O Divã de hoje é anônimo.

“Sempre senti dor e mal estar na penetração, desde a minha primeira vez. Já fui a ginecologistas, psicólogos, psiquiatras, terapeutas, homeopatas, procurei respostas em muitos lugares. Acreditava que havia algo de errado comigo. Que talvez fosse traumatizada. Que minha sexualidade talvez fosse “infantilizada”. Passei anos tentando e fazendo grandes esforços pra encontrar prazer assim. Só hoje, aos 32 anos, vejo a coisa de outra forma.

Quando descobri a masturbação no início da adolescência, encontrei o prazer fora da vagina, no clitóris. A pressão leve do chuveirinho era mais do que suficiente pra causar orgasmos muito intensos. Acho que até com vento, se for com jeitinho, sou capaz de gozar. Nem passava pela minha cabeça a necessidade de inserir algo dentro de mim pra sentir prazer.

Mais tarde, tive um primeiro namorado. Meninos têm pênis, e como se faz sexo? Colocando o pênis dentro da vagina, certo? Eu achei que fosse só colocar lá dentro e esperar sentir aquele prazer que eu já conhecia sozinha. Minha referência de como se faz sexo era o que se vê em filmes, em novelas, em revistas pornôs (na época não tinha internet). Ou até nos livros infantis que meus pais me deram pra explicar de onde vêm os bebês. O homem introduz o pênis na vagina, e os dois sentem prazer com isso. Mas estava errada.

Me senti muito mal na primeira vez, mas não falei pra ele parar. Fiquei ali imóvel, com a boca seca, sentindo uma agonia, porque achava que era assim que se fazia sexo e que, se não estava sentindo prazer, a errada era eu.

Continuei tentando por muitos anos, quebrando a cabeça, pois a coisa nunca funcionou como eu esperava. Enquanto o estímulo estava por fora, era uma maravilha — quando chegava a hora da penetração, aquilo sempre me destruía. Eu me sentia mal por estar desapontando, queria dar prazer para os namorados. Era ruim não “funcionar” de acordo com o que esperavam de mim, ter que explicar e me justificar. E às vezes chorar, sem conseguir explicar qual era o problema.

Depois de alguns anos aprendi o truque de pedir para o namorado ficar me masturbando enquanto penetrava. Mesmo assim, sempre em algum nível havia dor, mal-estar e deprê depois de transar.

Aos 17 comecei a namorar um cara de 30. Cheguei a vomitar um dia depois que transamos. Eu não entendia: estava nos braços do meu namorado que estava dizendo “eu te amo”. Devia ser algum trauma do passado. Dá até vergonha de dizer, mas o fato é que nunca me passou pela cabeça que o que estava sentindo era na verdade por um abuso que tinha acabado de acontecer!

Ele tinha 32. Eu tinha 17. Por que um homem de 32 procura uma adolescente de 17? Porque a gente com essa idade quer fazer de tudo pra agradar e ser aceita. A gente ainda não teve tempo de sacar como as coisas são e confia no que um homem adulto e experiente diz que é.

Se ele diz que adora te comer de quatro, então você faz sua melhor pose e acha que está arrasando em se parecer com qualquer imagem de mulher sexy que tenha visto na capa de uma revista ou sei lá onde. Mesmo que depois disso você queira vomitar.

Ai se alguém ousasse me dizer que estava num relacionamento abusivo. Eu estava achando o máximo ser tratada de igual pra igual por um homem adulto, e não ia abrir mão disso tão fácil.

Anos depois, quando eu devia ter uns 26, ele veio me dizer que se sentia com peso na consciência por ter forçado tanto a barra no sexo naquela época. E eu, como que ainda sob aquela hipnose, disse que ele nunca fez nada de errado, que eu é que devia ter o tal trauma de infância e que a culpa era minha por não saber dizer não.

Depois tive outros namorados. Mesma história. As amigas também, algumas contavam sobre esse mal-estar. Sobre o sentimento de parecer ter sido atropelada depois de transar. E ficávamos contemplando aquilo como um grande mistério.

E hoje eu quero perguntar pra todas as mulheres: por que a gente transa sem estar a fim? Por que a gente faz coisas que nos fazem sentir mal? Por que a gente acha que tem que funcionar de uma certa forma e fica procurando defeito no nosso corpo quando isso não acontece?

Será que não há algo errado com essa fórmula que temos sobre como um casal deve transar? Precisamos mesmo ser penetradas? E caso positivo, será que temos mesmo que ser penetradas da forma como somos?

A principal referência masculina sobre como transar são filmes pornôs, ou seja, filmes em que a mulher é comercializada como um objeto para o prazer masculino e onde podemos ver claramente caras de dor, ausência total de lubrificação/excitação e total desprazer em ser penetrada com força e velocidade.

Nunca me foi feita a pergunta, nem de fora e nem de mim pra mim mesma, se eu desejaria ter um pênis dentro da minha vagina. Isso sempre foi tido como óbvio e, caso não gostasse, a resposta pra isso sempre foi “você tem um problema” ou “tem algo errado com você e seu corpo”. Penso que, se a heterossexualidade não fosse compulsória como é, no mínimo eu teria me comportado como bissexual.

Eu gosto de homens, me sinto atraída por eles. Todas as minhas memórias de estar apaixonada e com tesão são relacionadas a alguém do sexo masculino. Mas penso que, se a expectativa de um parceiro é me foder como uma britadeira, eu simplesmente não vou poder atender a essa expectativa.

Hoje me conheço melhor. Depois de muito esforço e práticas mal-sucedidas, aprendi posições e sei como sentir prazer sendo penetrada. Mas são necessárias muitas preliminares, e que a coisa seja feita com suavidade. Se não for assim, não quero. Se eu fizer antes de estar no ponto certo, vou estar violentando a mim mesma. Vou estar me permitindo ser violentada. E que motivos eu teria pra isso?

Sempre fui eu a pessoa a tomar iniciativa de ir ao médico e nunca, nunca algum dos meus namorados pareceu questionar a si mesmo: “Será que estou fazendo algo errado? Ela parece sofrer com o jeito que faço sexo com ela”.

Acredito que precisamos muito nos conscientizar que nosso corpo é sábio e tem que ser respeitado do jeitinho que é, seja quem for nosso parceiro!”

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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