
Talvez você tenha esbarrado por aí com posts que alertam: Flávio Bolsonaro vai proibir o sexo quente de ladinho beijando na boca e pegando no peito. Imagina que horror. Não dá para saber se vai acontecer mesmo, mas tudo indica que um governo de extrema direita não favorece um clima transante.
Não se trata somente de uma epidemia de beijos sem língua, como os que aparecem nesta série de vídeos (clique por sua conta e risco), ou de gente jurando que é imbrochável (que, sabemos, é justamente o que um brocha diria). Trata-se, sim, de um modelo de organização da sociedade que restringe o direito ao livre exercício da sexualidade e que massacra sua libido a ponto de anular o tesão.
Já está acontecendo e temos dados
Ao estudar a transição do socialismo ao capitalismo no Leste Europeu, a antropóloga Kristen Ghodsee identificou que as privatizações e a liberalização da economia tiveram maior impacto sobre as mulheres. Ficou mais difícil para elas conciliar trabalho remunerado e outras atividades, o que aumentou a sobrecarga e reduziu a independência econômica. Mais cansadas, inseguras e sem rede de apoio estatal, o sexo ficou pior para elas. Conhece essa história?
Algo parecido acontece com nossos vizinhos na Argentina, país governado pela extrema direita desde dezembro de 2023. Em conversas com amigas da Argentina, onde moro, volta e meia escuto que ninguém está com muita vontade de transar.
Os motivos são variados, todos ligados ao modelo econômico ultraliberal defendido pela extrema direita: achatamento de salários que obriga trabalhadoras a ter duas ou mais atividades remuneradas, sobrecarga com as tarefas de domésticas e o cuidado de pessoas, que aumentou com a retirada do Estado do financiamento da rede pública de assistência. Ou seja, elas estão sem grana e exaustas.
A defesa do individualismo, também característica dos projetos de extrema direita, distancia pessoas e desarticula redes de solidariedade. Com a privatização do lazer e a restrição ao uso do espaço público para festas – algo que tem acontecido de forma acelerada na cidade de Buenos Aires –, centros culturais, clubes de bairro e até mesmo praças e ruas deixaram de ser opções de terceiros lugares, conceito do sociólogo Ray Oldenburg para definir espaços de sociabilidade que não são a casa ou o trabalho.
Fica cada vez mais caro e mais difícil conhecer alguém pra trocar uns beijos
A Argentina passa por uma crise econômica que torna quase impossível marcar um date e pagar a conta de luz no mesmo mês. Um relatório produzido pela Universidade de Buenos Aires (UBA) mostra que os gastos com serviços públicos – gás, luz, água e transporte – representam mais de 14% do salário médio, um aumento de 55% em relação ao ano anterior.
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O reajuste salarial não acompanhou o aumento nos serviços, o que é parte de uma série de decisões de política econômica que sustentam o modelo que a extrema direita brasileira diz ser um exemplo. Vai ficar caro pegar o busão pra visitar a gata, fazer uma comidinha gostosa para conquistar o crush ou tomar aquele banho juntos.
Isso pra quem tem salário, claro. A Argentina registra hoje uma taxa de desemprego de 7,9%, o recorde desde que Javier Milei chegou à presidência – era de 6,2% no segundo trimestre de 2023. Quem consegue transar assim?
De quebra, o discurso moralista sobre sexo, que pretende regular com quem, como e quando as pessoas devem ter relações, também quer convencer que o prazer não é parte dessa equação. O arrocho econômico na Argentina reduziu a disponibilidade de preservativos na rede pública de saúde.
O Chequeado mostrou que, em 2024, o desfinanciamento do Plano ENIA, política de prevenção à gravidez na adolescência, veio acompanhado da redução histórica na quantidade de camisinhas distribuídas pelo governo federal. Milei, que nunca casou nem têm filhos, adora reclamar da queda na taxa de natalidade do país, puxada para baixo justamente por conta da redução de gestações na adolescência. A crise econômica entra nessa conta também, já que ter filhos é caro e a inflação interanual (setembro de 2025 a setembro de 2026) foi de 33%, segundo o Indec (similar ao IBGE).
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Mas Milei jura que a culpa da queda da natalidade é das feministas e da legalização do aborto, apesar de dados que mostram que as argentinas já vinham tendo menos filhos antes da lei de interrupção voluntária da gravidez, aprovada em dezembro de 2020. Como qualquer homem de extrema direita, ele adora se meter nas nossas vidas e nas nossas camas, mas nunca passa pela cabeça dele perguntar se é assim que a gente quer, se desse jeito está gostoso.
Sexo e extrema direita: como fica o Brasil nessa história?
Por aqui tem uns homens que também não querem muito saber nossa opinião sobre as coisas, imagina se eles vão dedicar tempo a um oral de qualidade. O candidato de extrema direita está cheio de amigos que defendem que mulheres não devem votar, a não ser que votem do jeito que eles querem.
Essa obsessão por controlar os nossos desejos é bem típica de movimentos conservadores, em geral, e exagerada em projetos políticos de extrema direita. Em comum, todos pregam que mulheres devem ser obedientes e submissas, retornar aos papéis tradicionais de gênero, nos quais se responsabilizam por tarefas domésticas e de cuidado, e abandonar o espaço público.
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A extrema direita quer o mesmo para as pessoas LGBTs, que fiquem escondidas, sem acesso às condições materiais de existência que permitam ter autonomia para decidir e consentir, outro direito humano fundamental que querem retirar de nós.
As políticas econômicas podem ter pequenas variações, ainda que no caso de Argentina e Brasil seja bem explícita a intenção de replicar o modelo. Mas numa coisa eles se parecem, todos: será que alguém que manda a mulher ficar quieta em público vai meter gemendo e prestar atenção se você gozou? Minha aposta é não, e eu adoraria ouvir a opinião de vocês. Conta pra mim em contato@azmina.com.br.
