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Secreto e proibido: uma história sobre a visibilidade lésbica no esporte

por Amanda Célio
28 de agosto de 2020
Por 70 anos Terry e Paty tiveram que se esconder por trás de uma amizade, numa época que só valia casamento entre homem e mulher
visibilidade lésbica no esporte
Documentário A Secret Love conta a história de Terry Donahue e Pat Henschel. (Imagem: Reprodução)

Devia ser maio e estávamos jogados pelo sofá da sala procurando algo pelo Netflix. Não. Na verdade pode ser que alguém tenha sugerido esse filme ou que tenhamos lido alguma recomendação. Na verdade tem grandes chances de não ter sido nenhuma dessas opções, já que é difícil confiar na memória em tempos de pandemia. Na verdade é a terceira vez que uso “na verdade”, agora quarta, e talvez teria sido melhor cortar as linhas acima e começar a coluna direto no tema: demos play em “A Secret Love” e você deveria fazer o mesmo. 

Seria injusto resumir o filme, disponível na Netflix, apenas como uma linda história de amor dos anos 40, entre duas mulheres da juventude à velhice. As protagonistas Terry Donahue e Pat Henschel viveram um romance por 70 anos, sendo a maior parte dele como mandava a época: “dentro do armário”. Terry teve uma brilhante carreira como jogadora de basebol pelo Redwings (1946-1951), de Peoria, nos Estados Unidos, e isso não se deve só pelo seu talento, mas por todo legado que construiu enquanto mulher e lésbica no esporte. 

Mas, pra gente entender melhor essa história vale voltar um pouco no tempo, em meados de 1947, quando numa pista de hóquei, Terry então com 22 e Pat com 18 anos, se apaixonaram. Na época as duas canadenses já moravam em Chicago e Terry já jogava profissionalmente pelo Redwings. Ela conta que se mudou para a cidade após um olheiro vê-la jogando e a convidar para um teste. A receptora estava no meio de outras 200 mulheres que encheram um estádio de Chicago para participar de uma peneira onde Terry e outras 59 atletas foram escolhidas para formar os times da liga. 

Esse foi outro papel importante que a jogadora exerceu: o de ajudar a fundar a Liga Americana de Basebol para Mulheres, a AAGPBL, em 1943. Embora a Liga tenha sido um marco para a época, há também inúmeros relatos “ocultos” de atletas que tiveram seus contratos suspensos por “terem a aparência lésbica”. Jojo D’Angelo não quis se submeter a um corte de cabelo sugerido pela Liga e, segundo conta, havia quebrado uma das regras fundamentais da AAGPBL que era: “Jogue como um homem, pareça uma dama”. Foi dispensada. Connie Wisniewski foi ameaçada de ser cortada de sua equipe caso cortasse o cabelo. Dottie Ferguson foi advertida por ter usado sapatos femininos Oxford, “porque eles tinham uma aparência excessivamente masculina”.

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No documentário, Terry comenta que embora levasse uma vida boa e tranquila, era quase impensável fugir do padrão heterossexual, pois se assumirem como lésbicas “não era bom negócio”. Por isso, sempre escondeu de suas colegas de equipe sua orientação sexual. Um dos diálogos maravilhosos do filme é quando perguntam se ela descumpria as regras da época: 

-Exatamente. Todas que jogaram beisebol nos anos 40 descumpriram as regras.

-Você descumpriu regras a vida toda?

-Sim, descumpri, por isso sou feliz, não é?

O casal viveu uma “vida dupla” não só profissionalmente, mas para as famílias de ambas elas eram apenas amigas que dividiam casa em Chicago devido ao alto custo de vida na cidade. 

Entre registros fotográficos refinados e uma história sobre resiliência e superação, o filme retrata os últimos cinco anos de vida matrimonial de Terry e Paty, bem como as dificuldades que enfrentaram ao longo da vida, numa época em que a homossexualidade era criminalizada e considerada um transtorno mental.

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Aqui também vale um parênteses para relembrar o contexto histórico e violento nos Estados Unidos onde no final dos anos 40 começa a ascender o Movimento por Direitos Civis, devido, principalmente, ao processo de segregação racial consolidado em 1896, onde vigorava a doutrina do “separados, mas iguais”. Este período de 1877 a 1950 ficou conhecido como a “era dos linchamentos” devido as quase cinco mil pessoas que foram linchadas no país, segundo registros da EJI – sendo a grande maioria pessoas negras. Mais tarde o Movimento por Direitos Civis se estendeu a outros grupos minoritários como gays, lésbicas e travestis.

Confesso que pausei algumas vezes o documentário para fazer stories indicando o que estava assistindo tamanha beleza da obra. Giordanno, que estava jogado no sofá junto comigo, sugeriu uma coluna sobre o filme, que acabei postergando. 

Passado alguns meses recebi um email da editora dessa coluna, Barbara Mengardo, perguntando o que eu achava de escrever um texto sobre visibilidade lésbica no esporte, já que dia 29 de agosto comemora-se o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Semanas atrás respondi que sim, que queria fazer uma coluna mais “poética” que celebrasse o amor porque fiquei emocionada com o casamento da centroavante da Seleção Brasileira, Cristiane Rozeira, com a advogada Ana Paula Garcia.

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Ainda beira o incomum, embora tenhamos progredido, que atletas lésbicas assumam seus relacionamentos publicamente. E a celebração de um casamento, mesmo em cerimônia íntima, como foi de Cris e Ana Paula, é uma grande vitória e um belo exemplo de que histórias de amor entre mulheres merecem ser visibilizadas, sobretudo no esporte, ambiente ainda tão masculinizado e homofóbico. 

Por 70 anos Terry e Paty tiveram que se esconder por trás de uma amizade, numa época que só valia casamento entre homem e mulher. Mas, já quase no final da vida de ambas, o clichê máximo dos românticos prevaleceu: o amor venceu. E como a própria Terry concluiu: “Acho que amor é amor e isso é o mais importante”. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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