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25 de julho de 2022

Se Sueli Carneiro é por nós, quem será contra?

Não topo mais pessoas e lugares que questionam minha negritude, a gente precisa avançar no debate
Arte com Sueli Carneiro em primeiro plano

“Também sou filha de pai preto e mãe branca e nunca sei como vou ser recepcionada nos lugares”, me escreveu Laila. Ela leu um texto meu aqui n’AzMina (“Pai preto e mãe branca. Qual meu lugar no Brasil”) e me disse que se identificou e se sentiu acolhida pela minha história.

Eu queria abraçar a Laila, levar ela pra tomar uma breja e dizer: Sueli Carneiro é por nós! A filósofa e escritora, que tem uma filha de pai branco, nos ensina que a miscigenação no Brasil tem sido historicamente utilizada para enfraquecer a identidade racial dos negros.

“Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam”, escreve Sueli no texto que é um guia: Negros de pele clara.

Eu também queria dizer pra Laila que faz 16 anos que eu me descobri negra, mas que levou mais de uma década para eu entender que não importa como eu vou ser recepcionada, pois eu continuo sendo negra. E que não é mesmo confortável esse lugar de, repetidas vezes, ter que se afirmar.

Mas eu não vou mentir: eu precisei de muita validação externa para chegar nesse lugar. E foi na Marcha de Mulheres Negras de São Paulo (com as manas que constroem esse movimento) onde me encontrei, nesse lugar-pessoas-movimento que será sempre meu quilombo.

Fui levada pela amiga Cinthia Gomes, e quando cheguei lá tinha a Regina Lúcia, do Movimento Negro Unificado (MNU); a Nilza Iraci, do Geledes; a Juliana Gonçalves, que é sempre exemplo de tecituras de afetos e movimentos; a Neon Cunha, com a inteligência e língua mais afiadas que eu já conheci; a Patricia Borges, que junta luta com bunda no chão e pariu o PoupaTrans; a Luciana Araújo, que tá na linha de frente das mais diversas lutas; a Andreia Alves, que não leva desaforo nem colorismo para casa; e a Keit Lima, que tá gritando lá da Brasilândia (periferia de São Paulo) que vai ter sim mulher preta, gorda e da quebrada na política institucional.

Leia mais: Você se incomoda de frequentar lugares em que só há brancos?

Aí eu me dei conta: mas minha gente, se essas mulheres fodas me aceitaram nesse lugar, quem tem a audácia de questionar minha negritude?

“Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos [os brancos] o privilégio de serem representados em sua diversidade. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações”, explica Sueli no texto Negros de pele clara.

Hoje eu não topo mais pessoas e lugares que questionam minha identidade. Ah, não sou negra suficiente pra você? Vai conversar com a Sueli Carneiro, depois você volta aqui no meu guichê. A gente precisa avançar no debate, e eu tô sem tempo, irmão.

É pela Laila (e pela Thais que se descobriu negra aos 18 anos) que eu resolvi começar essa coluna. Porque percebi que é preciso também falar de negritude a partir desse lugar (ou do não-lugar) dos negros que vêm de famílias interraciais, dos afrobeges, dos pardos, dos negros de pele clara, dos moreninhos.

E não é pra dividir o movimento, mas pra somar. Eu também aprendi com a Sueli que essa é mais uma mentira inventada pelo racismo: “Tudo que estiver dito aí que é pardo e preto, para nós [movimento negro] é negro. Por quê? Porque isso sempre foi uma estratégia de botar em conflito os mais claros e os mais escuros. Desde a escravidão. Sempre foi uma estratégia de partir a nossa identidade racial”, disse a filósofa no podcast Mano a Mano.

Leia mais: Pai preto e mãe branca. Qual meu lugar no Brasil?

“Mas Thais, quem é você para falar sobre isso?”. É desse lugar que eu falo: da minha vivência de filha de pai preto e mãe branca, da leitura e escuta atenta das minhas mais velhas e mais sábias, dos aprendizados forjados no movimento social de mulheres negras.

Não sei se essa coluna vai durar um mês ou um ano, mas achei que valia tentar, porque pode servir a Lailas e Thaises que estão por aí se sentindo perdidas, sem saber que podem contar com Suelis, Cinthias, Reginas, Julianas, Nilzas, Neons, Lucianas, Keits, Andreias e Patrícias.

PS: Sueli Carneiro infelizmente ainda não é leitura obrigatória nas escolas e exames psicotécnicos. Se você conhece pouco dela, recomendo começar pela entrevista que ela deu para a jornalista Bianca Santana na Revista Cult. É uma das melhores leituras de Brasil e contexto que você vai ler.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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