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‘Estamos construindo o mundo que sonhamos’: AzMina marcha em Brasília 

Seis mulheres, de diferentes lugares do país, contam como foi vivenciar e cobrir a segunda edição da Marcha das Mulheres Negras, que reuniu milhares na capital federal

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Uma mulher com camiseta da marcha ergue o punho enquanto está diante de um grande tecido repleto de fotos de homens e jovens. Atrás dela, uma multidão com bandeiras e cartazes preenche a avenida.
Manifestantes exibem painel em memória de vítimas da violência durante a Marcha das Mulheres Negras. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

No dia 25 de novembro, mulheres negras tomaram as ruas de Brasília. Era a segunda edição da Marcha das Mulheres Negras, um grito coletivo por Reparação e Bem Viver que ecoou pela capital federal. Entre aquelas milhares de vozes, seis integrantes da equipe d’AzMina, vindas de diferentes regiões do país, carregavam suas atribuições profissionais, mas também suas próprias histórias, lutas e atravessamentos enquanto mulheres negras.

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Para essas profissionais, estar na marcha significava transitar entre o olhar jornalístico e a experiência pessoal — entre documentar a história e fazer parte dela. Vindas de contextos e territórios diversos, cada uma trouxe consigo as particularidades de suas realidades e a potência de suas narrativas. Aqui, elas compartilham como foi vivenciar e cobrir esse dia marcante, em que jornalismo (feminista!) e militância se entrelaçaram nas ruas da capital.

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Ana Carolina, gestora de programas e projetos (Bahia)

“Estar aqui na marcha realmente foi uma experiência muito diferente de tudo o que eu já vivi. Pela primeira vez participei de uma coisa (que pode parecer boba): segurar a bandeira gigante e balançar. Para mim, isso é uma coisa muito significativa, porque por muito tempo foi essa ideia da extrema-direita carregando a bandeira do Brasil. E pensar que a gente estava ali – mulheres negras lutando por coisas muito diferentes do que aquelas pessoas lutam – carregando a bandeira foi realmente muito emocionante. 

Uma grande multidão ocupa a avenida enquanto segura uma enorme bandeira com as cores do Brasil e a frase “Ministério da Igualdade Racial”. Prédios de Brasília aparecem ao fundo.
Manifestantes avançam pela Esplanada dos Ministérios durante a Marcha das Mulheres Negras. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

Encontramos mulheres de muitos países, um clima de tranquilidade, de festividade mesmo, de bem viver. Foi massa demais. Se a gente se mobilizou desse tanto, a gente pode fazer muito, muito mais depois. Vivendo isso de perto dá um pouco de sentido a tudo que a gente faz n’AzMina e faz entender que tem uma lógica, que por mais que pareça que a gente está só atrás de um computador, a gente está construindo o mundo que a gente sonha.”

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Aymê Brito, gerente de audiências (São Paulo)

Para a gente, d’AzMina, ver a marcha se realizar é o resultado de muitos sonhos – enquanto equipe feita por mulheres negras – mas também de muito trabalho. Há meses, desde a certeza de que a marcha aconteceria aqui em Brasília, surgiu a vontade de ir e de conseguir cobrir enquanto um veículo feminista e negro. Foram meses de muito trabalho e expectativa até chegar aqui e ver que deu certo, que a gente conseguiu, que estamos satisfeitas e orgulhosas dessa cobertura. 

Também foi muito bom estar ao lado de outros veículos independentes e fazer esse trabalho conjunto que potencializa as narrativas negras – com cobertura jornalística que olha para as mulheres negras como elas são, que não reproduz estereótipos, que entende as complexidades e que somos múltiplas, diversas e vindas de contextos diferentes. 

Uma mulher veste uma saia amarela muito ampla, estampada com flores coloridas, e um top brilhante. Ela ergue um objeto dourado enquanto outras mulheres ajudam a sustentar o tecido ao redor.
Artista performa durante a Marcha das Mulheres Negras, celebrando cultura e ancestralidade. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

A gente já sabia dessa necessidade, por isso criamos a coalizão. Na marcha, recebemos a confirmação: apesar de ela ser um evento histórico, muito importante para as mulheres negras – e nós somos maioria nesse país – e para a sociedade no geral, muitos veículos de comunicação ou do jornalismo tradicional não deram a evidência que ela merecia.

Acho que a gente está aqui conseguindo fazer com que a nossa audiência sinta um pouquinho do que foi essa união – os preparativos, as histórias dessas mulheres que vieram de diferentes lugares pra cá. Então é também reafirmar a importância de um jornalismo independente, sem rabo preso, feminista e negro.

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Flávia Santos, analista de audiências (Pernambuco)

A marcha foi ótima e muito bonita. Tinha muitas mulheres de vários lugares. Pessoalmente, foi uma realização muito grande, porque, infelizmente, de onde eu venho, existem mobilizações e articulações, claro, mas que não têm essa amplitude. Vi mulheres de outros estados ou de outros países – como Colômbia e México – em busca do mesmo objetivo: Reparação e Bem Viver, algo que a gente deveria ter garantido há séculos. 

Um grande balão vermelho com a frase “Reparação e Bem Viver” paira acima da multidão, entre árvores e bandeiras. Pessoas caminham pela avenida durante o ato.
Símbolo da pauta de reparação se destaca na Marcha das Mulheres Negras. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

Então, eu achei muito forte, divertido e cansativo (mas acho que isso faz parte). Além de ser uma realização profissional cobrir um evento desse, é também uma realização pessoal como mulher negra que vem do semiárido nordestino. Outra coisa muito legal foi encontrar várias pessoas que conheço: duas professoras da faculdade que integraram a banca avaliadora do meu TCC, além de uma amiga de infância que veio para a marcha também. Acho que essas conexões – que vão além do pessoal, mas de valores, de perspectivas, de lutas – são muito importantes também e fortalecem laços.

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Jane Fernandes, editora de conteúdo (Bahia)

O ponto alto da temporada em Brasília, sem dúvida, aconteceu na terça-feira (25), quando até a chuva torrencial do início do dia abriu caminho para milhares de mulheres negras meterem marcha na Esplanada dos Ministérios. Foi incrível fazer parte daquele momento histórico, estar ali compartilhando a luta com as ministras Marina Silva, Margareth Menezes e Anielle Franco e tantas lideranças de diversas partes do país que emocionaram em seus discursos em cima dos trios. 

Pessoa ergue tecido com foto impressa de Marielle Franco e a frase “Marielle presente, Marcha das Mulheres Negras”. Ao fundo, há grande concentração de pessoas e um banner da feira quilombola.
Homenagem a Marielle Franco durante a Marcha das Mulheres Negras. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

O arrepio chegou ainda no primeiro instante, quando mulheres negras integrantes da Irmandade da Boa Morte subiram ao palco antes da caminhada começar. A Irmandade é de Cachoeira, cidade histórica a 117 km de Salvador, onde moro. Espero que todas as pessoas presentes tenham sentido a força da ancestralidade e da religiosidade afro-católica que elas carregam. A quem puder, recomendo conhecer a festa que elas realizam todos os anos em agosto. 

No chão também não faltavam mulheres admiráveis, cada uma com sua história de vida, suas conquistas e suas dores, como contei nesta reportagem. Em outra matéria mostramos que elas vieram de diferentes partes do Brasil e também de outros países, juntas, em caravanas que percorreram um longo trajeto até Brasília. Porque nada detém uma mulher negra em movimento! 

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Marília Moreira, diretora institucional (Bahia)

Outro dia ouvi a professora Rosane Borges sintetizar de uma forma muito simples e tocante que “o Bem Viver é uma plataforma política para acender uma utopia por outro país”. Uma utopia que anda adormecida, inclusive entre nós, que estamos no front da luta, mas que se mostra urgente, necessária e muito real quando o movimento político ganha forma.

Mulher com chapéu de palha e camisa vermelha com a palavra “Ancestralidade” observa o ato. O céu aberto domina o fundo da imagem.
Manifestante reforça mensagem de ancestralidade durante a Marcha das Mulheres Negras. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

Sabemos, e não é de agora, que são as mulheres negras que estão no centro das lutas por um país mais digno para todas as pessoas. E marchar, esse ato tão simbólico, tão importante ao movimento, nada mais é que lembrar que estamos aqui, que temos um projeto político para esse país e que acreditamos na construção coletiva e na autonomia como caminhos para essa mudança.

É inevitável sentir orgulho desse movimento. É inevitável se sentir parte. Porque somos parte. Cada uma de nós que acredita e luta por um mundo melhor é inevitavelmente parte.

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Nathália Procópio, gerente de captação (Bahia) 

Ainda estou processando esse momento. Sou muito grata e muito honrada de poder participar dele, que é um momento histórico. Estar presente na marcha mexeu comigo de um jeito difícil de descrever em um sentimento só. Acho bonito demais ver diferentes mulheres pretas de todo o país. Sobretudo ver diferentes gerações – mulheres mais velhas que, desde 2015, abriram esse espaço, essa construção coletiva, e hoje estão aqui reunidas com outras milhares. Mulheres que têm suas divergências, mas que encontram convergência em uma afirmativa comum: a gente segue viva, a gente segue forte, a gente segue unida, apesar de todas as tentativas de nos parar. 

Mulher com tranças longas segura megafone enquanto outras pessoas ao redor tocam pandeiros e carregam cartazes. Todos vestem camisetas da marcha.
Grupo entoa palavras de ordem durante a Marcha das Mulheres Negras. Crédito: Eline Luz (@luzluzeline)

Então, acho que é uma construção muito necessária para recarregar o sentido da coletividade, para a gente entender que não estamos sozinhas. Estar na marcha dá um sentido muito concreto ao que é estar em marcha, ao que é estar em luta, caminhando, trabalhando todos os dias para construir um presente, para construir futuros que reconheçam as nossas necessidades, que garantam dignidade e bem viver para nós, mulheres pretas. Estou muito feliz e muito emocionada de participar desse momento histórico.

Agora, fique com as fotos desse dia histórico em Brasília que reuniu mais de 300 mil mulheres negras do Brasil e do mundo, pra nunca mais esquecermos:

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