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Pequenas esposas – Primeiro

por Fabiane Guimarães
21 de janeiro de 2016
“Mother says there are locked rooms inside all women, kitchen of love, bedroom of grief, bathroom of apathy. Sometimes, the men, they come with keys, and sometimes the men, they come with hammers.” - Warsan Shire

AzMina tem muito orgulho de anunciar que, a partir de hoje, começamos a publicar o romance de folhetim “Pequenas Esposas”, de Fabiane Guimarães. Toda sexta-feira, de agora em diante, você poderá acompanhar a história da brasileirinha Maria Vicentina, destinada a se casar na infância com um homem muito mais velho.

N inguém media o tempo das crianças na roça. Nenhum ritual acompanhava a passagem dos anos e os onze filhos de dona Luzia cresciam feito capim, selvagens e embaraçados, contando a idade pelo tamanho das pernas. A própria certidão de nascimento, que todos ainda calhavam de ter, era suspeita: o cartório mais próximo ficava longe e o pai, quando a mulher paria, tinha que ir andando fazer o registro. Às vezes, embalado no transe dormente da cachaça, esquecia-se de ir. Outras tantas, desviava de caminho pegando carona no lombo de um cavalo, parava para comprar fumo de mascar no trevo e só chegava três dias depois, pescando uma data da imaginação e arrematando o batismo na hora – quase sempre, em honra aos antepassados que dormiam naquele cerrado de ossos.

Maria Vicentina era a única menina entre os onze, por alguma falha fantástica de probabilidade, e trazia no nome homenagens em dobro. Antes, a mãe e a tia, as outras únicas do seu tipo que conhecia, viviam predizendo desgraças para além da infância, quando virasse mocinha. Diziam que a metade das coisas mais divertidas do mundo se acabariam, nada de correr na lama, brincar de pique e subir na goiabeira. Se ela era um bicho que de repente se tornava outro, não queria nem pensar em crescer.

Agora tinha 10 anos inteiros (segundo uma estimativa de pele) e já era moça pequena, porque as coisas começavam a mudar no ritmo lento e indiscreto da vida, para trazer as tormentas anunciadas de berço. Antes de brincar, havia de ajudar no almoço, arear as panelas e varrer a casa, depois lavar a roupa, catar o feijão e arrumar a mesa da janta. Via os irmãos passando com a bola debaixo do braço, correndo para o quintal, e amuava.

Menino homem não virava mocinho.

A existência era solitária e mudava conforme a necessidade pedia. Um casebre que ganhava emendas, depois um curral, outro galinheiro, mais uma fileira de legumes na horta, pequeno universo em expansão contra a fome. O pai passava os dias sendo caseiro da fazenda grande, só voltava nas beiradas da semana, para trazer as coisas que eles precisavam tanto e não podiam buscar. Chegava carregando o sol nas costas, as costelas pontudas visíveis sob a camisa esgarçada e transparente. Era recebido por dona Luzia ainda na porteira, com as notícias mais recentes desses meninos que não param de dar trabalho.

Maria Vicentina sabia que o pai vinha chegando quando sentia a nuvem enjoativa de perfumes, mistura de álcool, cigarro de palha e suor, e por muito tempo achou que aquele fosse o cheiro do amor. Amava o pai, com suas pernas compridas e seu rosto cabeludo, e é verdade que também amava quando ele ia embora. Não que fosse homem mau. Era só uma presença que chegava quando dava saudade, mas se permanecia fazia o tempo sombrear. Devia ser o silêncio. Papai é feito de pedra – caçoava Joaquim, o irmão mais velho – é por isso que ele não fala muito. Maria achava que o pai não falava porque não tinha dentes. Vai ver as palavras escorregavam na boca e ele tinha que engolir de volta. Ela nem conseguia imaginar o que devia ter naquele estômago cheio de coisas não ditas.

“Deixa de ser ridícula”, criticava Joaquim

Ela era esquisita. Gostava de olhar para o nada e matutar, o pensamento espiralava, sumia de vista. Fermentava dúvidas cruéis que faziam sua cabeça doer. Para onde a gente vai quando morre? Por que o céu fica escuro de noite? Por que as pessoas na televisão eram todas brancas e ela era preta?

“Quieta e vai dormir, Maria Vicentina”, resmungava a mãe, e as perguntas ficavam sem respostas, caladas por obrigação que nem os fantasmas.

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Nenhum deles sabia ler e escrever e no dia em que o tempo parou chegou na chácara a moça bonita em cima de uma carroça. Ela parecia brava. Maria ficou escondida, espiando tudo pela janela da cozinha. A mulher era a mais linda que já tinha visto, uma artista de novela, com vestido florido e cabelo loiro.

“Não tem como levar. E aqui eles não precisam disso não”, Maria ouvia a mãe explicar. Também estava brava.

A moça, afinal de contas, era uma professora. Maria Vicentina e os irmãos ficaram sabendo, tarde da noite, que dali a uma semana passariam a frequentar uma escola. Era uma novidade elegante e assustadora, ter aula, ninguém ali conhecia aula, só a tia, que tinha cursado o primário e explicou que a escola era um lugar para aprender. A professora prometeu que garantiria transporte e lanche. Dona Luzia passou a ver vantagem em ter os meninos longe de casa.

Maria, em particular, sentiu a ansiedade crescer dentro dela como uma bolha. Atormentava-se de medo de não conseguir aprender as coisas que precisava, de ser burra. Pensava nisso o tempo todo, desde a hora em que o galo cantava e ela ajudava a mãe a coar o café, até o momento em que preparava a janta, mexendo a colher de pau para engrossar a sopa. Eu vou estudar, repetia com a mão no queixo, salivando de ideias. De repente a professora dava um jeito dela deixar de ser burra.

Foi o retorno semanal do pai, porém, que estourou a bolha, a expectativa restou em cacos. Machucou como um chute na boca do estômago. Ele veio, ele e seu cheiro de amor e silêncio, arrastando o corpo magro até a mesa de madeira. O prato de alumínio esmaltado esperava pelando. Ouviu a novidade sem reclamar, engolindo a comida com os lábios crispados. Até erguer a cabeça, coçando a barba, pequena elevação na superfície da calma. Deixou o olhar cair em cima de Maria Vicentina, ela assistindo à pequena televisão abraçada aos joelhos.

“Esqueci. A menina não vai não”, anunciou. “Semana que vem vou levar ela pra fazenda.”

“E pra quê?”, a mãe questionou.

“Doutor Matias quer juntar com ela.”

Maria Vicentina congelou, já de cara vendo que era coisa ruim. Veio manso o desapontamento doído de saber que não iria à escola. Vai ser bom pra você – alegou a mãe, sentada na cama, à guisa de explicação – vai ter sua casa. Suas coisas. Vai viver melhor que aqui.

Nada foi dito a respeito dos 10 anos inteiros porque, sem medir o seu tempo, concluíram que era o suficiente.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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