Nilma Bentes é agrônoma, ativista do movimento negro e uma das fundadoras do Cedenpa – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, organização criada ainda durante a ditadura, que completou 45 anos de atuação em 2025. Referência nacional na luta antirracista, a paraense tem uma trajetória que abarca formação política, produção de pensamento crítico, articulação de movimentos sociais e defesa aguerrida da equidade.
Ela integrou a equipe brasileira na II Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, em 2001, conhecida como Conferência de Durban das Nações Unidas. E também foi uma das idealizadoras da I Marcha Nacional das Mulheres Negras (2015), além de ter publicado uma série de artigos e livros.
Nesta entrevista, Nilma fala sobre o racismo como um sistema que atravessa o cotidiano, o corpo e a saúde; defende a importância da cultura como forma de cuidado e resistência; e ressalta o papel das mulheres negras na sustentação histórica das lutas por direitos e justiça social.
Hevelyn Rosa: Como você se aproximou dos movimentos sociais, qual foi a sua trajetória nesses grupos?
NB: Minha luta contra o racismo começa já na infância. Desde criança eu sei que existe racismo porque minha mãe, que era o lado negro da história da família, avisava a gente. Eu não sei se isso foi bom ou foi ruim, porque nessa questão racial, quanto mais consciência a gente tem, mais raiva e dor a gente sente. Então, eu senti dor desde muito cedo.
A relação com o Cedenpa começa em 1980, ainda na ditadura, quando ele é criado. Não fomos criados a partir da igreja, do sindicato, nem de partido. São 45 anos de muita luta em uma organização que é formada majoritariamente por mulheres negras, apesar de ser mista. Costumo dizer que a nossa metodologia é a da capoeira: sobe, chuta, levanta, gira.
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A gente tem uma proposta de mudança de sociedade, baseada fundamentalmente nos princípios do bem-viver, Ubuntu, Teko Porã, comunitarismo afro, feminismo pós-colonial. No Ubuntu tem um princípio que defende não só que tudo está ligado a tudo, mas também que é da natureza haver conflitos. Então, a questão é como vamos enfrentar esses conflitos. Eu acho que o viver é um pouco assim. Tudo acontece e se rearruma.
HR: E com qual perspectiva sobre racismo vocês vêm trabalhando?
NB: A gente costuma adjetivar o racismo para efeito didático, como: racismo institucional, ambiental, religioso, nutricional… Eu não gosto muito de falar do racismo estrutural, porque a palavra estrutura parece meio fixa, como algo que tem pilares. Eu prefiro falar em racismo sistêmico. E devemos enfatizar o racismo recreativo e o racismo cotidiano da rua.
Na questão especificamente do racismo na saúde, é bom enfatizar mesmo essa adjetivação. Temos o problema com o saneamento básico, a falta de água, e no meio rural, sabemos que a titulação de terra para quilombolas não acontece. A parte alimentar também é muito importante, pois é a base de muitas coisas. O acesso a alimentos de qualidade, por exemplo. Porque muitas vezes a gente tem acesso a uma comida que não nutre. Quando eu vejo os índices de saúde e de qualidade de vida, os piores estão onde a população é de maioria negra. É estranho ou não? O Brasil todo é isso.
O racismo, sistêmico como é, bate no âmago da gente. Causa o estresse que acaba causando depressão, o suicídio de jovens, e o assassinato deles pela polícia. E, nesses casos, por consequência, tem o adoecimento das mães e parentes dos jovens assassinados.
Além disso, precisamos falar sobre o cuidado que é ofertado pelo sistema de saúde, tanto público quanto privado. As pessoas negras são maltratadas e há muitas questões que afetam principalmente as mulheres, como o assédio e a violência obstétrica. E tu não pode reclamar no serviço porque ninguém vai acreditar em ti.
Na parte de saúde mental, um ponto grave é o estímulo do auto-ódio. Esse estresse que a gente chama de auto-ódio e que pode contribuir para doenças como hipertensão, diabetes, depressão. Malcolm X dizia que o maior crime que os brancos cometeram foi ensinar o negro a não se gostar. É horrível porque naturaliza o racismo. Se aceitar e se gostar é muito importante.
HR: Sua trajetória no Cedenpa inclui o trabalho com formações políticas em diferentes contextos e territórios. Como você vê a importância desse trabalho? E o que essas experiências trouxeram pra você?
NB: Sou uma das fundadoras do Cedenpa (articuladora inicial) e, em 2025 ele completou 45 anos de fundado, então, é muita estrada. Mais dores e enfrentamentos que alegrias. A rigor, sempre senti o ativismo como dever, uma vez que compreendi que um dos papéis do movimento negro é criar e difundir argumentos sobre os motivos desse racismo cruel, por um lado. E por outro, de trocar ideias, sobretudo entre nós negros, de como devemos tentar agir coletivamente para sobreviver e achar caminhos para alcançar a equidade. Ela está longe, e sei que o racismo “se atualiza”, mas há avanços. É uma geração passando o encargo da luta para a geração seguinte.
Não tenho sido uma pessoa “calma” — nem poderia — e já enfrentei momentos bem difíceis, como ficar detida e ser presa em uma cela. Escrevi um texto em 1987 chamado Consciência Negra no Brasil, que considero tipo “psicografado”, que pode sinalizar um pouco do meu “espírito de luta”.
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HR: Como a questão da saúde das mulheres esteve presente na trajetória do Cedenpa desde sua criação?
NB: A gente considera que o próprio racismo é uma doença social (algumas pessoas gostam mais de dizer moléstia). O racismo sendo sistêmico faz com que a luta aconteça em todas as frentes e ângulos e, no meu caso, fico mais em generalidades. Como o Cedenpa, desde a criação foi hegemonizado por mulheres negras, temos companheiras mais ligadas ao tema saúde da população negra, inclusive temos integrantes diagnosticadas com traços (falciformes) e com anemia falciforme.
Hipertensão maligna, miomatose, depressão, alcoolismo, são questões “triviais”, do cotidiano, para as mulheres negras. Também temos dado atenção à violência obstétrica e à questão de realizar aborto em condições precárias, que tem sido brabo.
HR: Como você vê a inserção de ativistas negras na luta por direitos de saúde da mulher? E quais são os impactos dessa atuação nos enfrentamentos e nas conquistas alcançadas?
NB: Mesmo que não seja reconhecido, as mulheres negras lutam nesse campo desde o escravismo. Então, não sei se a palavra melhor é “inserção”, pois parece ser constitutiva-imanente em nossa sobrevivência. Temos sido benzedeiras, parteiras, babás, erveiras e outras…
A mulher negra tem sido básica em todo o tema do cuidar e do cuidado. Gosto de incluir em várias de minhas falas, a imagem/diálogo que é a seguinte: “Caminham uma negra segurando a mão de uma criança que diz: ‘Mãe, o que é desistir?’ A mãe responde: ‘Não sei filha, sou mulher negra’.
Eu particularmente acho que o movimento de mulheres negras está mais forte. Nós temos que reagir, não tem outro jeito. E ao longo do tempo, houve melhoria nos índices ligados à saúde da população negra. Mesmo que essa melhora não tenha sido tão significativa.
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HR: Você já publicou artigos, livros, capítulos de livros… Qual a importância de escrever e publicar?
NB: Acho que pelo fato de ser agrônoma, sem compromissos acadêmicos, tenho tido bastante coragem, até porque estou sob o guarda-chuva do “pretuguês”, um conceito difundido por Lélia Gonzalez, criado por um africano lusófono, segundo me informou Jurema Werneck. Assim, ao escrever, tento contribuir na construção e difusão de argumentos antirracistas — seja divulgando ideias de outras pessoas ou minhas. Penso ser importante escrever, pois, inclusive, me “alivia” psiquicamente.
Eu me sinto uma espécie de ativista meio intermediária, tentando compreender as coisas mais profundas para traduzir para uma linguagem mais coloquial, mais entendível. Uma professora, antropóloga, dizia que é mais fácil escrever difícil do que escrever fácil. O acadêmico é acadêmico e pode ser ativista também. Mas nem todos os ativistas são acadêmicos.
Na área de saúde da população negra, vemos um aumento significativo de publicações e do interesse pelas leituras. O livro da Fátima Oliveira sobre saúde da população negra, de 2001, pode sinalizar a importância do tema, até porque resultou na criação de programas específicos (anemia falciforme, por exemplo) e contribuiu para diversos Estatutos da Igualdade/Equidade Racial — inclusive a níveis estadual e municipal.
Recentemente, estava em um debate em Brasília e me enchi de coragem pra dizer: a gente não acredita em vocês [políticos], nem se vocês forem da esquerda. Temos a referência daquela frase famosa da Sueli Carneiro: entre esquerda e direita, continuo preta.
HR: Quais os caminhos que podemos seguir pra resistir e avançar?
NB: O básico, eu ainda acho, sinceramente, é o problema da autoestima coletiva. Mesmo que tu acreditasse na psicanálise, porque eu não acredito, tu não ia deitar cada negro em um divã e depois mandar voltar para fazer novamente, não tem chance.
Temos que, além da questão das políticas públicas, montar ouvidorias para ter um espaço onde reclamar. E apostar na força da cultura negra, da afrocultura, politizar via cultura, música, ritmo, porque quando você valoriza a cultura de um povo, você valoriza o povo que a criou. Embora, é bom registrar, os brancos sempre se apropriem. É isso, nós precisamos reduzir essa baixa autoestima coletiva da população negra, inclusive através da politização. Coisas bonitas e emocionais também contribuem para um espaço de autoestima boa. Como as escolas de samba que são um terreno de valorização da cultura negra. E também os terreiros e a religiosidade que são lugares de tratamento psíquico e físico. Todo dia é tentativa de extermínio, mas a gente sobreviveu.
É claro que nós precisamos, também, de alianças com pessoas brancas. Mas que sejam alianças autênticas, que saibam o que a Cida Bento quer dizer com o pacto narcísico da branquitude.
* Essa entrevista integra a pesquisa “Memórias de mulheres negras em movimento pelo direito à saúde: lutas antirracistas em foco”, vinculada à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo nº 2023/13347-0).