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9 de fevereiro de 2017

“Demos uma ‘surra’ nos caras que tentaram nos ridicularizar no Carnaval”

#UmaMinaAjudaAOutra Eu e minhas amigas, juntas, reagimos a um grupo de homens que riu do nosso cabelo black power. Pude festejar e me sentir amparada.
Luna (à direita) e sua corajosa amiga Maryam: juntas contra o racismo dos foliões. Foto: Arquivo Pessoal

“Carnaval.

Rio de Janeiro.

Bloco rolando na rua… Todo mundo mega feliz e animado. Era um bloco no Aterro do Flamengo, cartão postal do Rio de Janeiro. Todos nós seguindo aquele cortejo musical cantando e sorrindo. Eu estava acompanhada de uma amiga francesa, negra de cabelo “black power”, uma que fala francês fluente e mais algumas meninas.

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Eis que passa um grupo de franceses foliões e um deles usava uma peruca “black power” bem chinfrim. Um dos amigos dele, gritou em francês repetidas vezes (musica alta, carnaval etc…) e apontou pra mim, achando que eu não ia entender:

– Olha fulano, é você! – disse ele, às gargalhadas.

Na hora eu fiquei muito irada. Pô, não bastasse esse cara vir pro meu país, colocar uma peruca bizarra pra “imitar” e ridicularizar meu cabelo, ainda se acha no direito de rir de mim?!

Eu chamei minha amiga, que achou um absurdo o que tinha acontecido. E fomos as duas de cabelo black tentar dialogar com este ser humano.

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Ela já chegou quebrando o cara no francês.

– O que você acha de rir do meu cabelo agora, aqui, na minha cara? Você sabe que o que você está fazendo é racismo?

O cara desconcertado, foi ficando roxo…verde…laranja…não sabia onde se enfiar de vergonha.

Minha outra amiga, que também fala francês, veio ao nosso encontro pra questionar a atitude bizarra dele e dos amigos dele.

– Você acha legal ridicularizar as mulheres negras que usam cabelo natural? O que te dá o direito de, além de usar uma peruca de péssima qualidade como fantasia de carnaval, rir delas?

O francês ficou tão sem graça que veio se desculpar e dizer que não sabia que estava ofendendo a gente. E que, se soubesse que isso era um ato racista, não o teria cometido. Saiu de perto pedindo mil desculpas e se sentindo um idiota.

Saímos de lá as três nos sentindo vitoriosas. Como se nossa união tivesse mesmo fortalecido uma causa muito maior. O combate ao racismo é real, afinal.

Muitas vezes nos calamos diante de opressões como essa e relevamos, porque, afinal, né, é carnaval… Alegria, Alegria!

Só que, se alguém nos ofender, ou nos abusar de alguma forma, nossa alegria acaba. Nos sentimos vulneráveis. Violentadas.

Mas, nesse dia, com a ajuda das minhas amigas, pude festejar e me sentir amparada. E ainda demos ‘surra’ de francês nos caras que tentaram nos ridicularizar em pleno carnaval!

Racistas não passarão. Mesmo na folia!”

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Luna é estrategista de comunicação, articuladora urbana, artista, atriz e embaixadora cultural. Nativa do Rio de Janeiro. Estudou dança na UFRJ e na Germaul Barnes Dance company em NYC. Atualmente, mora entre os Estados Unidos e o Brasil e viaja o mundo criando experiências compartilhadas para pessoas de todo tipo de estilo de vida. Seus nortes são: intuição, sabedoria ancestral, conhecimento por experiência global e a arte dos turbantes.
Em maio de 2015, foi convidada para uma viagem de reconexão com suas raízes ancestrais. Através de um teste de DNA, descobriu que seus ancestrais vieram da Nigéria, do grupo étnico iorubá.
Por mais de 5 anos, trabalhou ensinando pessoas, principalmente mulheres, a fazer amarrações de tecido na cabeça. Em estilo africano. Há pouco tempo percebeu que isso faz todo sentido. Tudo está conectado. Vive de aprofundar seus laços entre o Brasil e a Nigéria.
E este é apenas o começo da jornada.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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