Mulheres estão à frente da maioria dos lares brasileiros, e com uma ascensão econômica nunca vista. Elas também representam parte considerável dos votos em disputa eleitoral de 2026, impondo aos candidatos o desafio não só de propor melhorias de renda para o eleitorado feminino, mas de repensar a economia do País. É importante lembrar que muitos dos debates que rolam sobre economia, trabalho e outros temas, apesar de não serem tratadas como pautas de gênero, também afetam as vidas das mulheres. Isso quando elas não são as principais afetadas.
Não há mais como pensar o orçamento, sem pensar nas mulheres. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais da metade dos lares brasileiros (cerca de 52%) são chefiados por elas. São mais de 41 milhões de domicílios onde as mulheres são as principais provedoras financeiras.
A maior participação feminina no mercado de trabalho impulsiona o crescimento econômico. O 5º Relatório de Transparência Salarial do Governo Federal aponta que a equiparação salarial entre homens e mulheres exercendo as mesmas funções, geraria um acréscimo de R$ 95,5 bilhões nos rendimentos delas apenas em 2025, com impacto direto na economia.
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Enquanto isso não acontece, mulheres precisam equilibrar os pratinhos e buscar outros caminhos para aproveitar melhor o orçamento que têm. Na última sexta-feira (25/09), o presidente Lula assinou a medida provisória que proíbe as bets no Brasil. A decisão alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos online, em ambientes físicos e virtuais. E, mais do que isso, a decisão atinge em cheio o orçamento doméstico e revela outros problemas financeiros enfrentados por elas.
Veja como esse e outros assuntos fazem diferença na vida econômica das mulheres:
1. Bets e plataformas de apostas
A renda das mulheres brasileiras está sendo diretamente afetada pelas apostas. Dos 49% de brasileiros que já fizeram esse tipo de jogo, 42% são mulheres e 56% são homens, de acordo com dados da pesquisa “Mulheres&Bets”, divulgados em agosto deste ano pelo estúdio CLARICE em parceria com Estratégia Latina e o IDEIA. Mais da metade das mulheres brasileiras (54%) apostam em bet ou têm um apostador na família. Quatro em cada dez mulheres (42%) apostam ou já apostaram em plataformas online, enquanto 12% não jogam, mas têm alguém da família que aposta. O cenário fica mais preocupante quando consideramos os motivos que as levam à apostar. No lugar de diversão, a bet está sendo uma saída para buscar uma renda extra para 2 de cada 10 apostadoras (21,5%), ou como tentativa de cobrir despesas básicas para 16% das mulheres ouvidas pela pesquisa.
Além do seu envolvimento direto com as apostas online, mulheres também são afetadas quando seus companheiros resolvem apostar. É o que identificou David Nemer, em pesquisa feita nas favelas de Vitória (ES). O antropólogo identificou que alguns homens se apropriam do dinheiro das mulheres para apostar, e que além da violência patrimonial, as perdas também podem gerar violência física contra elas.

2. Bolsa Família
A política de transferência de renda é destinada a famílias que ganham até R$ 218 mensalmente por pessoa. Qualquer mudança no programa atinge diretamente a vida das mulheres, já que, das 19,34 milhões de famílias atendidas, 84% têm a mulher como responsável pelo benefício, conforme o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Na semana passada, o governo anunciou a atualização de 15,04% no benefício a partir de outubro. Com a recomposição, o valor mínimo garantido por família passa de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado passa de R$ 675 para R$ 777. Esta é a primeira atualização dos valores pela inflação desde a retomada do atual modelo do programa, em 2023.
Para usuários do programa, o Bolsa Família aparece menos como um dinheiro que sobra e mais como uma base para organizar o mês: completar a compra, separar o valor do gás, pagar a luz, comprar remédio, garantir o transporte ou atravessar um período sem trabalho, é o que mostram as pesquisas qualitativas da plataforma Brief.
3. Fim da escala 6×1
Embora ainda não seja a solução definitiva, a redução de jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais alivia a dupla jornada das mulheres. De acordo com o Censo de 2022, do IBGE, o tempo que mulheres dedicam aos afazeres domésticos toda semana é o dobro do dedicado pelos homens. Somadas as horas gastas, as mulheres passam praticamente um dia inteiro (21,3 horas) a cada semana em tarefas de cuidado. Enquanto isso, o tempo cai para 11,7 horas no caso dos homens. Entre mulheres pretas e pardas, a sobrecarga é ainda maior: elas dedicam cerca de 22 horas semanais (ou 1,6 hora a mais por semana) a tarefas não remuneradas em comparação às mulheres brancas. Ou seja, mesmo quando cumprem jornadas formais, as trabalhadoras seguem acumulando trabalho não remunerado.
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Para mulheres pretas e pardas, essa sobrecarga é ainda maior: elas dedicam cerca de 22 horas semanais (ou 1,6 hora a mais por semana) a essas tarefas não remuneradas em comparação às mulheres brancas
4. Aumento do teto do MEI
Em 2025, o Brasil atingiu o maior número de empreendedoras da história com 10,4 milhões donas de negócios, de acordo com o Sebrae. Foram mais de 2 milhões de novos MEIs e micro e pequenas empresas abertas por mulheres, representando cerca de 42% dos novos pequenos negócios criados no país — um aumento de mais de 320 mil em relação ao ano anterior.
Mas a desigualdade aumenta, conforme as empresas crescem: quanto maior a empresa, maior a proporção de homens trabalhando, conforme o estudo Elas Pagam a Conta, da Think Olga e Think Eva.
Em um cenário de queda de empregos formais, o MEI representa um caminho para que profissionais autônomas possam prestar serviços, inclusive ter contratos no modelo pessoa jurídica, sem uma sobrecarga de impostos e burocracias que existem para empresas maiores, e também com proteções sociais, como acesso ao INSS, o que inclue benefícios como a licença maternidade. Atualmente, o limite anual de faturamento do MEI é de R$ 81 mil, em média R$ 6.750,00 por mês. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) defende que o limite do MEI passe para R$ 144,9 mil.

5. Programas para quitação de dívidas
O número de brasileiras (50,6%) endividadas é um pouco maior que o dos homens (49,4%), de acordo com o Mapa da Inadimplência do Serasa de abril de 2026. Mas “se considerarmos que elas estão lidando com maior escassez de recursos, a mínima diferença é algo digno de atenção”, explica o estudo Elas Pagam a Conta, da Think Olga e Think Eva.
Programas de negociação e quitação de dívidas são essenciais para ajudar nesse cenário. E ainda revelam que na verdade, elas não têm uma maior dificuldade em honrar suas dívidas. Mesmo recebendo 21% menos que os homens na mesma função, as mulheres fecham 25% mais acordos do que eles no Feirão do Serasa Limpa e quitam 11,6% mais dívidas.