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Bancada feminina cresce em 2026, mas segue branca e pende à direita 

Câmara e Senado elegeram mais mulheres em 2026, mas homens brancos continuam maioria e mulheres negras seguem sub-representadas. Veja os dados por gênero e raça.

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  • Mulheres negras continuam como grupo mais sub-representados e homens brancos seguem como maioria absoluta tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados.
  • A maioria entre as eleitas em 2026 é de partidos de centro e direita e críticas às pautas feministas;
  • Análise mostra que a maior proporção de mulheres negras eleitas é da centro-esquerda e da esquerda.

O Congresso eleito em 2026 tem a maior proporção de mulheres da história recente, mas os dados de gênero e raça mostram um avanço desigual. Quem mais ganhou espaço foram as mulheres brancas, enquanto mulheres negras continuam como grupo mais sub-representado e homens brancos seguem como maioria absoluta tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados. Quanto ao espectro político, a maioria entre as eleitas neste ano é de partidos de centro e direita e críticas às pautas feministas. 

As conclusões são de um levantamento exclusivo da Alma Preta, que usou dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) das eleições de 2018 e 2022, além dos resultados de 2026. Foram considerados gênero e raça/cor conforme autodeclaração no registro de candidatura. O grupo de pessoas negras são a soma de autodeclaradas pretas e pardas. 

A classificação do espectro político dos partidos é baseada no trabalho do professor Bruno Bolognesi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele e sua equipe classificaram os partidos através de um survey aplicado à comunidade de cientistas políticos. A metodologia está disponível aqui e a classificação foi atualizada com o autor em setembro de 2025.

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Câmara dos Deputados

Na Câmara dos Deputados, as mulheres passaram de 90 cadeiras (17,5%) em 2022 para 109 (21,2%) em 2026. Mas esse crescimento feminino foi puxado, sobretudo, por mulheres brancas. Na Câmara, elas saíram de 56 (10,9%) para 73 deputadas (14,2%).

Entre as mulheres negras (pretas e pardas), não houve avanço relevante: elas foram de 31 (6%) para 34 deputadas (6,6%).

Os homens negros perderam espaço na Câmara e caíram de 108 (21,1%) em 2022 para 101 deputados (19,7%). Ou seja, a Câmara de Deputados se tornou mais feminina e proporcionalmente mais branca do que há quatro anos.

Os grupos de autodeclarados indígenas e amarelos também reduziram: indígenas caíram de 4 para 3, e amarelos de 3 para 1.

Senado mais feminino por conta das mulheres brancas

O Senado também ficou mais feminino em relação a 2018, quando as eleições renovaram dois terços do Senado — ou seja, 54 cadeiras, duas por estado.

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A presença de mulheres passou de seis (11,1%) para 12 (22,2%). As brancas passaram de cinco para 10 senadoras (9,3% para 18,5%), enquanto as negras seguiram como exceção, indo de apenas um para dois (1,9% para 3,7%). 

Entre os homens, os negros ficaram praticamente estáveis (de 13 para 14; 24,1% para 25,9%), mas os brancos recuaram de forma expressiva: de 35 (64,8%) para 28 (51,9%). Mesmo com a queda de quase 13 pontos percentuais, eles ainda ocupam mais da metade das vagas. 

As eleições continuam favorecendo homens brancos 

O dado mais revelador está na diferença entre quem se candidata e quem se elege. Na Câmara, os quatro grupos partem de patamares parecidos entre as candidaturas, mas o resultado nas urnas é profundamente desigual:

  • Homens brancos: de 33,7% das candidaturas para 58,7% dos eleitos;
  • Mulheres negras: de 18,2% para 6,6%;
  • Homens negros: de 28,6% para 19,7%;
  • Mulheres brancas: de 18% para 14,2%.

Ou seja: o voto e as estruturas que o antecedem — como financiamento, tempo de TV e apoio partidário — funcionam como um filtro que concentra o poder em homens brancos e penaliza, em primeiro lugar, as mulheres negras.

Mais mulheres, mas não uma bancada feminista

O aumento da presença feminina também não desenha um bloco necessariamente progressista. Entre as 109 deputadas, 47 (43,1%) são de partidos de centro-esquerda e esquerda, 18 (16,5%) de centro e 44 (40%) de direita e extrema-direita.

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Para Cláudia Rodrigues, presidenta da União Brasileira de Mulheres do Estado de São Paulo (UBM-SP), ter mais mulheres não é suficiente para ampliar a luta das mulheres no parlamento. 

“Não sou adepta daquelas que acham que precisamos eleger mulher por ser mulher. Temos que eleger mulher por ser comprometida com as mulheres trabalhadoras, com as mulheres pretas, com um projeto de Brasil que interessa à maioria do povo”, afirma.

No Senado, das 12 eleitas, 5 (42%) vêm de legendas de direita e extrema-direita, e a maior bancada feminina é a do PL. Assim, três das senadoras fazem parte do núcleo bolsonarista: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, do Distrito Federal, e Carol de Toni, de Santa Catarina. 

São parlamentares de uma legenda que tem se posicionado contra pautas associadas ao feminismo e a ampliação dos direitos de mulheres, como a descriminalização do aborto e políticas de gênero.

Um exemplo é Carol de Toni que apresentou em 2020, enquanto era deputada, um projeto de lei para acabar com a cota de 30% de mulheres que os partidos precisam cumprir na hora de lançar candidaturas para deputados ou vereadores. Seu principal argumento é de que a legislação não pode dar tratamento diferente a um cidadão por seu gênero. 

Mais mulheres no parlamento, portanto, não equivale automaticamente a mais defesa dos direitos deste mesmo grupo.

“A gente fica na dúvida se essas senadoras, essa maioria de mulheres eleitas para o Congresso, jogam no nosso time. Se vão topar derrubar essa escala excludente [a escala 6×1], que não permite às mulheres ter mais tempo para cuidar de si, para cuidar dos seus, para ter folga, para buscar um lazer”, diz Rodrigues, da UBM. 

Para ela, esse é um dos piores Congressos eleitos pós-ditadura e está alinhado com movimentos de fora do país. “A gente vê essa onda conservadora, da extrema-direita e da direita, no nosso país e fora dele. Não vivemos numa bolha, então isso reflete aqui no Brasil”, avalia. 

Esquerda diversa; direita branca

A análise mostra que a  maior proporção de mulheres negras eleitas é da centro-esquerda e da esquerda. Entre as 47 deputadas desse espectro político, 20 são negras (12 pretas e 8 pardas) e 2 são indígenas — as brancas são 25 (53%). Vale notar que a deputada Erika Hilton (PSOL-SP), negra e da esquerda, alcançou a marca de ser a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados. Ana Elisa (PT-MG), mulher negra de 21 anos, também figura entre as mais votadas nesse pleito, sendo a segunda candidata mais votada em seu estado, atrás apenas do deputado reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG), da extrema-direita.

Já a direita e extrema-direita elegeu uma maioria de mulheres brancas. Das 44 candidatas eleitas 34 são brancas (77%), nove são pardas e há uma única mulher preta, a deputada Professora Janad Valcari (PP-TO). 

Analisando apenas as pretas, das 13 deputadas eleitas à Câmara, 12 estão em partidos de centro-esquerda e esquerda.

Em outras palavras: ser mulher negra no parlamento é, hoje, majoritariamente estar à esquerda. A direita elege mulheres, mas quase sempre brancas.

Abaixo, vejam as eleitas no Senado em 2026:

Reeleitas e novatas na Câmara e no Senado

A Câmara dos Deputados elegeu 109 mulheres em 2026. Dessas, 34 são negras, quase um em cada três. 

A presença negra é um pouco maior entre as novatas do que as reeleitas. Das 51 novatas, 17 são negras (33%): 12 pardas e cinco pretas. Das 58 que foram reeleitas, também 17 são negras (29%): nove pardas e oito pretas. Entre as reeleitas há ainda duas indígenas. 

Essa diferença já foi maior. Em 2022, 41% das 54 novatas eram negras, contra 25% das 36 reeleitas. Naquele ano, a renovação trouxe proporcionalmente mais mulheres negras para a Câmara. Em 2026, esse impulso perdeu força.

No espectro político, os dois grupos se dividem de forma parecida. Nos dois grupos, 43% das deputadas são de esquerda ou centro-esquerda. A direita e a extrema-direita somam 40% das reeleitas e 41% das novatas. O centro fica com 17% e 16%, respectivamente.

No Senado, a renovação foi total. Nenhuma das 12 senadoras eleitas em 2026 ocupava o cargo. As mulheres eleitas em 2018, cujos mandatos terminam agora, não foram reconduzidas. Pelo menos três das novas senadoras vêm da Câmara: foram eleitas deputadas federais em 2022.

Quanto à raça, as novatas do Senado são dez brancas e duas pardas, sem nenhuma mulher preta.

Edição: Aymê Brito, da Alma Preta, e Nathalia Cariatti, da Azmina

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