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11 de novembro de 2019

O maior risco de estupro está dentro de casa

É mais fácil imaginar que o estuprador é aquele vulto sem rosto na calada da noite. Porque é arrepiante aceitar que ele é o pai, o irmão, o marido, o primo, o tio ou o vizinho

Uma beco escuro. Uma rua vazia no meio da noite. Uma festa em que um estranho oferece uma bebida. São esses os cenários que costumam vir à mente quando falamos em estupro, mas a verdade é que a maior parte das violências sexuais acontece dentro de casa. Principalmente contra meninas com menos de 14 anos, mas também com jovens e adultas. 

Isso não é novidade. Todo ano os números das denúncias policiais e atendimentos hospitalares mostram isso. Mas esse é um imaginário difícil de aceitar, né? É mais fácil imaginar que o estuprador é aquele vulto sem rosto, o desconhecido na calada da noite. Porque é arrepiante e até desesperador aceitar que ele é o pai, o irmão, o marido, o primo, o tio ou o vizinho. 

Mas infelizmente, é. 

Em 2018, o Brasil teve 66 mil vítimas de estupro. Oito em cada 10 dos casos, as vítimas eram mulheres e quase 54% delas eram meninas de até 13 anos! Em 76% dos estupros, o autor era alguém conhecido da vítima. Esses dados são do Anuário do Fórum de Segurança Pública, que reúne os números do Brasil todo. 

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Olhar para esses dados é sempre chocante. Mais da metade das vítimas de estupro tinha menos de 13 anos. Sabia que a idade média da primeira menstruação hoje em dia é entre os 12 ou 13 anos? Ou seja: a maioria das meninas estupradas no nosso país não tinha sequer menstruado. E quem abusou dela era um conhecido. Parentes ou amigos da família, que usam da confiança e da proteção da casa para cometer essa violência. 

Adultas também não estão seguras em casa

Falar das meninas é sempre chocante e assustador. Mas para as mulheres adultas também acontece estupro dentro de casa. No caso delas, 20,3% dos abusadores são parentes, 15,2% conhecidos e 12,6% são namorados, maridos ou companheiros, segundo o Mapa da Violência contra a Mulher de 2018. E especialistas sempre reforçam que nesses casos a subnotificação é enorme. Afinal, como reconhecer o estupro cometido pelo marido?

Eu já ouvi de tantas amigas a pergunta: “será que eu fui estuprada pelo meu companheiro?”. É que existe uma ideia de que dentro do relacionamento o sexo é uma obrigação. Então existe uma dificuldade em dizer não, em reforçar esse não e, principalmente, em reconhecer que houve violação quando ele foi desrespeitado. 

Até porque, muitas vezes, isso não envolve aquela ideia de violência que vem à mente quando falamos em estupro, é bem mais sutil, baseado numa enorme insistência e no jogo de poder. Mas é sempre importante lembrar que estupro é o que acontece sempre que acontece sexo sem o consentimento de uma das pessoas envolvidas. Esse vídeo abaixo ilustra muito bem (ALERTA: pode ser um gatilho para muitas mulheres, pois é uma cena muito mais comum do que gostaríamos). 

O que fazer quando acontece um estupro dentro de casa

A mulher ou menina que foi vítima de estupro – seja ele por parte de um conhecido ou não – pode procurar um hospital para ter acesso ao atendimento emergencial. Quanto antes fizer isso, melhor, porque esse atendimento conta com remédios para evitar o contágio por infecções sexualmente transmissíveis (ISTs, antes chamadas de DSTs), como o HIV, e também contracepção de emergência, para evitar uma gravidez. 

Mas são casos difíceis de reconhecer. Muitas meninas escondem por muito tempo a violência sofrida, sob ameaça do abusador. E muitas mulheres demoram para entender que foram violentadas. Ainda assim, o atendimento médico é importante, mesmo que meses depois. Inclusive, caso engravidem da violência sofrida, essas mulheres têm direito a interromper a gestação. Aqui tem um mapa dos hospitais cadastrados para oferecer esse atendimento

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Nenhuma mulher é obrigada no Brasil a seguir adiante com uma gravidez que resultou de um estupro. 

E para isso, não é obrigatório fazer denúncia na polícia

Por que eu falo isso? Porque denunciar não é fácil. Porque muitas mulheres têm medo de serem desacreditadas ou sofrer uma nova violência na delegacia. E mesmo assim, têm direito ao atendimento médico. 

Mas sempre lembrando que, se puder, denunciar é importante para responsabilizar o abusador e evitar que ele cometa novas violências. 

E dá para evitar esses estupros?

Não sei falar bem sobre como trabalhar os homens que abusam. Não sei o que poderia fazer com que um adulto que acha ok ter relações com uma criança deixar de achar isso ok. Mas sei que conversar com as meninas pode fazer com que elas aprendam a reconhecer a violência e a fugir dela. Como essa menina no Espírito Santo, que descobriu em uma palestra que sofria violência sexual e denunciou o padrasto.

Para as adultas, vale a mesma lógica, quanto mais falarmos, mais entenderemos os limites do que é aceitável ou não em uma relação, e conseguiremos fazer o não valer. Sempre na esperança de que nossas casas possam ser um refúgio e não um lugar de medo.

Helena é jornalista formada pela USP e com pós-graduação em roteiro pela FAAP. Já atuou em diversos veículos, como UOL, M de Mulher, Veja São Paulo e a Revista Sou Mais Eu. Especializada em cobertura de gênero, direitos humanos, diversidade e sexualidade, é editora chefe da Revista AzMina e também escreve a coluna quinzenal sobre sexo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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