- Feministas sofrem ameaças, perseguições e censura enquanto plataformas lucram com conteúdos misóginos que geram engajamento e raramente são responsabilizadas;
- Denúncias em massa e moderação automatizada derrubam conteúdos feministas, por outro lado os discursos de ódio permanecem ativos e amplificados;
- Especialistas defendem transparência e regras claras para que plataformas parem de reproduzir desigualdades e enfraquecer o debate público e os direitos das mulheres.
A internet amplifica as vozes, sejam elas quais forem. E as mulheres feministas frequentemente pagam um preço alto para ocupar esse espaço. Em 2024, a Safernet Brasil recebeu 14.108 denúncias únicas de crimes de ódio, como racismo, intolerância religiosa, neonazismo, LGBTfobia e misoginia — mais de uma denúncia por hora. Nesse cenário, feministas, jornalistas e ativistas se tornaram alvos preferenciais de perseguições coordenadas, ameaças de morte e tentativas sistemáticas de silenciamento.
No mesmo ano, ao menos 137 canais no YouTube dedicados à propagação de ódio contra mulheres foram identificados em levantamento feito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Ministério das Mulheres. O destino do ódio é, principalmente, feministas, mulheres acima dos 30 anos e mães solo.
O caso da ativista feminista Lola Aronovich é um dos exemplos mais extremos desse cenário de misoginia escancarada. Desde que criou o blog Escreva Lola Escreva, ela vem sendo alvo de ataques que extrapolam o ambiente virtual e envolvem ameaças de morte e violência contra ela, a mãe e o marido. Os algozes, os masculinistas a quem chama “mascul”, começaram atacá-la simplesmente por ser feminista.
“Não é uma coisa pessoal, porque eles não me conhecem, nunca me viram, nunca falaram comigo, nem sabem quem eu sou. Eles acham que sabem, mas eles não sabem”, afirmou Lola.
A violência que atravessa a tela
A gravidade das ameaças levou a Polícia Federal a investigar o caso de Lola, em 2015, após mensagens que mencionavam atentados com explosivos caso a ativista não fosse desligada do seu ambiente de trabalho. “Se não fossem essas ameaças terroristas, teria sido só mais uma feminista sendo atacada”, relatou Lola. A perseguição, no entanto, continua até hoje.
Em 2016, um ataque coordenado quase tirou o blog Escreva Lola Escreva do ar. Denúncias em massa resultaram na remoção de conteúdos, no apagamento de imagens e na impossibilidade de publicar novos textos ou receber comentários. Mesmo após seguir todos os procedimentos indicados pela plataforma responsável, Lola não conseguiu reverter a situação. “Eu fiz tudo que o Google mandou, mas ninguém analisou minha resposta. Era só robô”, disse.
Lola iniciou uma campanha na internet — “Google não censura a Lola” — para conseguir seu blog de volta. A mobilização teve uma grande repercussão, e o Google ligou pra ela para resolver a situação. Ela queria um pedido de desculpas público, mas recebeu um não como resposta.
Criado em 2008 a partir da necessidade de falar sobre feminismos, pauta então ausente na mídia tradicional, o blog virou referência ao abordar temas como corpo, gênero e direitos das mulheres. E foi essa visibilidade que também o transformou em alvo de grupos masculinistas organizados. Para Lola, a omissão das plataformas diante desses ataques não é acidental. “As plataformas são cúmplices. Não fazem absolutamente nada.”
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Fórum incitava ataques, oferecendo recompensas
A obsessão por Lola era tamanha que Marcelo Valle Silveira Mello, condenado por crimes de ódio e conhecido por perseguições sistemáticas a mulheres e ativistas, criou um Dogolachan — fórum anônimo — dedicado a ela. O espaço, que ficou ativo por mais de 4 anos, oferecia recompensas para quem a matasse, além de incitar violência contra outras figuras públicas, como o ex-deputado federal Jean Wyllys.
Marcelo chegou a ser preso, mas, após ser libertado, voltou a ameaçar Lola, responsabilizando-a por sua prisão. O fórum foi descoberto em 2014, quando o próprio agressor enviou o link diretamente à ativista.
Foi nesse cenário de ameaças constantes que ela passou a frequentar o fórum para coletar provas. Lola temia que os planos mirabolantes para matar ela e sua família pudessem se concretizar. O processo de documentação, no entanto, levou anos, evidenciando a dificuldade de responsabilização em casos de crimes de ódio no ambiente digital.
Em 2018, foi aprovada a Lei Lola, que surgiu da dificuldade de saber onde denunciar crimes cibernéticos e misoginia. As delegacias tradicionais não tinham conhecimento de internet ou não aceitavam denúncias contra agressores desconhecidos. Embora honrada, ela diz que a lei não está totalmente implementada e que criminalizar a misoginia é crucial para que a Lei Lola e outras legislações sejam eficazes.




Sil Bahia, codiretora da Olabi, organização que pensa e promove a tecnologia e a inovação, alerta: “a misoginia não nasceu com a internet, mas ela ganhou um impacto ainda maior no ambiente digital”. A estrutura das plataformas não é segura e não consegue proteger ativistas, parlamentares e mulheres.
“Essas consequências [dos ataques misóginos] vão muito além da violência direta, porque elas acabam reduzindo também a participação de mulheres dentro desses espaços de quem constrói as estruturas tecnológicas”, analisa Sil.
Censura algorítmica e silenciamento institucional
Casos como o de Lola não são isolados. O ataque massivo que o Portal Catarinas sofreu em 2021 durou cerca de uma semana entre idas e vindas. Além de ser um ato político, por configurar censura e silenciamento, impedindo a publicação de conteúdos e alterando a rotina do portal de jornalismo de gênero, também teve impacto psicológico na equipe.
Paula Guimarães, diretora-executiva do Portal Catarinas, supõe que o ataque estaria ligado a publicações sobre a misoginia e a criminalização do aborto ou a um conteúdo que abordava como a masculinidade valoriza as relações entre homens e subjuga as mulheres.
O perfil do Catarinas no Instagram já foi derrubado após denúncias de que violavam os padrões políticos da plataforma. “A equipe se sente insegura com as redes sociais, principalmente devido às denúncias de que o portal viola os padrões das plataformas”, comentou Paula, destacando que, embora não tenha um estudo sobre isso, “essas plataformas não derrubam conteúdos misóginos e machistas.”
A misoginia gera lucro, a informação em saúde não
A Anis – Instituto de Bioética, uma organização não-governamental feminista, enfrenta problemas similares: diversos conteúdos sobre direitos reprodutivos foram derrubados. Nara Menezes, coordenadora de comunicação do instituto, explicou que, no episódio mais recente, um carrossel sobre misoprostol foi retirado do ar pela Meta (empresa proprietária do Facebook e Instagram).
A justificativa da big tech era que o conteúdo promovia ou incentivava a venda de “drogas ou medicações restritas”. Nara Menezes justificou que era um material sobre saúde e acesso à informação, explicando para que o misoprostol servia e as implicações das restrições de acesso no Brasil, mas não adiantou. Outros conteúdos da organização foram derrubados com a mesma justificativa.

Nara considera “curioso” que as plataformas não removam conteúdos de venda de medicamentos não registrados no Brasil, nem de quem se manifesta contra o direito ao aborto medicamentoso, mas retirem do ar “informação em saúde”.
Na avaliação de Sil Bahia, enquanto isso não afetar o bolso das big techs, os conteúdos ativistas vão continuar sendo derrubados, enquanto os de violência seguem gerando ainda mais engajamento. Ela acrescenta que as plataformas digitais não são espaços públicos ou neutros, pois possuem moderação.
“Não é algo que tá ali a Deus dará. O ódio às mulheres gera dinheiro para as plataformas, é por isso que elas têm estruturas que favorecem ainda mais esse tipo de violência”, explica Sil.
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Conteúdos de ódio performam melhor
Juli Cintra, diretora-executiva da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), explica que a persistência desses ataques e remoções de conteúdo não deve ser lida como “falhas isoladas” das plataformas. Para ela, os vieses discriminatórios que permitem a perseguição de feministas e a censura de materiais progressistas, são elementos intrínsecos e altamente lucrativos do sistema.
Ela percebe uma lógica de rentabilidade alicerçada em uma ideologia que flerta com o eugenismo, o racismo científico e a misoginia. E ainda uma perspectiva de espoliação histórica do que sempre aconteceu nas relações de poder entre o norte global e o sul global. Assim, “a ideologia por trás do desenvolvimento dessas plataformas atua como ferramenta que sustenta hierarquias de poder”, apontou Juli.
Paula Guimarães, do Portal Catarinas, compreende que o algoritmo faz parte de uma lógica capitalista e que conteúdos de ódio performam melhor. “Tá muito conectado a esse algoritmo que entrega, que entende que vai dar mais engajamento, logo vai ser comercialmente vendável.”
A jornalista também observa que a ascensão da extrema-direita está ligada ao papel das plataformas, que engajam o antifeminismo, o que se traduz em votos. “É uma dinâmica de fazer com que as pessoas percam a noção do que é importante para suas vidas e estejam com a atenção colocada em grandes conspirações”, opinou.
Ninguém sabe como os algoritmos de fato funcionam, expõe Sil Bahia, especialista no setor de inovação. “Essa é a famosa caixa de Pandora da tecnologia.” É por isso que a regulação dessas plataformas é tão importante para gerar transparência.
Ao priorizarem o engajamento a qualquer custo, as plataformas competem por nossa atenção e falham em proteger os mais vulneráveis aos ataques. “Por mais que a gente não saiba como funcionam os algoritmos, a gente consegue perceber os impactos deles”, ponderou a codiretora da Olabi, Sil Bahia.
Regulação é essencial para proteger a sociedade
Juli Cintra, da Abong, explica que a regulação das plataformas é fundamental para a proteção da sociedade e que a participação social no monitoramento e elaboração de políticas públicas, como previsto na Constituição, é central para um estado democrático. “Regular não é censurar, é assegurar o cumprimento dos direitos humanos, dos direitos socioterritoriais, entre outras dimensões.”
A remoção ou limitação de conteúdo sobre direitos das mulheres torna o debate público “extremamente desigual”. Isso se dá especialmente em um contexto de ascensão do conservadorismo e da atuação de grupos que investem maciçamente em anúncios contrários aos direitos sexuais e reprodutivos, enquanto organizações progressistas dependem do engajamento orgânico.
Mesmo em um cenário de disputa de algoritmo, Sil Bahia acredita que a imaginação é o maior motor para conseguirmos criar um ambiente digital saudável. Ainda que a indústria fique o tempo todo nos alimentando de ódio, precisamos imaginar o que podemos “construir coletivamente com valores sociais, de justiça social, justiça racial.”
This article was written by Natali Carvalho as part of the Forus Journalism Fellowship. Esta matéria foi escrita por Natali Carvalho como parte do Programa de Bolsas de Jornalismo Forus.
*Edição: Jane Fernandes e Joana Suarez /// Artes: Lays Cantanhêde
**Texto revisado com uso de IA