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O divã dessa semana é do Klaus. Siga-o no Twitter: @klaustrophobya

Foram 26 anos que passei vivendo como mulher. Ou, pelo menos, tentando ao máximo ser o que a nossa sociedade espera de uma. Até que nada passou a fazer sentido. Ou tudo, de repente. E assim eu percebi que esta caixinha, a de ser mulher apenas porque nasci com uma vagina, não me cabia.

Ao ler isso, vocês devem estar se perguntando: “poxa, migs, nenhuma mulher consegue ser o esperam. Quase todas as mulheres quebram estereótipos de gênero, mas ainda assim, continuam sendo mulheres”. Só que o que aconteceu comigo não foi só uma quebra de paradigmas, tampouco apenas uma mudança nas roupas ou no visual como uma maneira de me rebelar contra o patriarcado.

Me descobri uma pessoa trans não-binária, isto é: uma pessoa cuja divisão binária de gênero em homem x mulher não a contempla.

Não foi e não tem sido fácil. Eu perdi praticamente todos os meus referenciais e me senti muito perdido. Não sabia muito bem como lidar com essas questões, com o adendo de ser neuroatípico. Não sabia mais qual espaço ocupar, nem se deveria continuar na militância feminista sem me identificar como mulher. Até do Roller Derby (esporte de contato sobre patins, praticado predominantemente por mulheres) pensei em sair, por não sentir que seria correto estar ali. Muita gente que dizia me amar acabou me abandonando. E me vi terrivelmente só em muitos momentos.

Quando você se assume e se entende trans grande parte das pessoas cis, automaticamente, presume que a sua identidade de gênero será a “oposta” (como eu odeio essa palavra neste contexto) da que lhe atribuíram compulsoriamente ao nascer, tendo como parâmetro o seu sexo biológico. Porque, né? Que sentido faz você se reivindicar outra coisa que não seja um homem, já que não é uma mulher?

Mas minha identidade faz muito sentido se pensarmos em gênero como um espectro, sem pólos opostos. Existem diversos gêneros não-binários e muitos deles não se restringem a feminino e masculino. Alguns deles são neutros ou inexistentes. Outros, ainda, são mesclas ou fluem de um(s) para outro(s). Tá. Mas como eu me vejo no meio desse espectro?

Numa tentativa de tentar definir quem eu sou, diria que sou uma pessoa gênero-fluído e que pretendo ter uma aparência extremamente andrógina, a ponto de confundir quem me vê.

Os meus pronomes são: ele (de preferência), ela e linguagem neutra. A leitura social que fazem de mim atualmente, ainda que eu seja declaradamente bi/pansexual, é de lésbica masculinizada. Para mim, não é vergonha alguma que me vejam assim. Mas essa leitura não representa quem sou e sonho com o dia em que não irão mais vincular gênero à sexualidade, sabem?

Estou em processo de descoberta. E arrisco dizer que transicionar é um processo contínuo, infinito. Eu estou aprendendo a me amar e tomando decisões sobre como alcançar o corpo que gostaria de ter. Penso quase todos os dias se devo ou não fazer terapia hormonal e em quais implicações isso teria na minha saúde física e psicológica. E, para quaisquer que sejam essas decisões, precisarei ter dinheiro e muita paciência…

Acho que se não fosse o apoio dos poucos, porém verdadeiros amigos que me restaram, das minhas amigas e companheiras de militância e do roller derby, do meu companheiro (que também é não-binário) e das redes de afeto que construí com outras pessoas não-binárias, eu não conseguiria sequer escrever este texto. Provavelmente nem vivo estaria. E a essas pessoas sou grato para sempre.

Ser trans não-binário  é resistir e sobreviver. E pra mim é como nascer de novo num mundo que não foi feito para pessoas como eu. Sigo engatinhando.