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Hackeando a política: feminismos hackers que constroem tecnologia pública

Desafiando a mediação das plataformas privadas, organizações feministas criam soluções digitais para garantir acesso à informação e autonomia tecnológica

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  • A participação política hoje depende de infraestruturas controladas por big techs, guiadas por modelos de negócio baseados em dados, atenção e engajamento — não em justiça social;
  • Quando tecnologias são construídas sem diversidade, reforçam apagamentos culturais, ampliam violências e afastam grupos historicamente marginalizados dos espaços de decisão;
  • Iniciativas como a do Olabi e AzMina investem em formação, educação midiática e inclusão de mulheres negras na tecnologia para redesenhar coletivamente o ambiente digital.

Quase 90% da população com 10 anos ou mais tem acesso à internet (PNAD 2024), e houve um salto de 6,1 milhões de novos usuários em apenas dois anos. Esse acesso ocorre majoritariamente por celulares, o que desloca a experiência digital para aplicativos e ambientes controlados por plataformas privadas, especialmente as redes sociais. 

Apesar dos números aparentemente positivos, a realidade mostra que esse avanço não atinge todos os grupos da mesma forma. Só 77% da população rural tem acesso à internet e as classes D e E majoritariamente só acessam pelo celular, de acordo com a TIC Domicílios

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Feminismo bem informado

Esse cenário também reflete nas oportunidades de participação política. É inegável que as redes sociais assumiram forte influência, inclusive na construção da opinião pública. Em 2025, por exemplo, o deputado federal Nikolas Ferreira publicou um vídeo acusando o governo de utilizar o PIX para monitorar transações bancárias. Foram mais de 300 milhões de visualizações no Instagram e até hoje (2026) a Receita Federal tenta desmentir essa desinformação.

Essa é uma mediação arriscada, afinal, as big techs estão mais interessadas em extrair dados do que em estabelecer uma democracia digital. É nesse espaço controlado por empresas privadas e internacionais, dominado por algoritmos, com regras de moderação pouco transparentes, que o debate público passa a acontecer. A participação cidadã também depende, de forma quase obrigatória, dessas infraestruturas desenhadas para o engajamento e não para a justiça social, evidenciando que a tecnologia não é apenas ferramenta e sim uma questão política.

Democratização do desenvolvimento tecnológico

Ampliar o acesso já não é mais a única questão a ser resolvida, mas sim diversificar quem está desenhando essas tecnologias e a vida pública digital. Entender como essas ferramentas construídas pelas big techs funcionam é uma forma de disputar poder. É nesse ponto que surgem iniciativas que não querem apenas usar ou adaptar essas tecnologias, mas construí-las a partir de outras lógicas, para reimaginar.

Essa exclusão também atravessa a sociedade civil organizada, que frequentemente é posicionada apenas como usuária dessas ferramentas, e não como participante das decisões que moldam o ambiente digital. Juli Cintra, diretora da Abong, organização que busca fortalecer as Organizações da Sociedade Civil no Brasil, acredita que “isso afasta a participação e enfraquece o senso de pertencimento nesse debate.” 

O resultado é que grupos historicamente ativos na formulação de políticas públicas passam a apenas reagir às plataformas em vez de disputar seus rumos, aprofundando a concentração de poder tecnológico nas mesmas estruturas que organizam o mercado.

A partir da necessidade de fortalecer esse senso de pertencimento surgiu o projeto Nanet, idealizado pela Abong. A iniciativa atua na capacitação de organizações e ativistas para não sucumbirem à visão de que são apenas usuários de serviços, mas também autores de tecnologia.  

Essa mudança de perspectiva exige também ampliar o que entendemos por democracia digital, que, para Ana Carolina Araújo, gestora de projetos do Instituto AzMina, vai muito além das redes sociais. “Trata-se de serviços públicos, participação política e acesso à informação para qualificar o debate democrático.” Ana acrescenta que o debate tem se resumido às redes porque é neste espaço que a população — e o potencial eleitorado — mais usa a internet.

Leia Mais: IAs feministas e de direitos humanos contra o discurso de ódio e a desinformação

Reimaginar e redesenhar a tecnologia com diversidade

O Olabi, organização em que Sil Bahia é co-diretora, acredita que a tecnologia precisa de diversidade e que para inovar é preciso incluir. Para ela, essa disputa de narrativas se torna ainda mais necessária por existir um apagamento de cultura e de valores diversos, favorecido pelas próprias estruturas digitais.

As consequências, afirma Sil, passam pela ampliação de violências já existentes e pela dificuldade de participação efetiva de mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente marginalizados nos ambientes de decisão tecnológica. Se essas populações deixam de disputar o desenho das ferramentas que estruturam o debate público, há um impacto direto na própria democracia, que depende da presença plural de sujeitos.

Por isso, a proposta da Olabi é “redesenhar esse ambiente digital de forma coletiva”, questionando quais modelos são financiados, quais vozes são amplificadas e quais futuros estão sendo imaginados. Em vez de adaptar-se às plataformas existentes, a organização disputa suas bases ao formar mulheres negras como desenvolvedoras, ampliar a educação midiática e oferecer condições para que outros grupos criem infraestruturas digitais.

Leia Mais: Feministas sob ataque na internet: quando o ódio vira algoritmo

Inteligência Artificial Feminista e autonomia tecnológica

Falar de feminismo e tecnologia é a mesma coisa para Ana Carolina, ainda mais quando a tecnologia é comandada por homens brancos.Se existe uma preocupação com a equidade é preciso ocupar esses espaços de decisão, e a tecnologia é um deles.” Por isso, o Instituto AzMina começou a construir a sua própria Inteligência Artificial Feminista, a QuitérIA

Pensada como uma forma de qualificar o monitoramento legislativo de gênero, a QuitérIA dá transparência e publicidade ao que os congressistas brasileiros estão fazendo. “Não é só sobre produzir conteúdo e atrair audiência, é sobre servir à sociedade civil”, explica Ana.

As organizações feministas estão construindo seus próprios meios de acompanhar, sistematizar e distribuir informação pública. E essas ferramentas também são uma forma de corrigir o comportamento das big techs em relação aos usuários e à difusão da informação. “Ter dados mais abertos e acessíveis é essencial para que mais pessoas saibam o que está acontecendo. A gente busca essa autonomia sobre a informação”, conclui Ana Carolina.

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Hackear a política é disputar o futuro

No fim, a disputa tecnológica não é só sobre inovação. Trata-se também do direito de imaginar e construir um novo futuro, um horizonte possível. Quando essas organizações se tornam desenvolvedoras de ferramentas próprias, reivindicam participação nas decisões sobre o ambiente digital e sistematizam dados públicos, o movimento para esse redesenho democrático digital já está acontecendo.

Em um mundo em que o ódio vende e a misoginia se propaga, é difícil saber o que foi mediado por códigos, algoritmos e plataformas privadas. Por isso, hackear a política, além de ser urgente, significa devolver para a sociedade a capacidade de intervir, compreender e reconstruir as tecnologias como bens coletivos. 

This article was written by Natali Carvalho as part of the Forus Journalism Fellowship. Esta matéria foi escrita por Natali Carvalho como parte do Programa de Bolsas de Jornalismo Forus.

*Edição: Jane Fernandes e Joana Suarez /// Artes: Lory Costa

**Texto revisado com uso de IA

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