logo AzMina
10 de novembro de 2016

“O que me surpreende é que as pessoas estejam surpresas com a eleição de Trump”

Tenho esperança de que finalmente nos conscientizemos que a mudança que tanto queremos terá que partir de nós.

[fusion_text]Quem senta no divã hoje é a nossa editora de beleza, Juliana Luna.  

Marco Rubio and Donald Trump react to each other as they discuss an issue during the debate sponsored by CNN for the 2016 Republican U.S. presidential candidates in Houston, Texas, February 25, 2016. REUTERS/Mike Stone

“Muita gente está surpresa com a eleição de Donald Trump. Como se ninguém estivesse vivendo no presente. Nós, integrantes de uma comunidade que é marginalizada desde sempre, já sabíamos que os EUA é um país racista, homofóbico, misógino e guiado por valores completamente materialistas.

Vamos perguntar às famílias dos que foram assassinados por policiais nos últimos anos? Vamos perguntar aos países em guerra que foram bombardeados pelo exército americano nas últimas décadas? Vamos perguntar aos que vivem um dia a dia de incertezas por serem minorias em um país altamente intolerante? Vamos perguntar às milhares de famílias que estão indo à falência, financeira ou emocional, por viverem o consumismo desenfreado que esta potência mundial alimenta?

Trump não é uma pessoa, Trump é um sistema completamente estabilizado. Trump é o reflexo de uma educação através do medo. Trump é a separação que nós, seres que habitamos este planeta, vivemos desde o dia em que decidimos acreditar que o poder e a dominação são conceitos coerentes. Não me surpreende que este seja o retrato da situação política nos EUA, no Brasil ou na minha cidade: Rio de Janeiro.

O que me surpreende é que as pessoas estejam surpresas.

Será que vivemos mesmo nessa bolha, onde nosso metro quadrado seguro, o algoritmo do Facebook e nossos amigos é que ditam as nossas interações com o externo? E a realidade?

Falamos de corrupção, mas não devolvemos o troco certo pro motorista do ônibus que, além de dirigir, presta atenção nas crianças que entraram no veículo, na senhora que está em pé porque um homem está ocupando o lugar preferencial e na via que é a selva. Porque ninguém está preocupado com nada além do próprio umbigo… Falamos em feminismo, mas nos calamos quando uma jovem está visivelmente incomodada com um senhor respirando no pescoço dela na condução. Falamos em democracia, mas nunca levamos em consideração que nossas ações a nível micro afetam o macro em nossas comunidades. Falamos em movimentos que transformam e mesmo assim estamos competindo pra ver quem é a melhor no que faz.

Que existência é essa? Somos parte desse ecossistema aí. Com Trump, Temer, Dória, Crivella, ACM Neto…

O que amplifica a voz destas pessoas é o medo. Medo de ter que mudar a nível pessoal e encarar que essa informação que comemos durante séculos é tóxica. Medo de ter que encarar a realidade e se envolver pra gerar uma mudança definitiva. Porque dá trabalho desconstruir séculos de nonsense. Dá trabalho ter que abdicar de certos privilégios para que possamos nos igualar e viver de forma mais equilibrada. Todo mundo quis a TV de plasma e a geladeira nova. Todo mundo reclamou por perder certos privilégios do alto de seus castelos classe A.

A vida a partir desse ângulo parece tão mais confortável. Não é mesmo?

Vivemos num lugar onde a mentalidade de escassez lidera. Onde a miséria é sempre o ponto de partida.
Ninguém nos ensinou sobre a tal da abundância. Sobre a natureza e seus ciclos, sobre o equilíbrio presente nessa mesma entidade que nos ensina sobre existir em harmonia.

Nossa forma de olhar o mundo é completamente baseada em um sistema opressor que foi instaurado há séculos atrás, onde a dominação é o fator determinante. Existimos em um lugar onde a origem de tudo é o opressor, e nós, por medo de ir buscar informação na fonte, compramos essa visão esquizofrênica aí. Nossa mente é uma vertente de valores dominada pela mesma cadeia de conceitos que desemboca no oceano Trump.

Mas e agora?

Agora os sonhadores precisam botar as mãos na massa. Agora nós, que tanto queremos um futuro que faça sentido, precisamos estar voltados pro cuidado de nossas comunidades.  Prestar atenção uns nos outros e nos fortalecer como indivíduos, para que nossa comunidade seja repleta de líderes e realizadoras.  Buscar a força contida na nossa ancestralidade, seja ela qual for.

Não é papo “new age”. É busca por sabedoria a partir da necessidade de sobrevivência e reconexão com uma força que nos une. O rio da vida. Algo que não se fundou no medo. Algo que existe em mim, em você, na natureza, em nós.


Também tem um desabafo para fazer ou uma história para contar? Então senta que o divã é seu! Envie seu relato para [email protected] 

[/fusion_text]

Luna é estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista, atriz e embaixadora cultural. Nativa do Rio de Janeiro. Estudou dança na UFRJ e na Germaul Barnes Dance company em NYC. Atualmente, mora entre os Estados Unidos e o Brasil e viaja o mundo criando experiências compartilhadas para pessoas de todo tipo de estilo de vida. Seus nortes são: intuição, sabedoria ancestral, conhecimento por experiência global e a arte dos turbantes.
Em maio de 2015, foi convidada para uma viagem de reconexão com suas raízes ancestrais. Através de um teste de DNA, descobriu que seus ancestrais vieram da Nigéria, do grupo étnico iorubá.
Por mais de 5 anos, trabalhou ensinando pessoas, principalmente mulheres, a fazer amarrações de tecido na cabeça. Em estilo africano. Há pouco tempo percebeu que isso faz todo sentido. Tudo está conectado. Vive de aprofundar seus laços entre o Brasil e a Nigéria.
E este é apenas o começo da jornada.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Jornalismo independente depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e livre para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina