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5 de fevereiro de 2021

Podemos aceitar a radicalidade de pessoas negras serem humanas?

As imagens de controle cristalizam representações, mas podemos colocar algumas coisas em debate

A desumanização tem muitas camadas. Se de um lado, ela representa o roubo de dignidade, autodeterminação, sequestro das oportunidades e da possibilidade de uma vida plena, na outra direção, a desumanização também é a premissa de que para ser aceito é necessário ser perfeita, perfeito. Ou quando há uma imperfeição, ela é fruto de fatores estruturais, mas jamais um traço de subjetividade. Transitamos entre sermos considerados párias ou super-mulheres/super-homens. Os dois extremos são igualmente perigosos e dizem respeito ao fato que a nossa existência ainda é tensionada pelos essencialismos e pela pressuposição de uma incapacidade nossa de se autodefinir.

Esse sobrevoo por esferas talvez difíceis de palpar, é para trazer um olhar distinto para os tensionamentos vistos no reallity show mais popular e longevo no Brasil, o BBB. Se os racistas se regozijam com o fato de que haja falhas éticas no time de pessoas negras, pela primeira vez distribuídas em uma perspectiva equânime no programa; por outro lado, muitos de nós, negros e negras, ao combatê-los apelamos para argumentação de que aquilo é uma construção forjada por mãos brancas, num projeto de esvaziar o sentido da palavra militância e a edição do programa manipulou a imagem das pessoas negras, as retratando como vilãs.

Nem as nove pessoas precisam representar todas as pessoas negras do Brasil em sua diversidade, nem precisamos as considerar incapazes de tecer seus próprios discursos e escolhas. Como comunicadora, não ousaria negar o poder e a eficiência da montagem e edição, tampouco os recursos dramatúrgicos utilizados para estimular tensões e conflitos. Mas também considero maniqueísta achar que há um absoluto controle e determinação sobre o comportamento dos participantes, como se os mesmos estivessem atuando numa produção cujo texto já foi previamente escrito.

Ainda que nossas escolhas não se deem numa perspectiva de absoluta liberdade, absoluta autonomia. Somos capazes de fazer escolhas — mesmo que nosso discurso seja atravessado de falas coletivas, algumas delas também constituídas pelas vozes do opressor. Nem somos os ruins por naturezas, nem os absolutos ingênuos, que somos absolutamente manipulados sem visão crítica ou partícipes de um plano diabólico.

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O racismo e sexismo são construções simbólicas sobre os corpos e os indivíduos. As imagens de controle cristalizam representações sobre pessoas negras, mais especificamente, mulheres negras, criando uma aparência de “naturalidade” em torno de comportamentos, construindo uma base propícia para as opressões. Imagens de controle são um conceito fundamental do feminismo negro, elaborado no pensamento de Patricia Hill Colins e é uma chave de leitura fundamental para ir além da identificação de estereótipos. As imagens de controle existem e fazem parte de um projeto de poder e construção de sentido no mundo.

Essas imagens de poder, inclusive, nascem escarnecendo das nossas potências. A mulher negra raivosa é uma imagem de controle que não surgiu do nada: ela torna negativa a capacidade de reação e autodeterminação de mulheres negras, enquanto cristaliza nas mulheres brancas uma docilidade e uma delicadeza como elementos fundamentais da feminilidade. As imagens de controle estão para todos os corpos que são desumanizados, objetificados, alterando sua capacidade de falar de si por si.

A TV brasileira trabalha cotidianamente mantendo as imagens de controle, mantendo na teledramaturgia e no próprio jornalismo um modo muito específico de representação. E a eficiência desse projeto perpassa em assimilar inconscientemente essas imagens. É nesse sentido que podemos colocar algumas coisas em debate. Sem com isso, esvaziar nossa autonomia. Sem com isso, esvaziar o fato de que não, pessoas negras não pensam e agem de modo uniforme.

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Pessoas negras são contraditórias. Pessoas negras podem ser incríveis parceiras e outras podem ser cruéis. E uma pessoa pode ser muito generosa aqui e extremamente pérfida ali. A visão binária bem-mal, vilão-mocinho, santa-puta, herói-bandido é extremamente ocidental, portanto, branca. Ao afirmar nossas potências, cabe também reconhecer nossas fragilidades, vulnerabilidades e celebrá-las, sem passar pano, sem negar a existência.

Essa pessoa que vos escreve é uma pessoa disciplinada, criativa, generosa. Também maldosa muitas vezes, falastrona, procrastinadora, pessimista. Muitas vezes fui irresponsável, fiz corpo mole. Em outras, fui comprometida, movida pelo desejo de mudança. Algumas pessoas me consideram metida, outras professoral demais, beirando à prepotência. Outras nem notam minha presença. Sou tudo isso. Você também. Carregamos em nós, sim, auto-ódio produzido por séculos de desumanização. Mas se minha mão fere o outro, é responsabilidade minha. Tanto quanto o afago que faço, o tempero que coloco no feijão. Ser humano é isso. É ser imperfeito. E pagar o preço.

Mônica Santana é jornalista, performer, dramaturga, atriz, educadora e doutoranda em Artes Cênicas. Quatro planetas em Sagitário: Seta apontada para o Sol.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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