para a minha sexualidade, consegui ver meu passado de uma forma que até então havia ignorado. Me surpreendi ao perceber que o meu desejo por mulheres sempre esteve lá. Na garota que eu gostava no colégio, na sensação que eu tive ao beijar uma menina pela primeira vez, na minha falta de interesse por conversas sobre aquele menino da classe que era visto como bonitão.

Eu nunca havia imaginado passar a minha vida com uma mulher, mas descobri que meus olhos estavam fechados, e a culpa, claro, não era minha, mas de uma sociedade que me criou para ter um marido, dois ou três filhos perfeitinhos e um cachorrinho de raça (vira-latas são proibidos em comerciais de margarina).

Mais do que uma oportunidade de olhar para trás, porém, sair do armário foi um momento de olhar para frente. E essa foi a melhor parte!

Tive a oportunidade de repensar absolutamente tudo na minha vida. Olhar para mim e perguntar: Quem é esse novo eu indo na balada? Quem é esse novo eu me relacionando com amigos? Do que esse novo eu não tem mais medo?

É difícil colocar em palavras o quão grandioso esse momento foi para mim, o quão empoderada eu me senti. Era como se eu tivesse descoberto um cômodo escondido dentro da minha própria casa, com mil e um mistérios a serem desvendados, mil e uma gavetas a serem abertas, cada um com cores, sensações e gostos diferentes.

Eu não vou dizer que esse caminho é fácil. Na verdade é o oposto de fácil, e infelizmente já recebi um tanto de ódio. Já tive um tanto de medo e já derramei um milhão de lágrimas. Mas também já recebi um tanto de amor, que superou de longe o ódio, o medo e as lágrimas.

Enfim, da mesma forma que fiquei escrevendo e reescrevendo o começo desse texto, fiquei meio sem saber como terminá-lo. A questão é que não vim aqui fingir que a minha vida é um paraíso maravilhoso de felicidades eternas.

Esse texto pode parecer sobre sair do armário, mas na verdade ele é sobre procurar a felicidade. Agarrar a liberdade e não soltá-la por um segundo sequer. Escolher as pedras sobre as quais irá pisar e se deliciar com os caminhos aos quais elas levam.

É sobre amar. E viver.”

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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