
Freud dizia que todo sonho nasce de uma negociação: de um lado da mesa está aquilo que deseja vir à tona. Do outro, forças que tentam contê-lo. Por isso que, quando dormimos, o que se passa em nossa mente raramente é literal.
O Brasil que saiu das urnas neste domingo parece ter realizado dois desejos que, à primeira vista, não caberiam no mesmo sonho: eleger mais mulheres nas cadeiras e sentir o medo de que vários direitos garantidos pelas mulheres sejam revogados. Alucinação? Não, apenas a política brasileira de 2026.
Neste ano as mulheres ganharam espaço nas eleições, principalmente no Congresso. Comecemos então pela Casa Alta. Entre as 54 cadeiras do Senado em disputa, 12 serão ocupadas por elas em 2027, praticamente o dobro das sete eleitas em 2018 (ano que marcou a última vez em que os dois terços foram renovados).
Os números, porém, enganam. A representação feminina cresceu, mas não necessariamente a adesão às pautas historicamente associadas aos direitos das mulheres vieram com elas. Entre as 12 novas senadoras, as três senadoras do PL, puxadas por Michelle Bolsonaro, rejeitam publicamente o rótulo de feminista:“Feminina sim, feminista, nunca!”. Cinco se abstém do posicionamento (mas seguem linhas conservadoras, uma vez que são de partidos como Republicanos, Podemos, União Brasil, MDB e PSDB), sobrando apenas quatro feministas. Trocando em miúdos: há mais mulheres ocupando cadeiras, mas boa parte delas atua contra os interesses da população feminina. Afinal, numa matemática de padaria, o placar ficaria 8 x 4.
O aborto talvez seja a pauta mais dicotômica dentro da bancada feminina. Enquanto algumas parlamentares defendem a manutenção ou ampliação dos direitos reprodutivos, outras construíram parte de sua trajetória política justamente combatendo-o. Com essa nova leva eleita, a balança tende a pesar para o enrijecimento de políticas punitivistas em relação aos direitos reprodutivos. Vem comigo:
Atualmente apenas uma senadora defende explicitamente a ampliação do direito ao aborto e a autonomia de escolha das mulheres: Teresa Leitão (PT). Das seis senadoras em meio de mandato, Damares Alves (Republicanos) e Tereza Cristina (PP) trabalham incansavelmente na política anti-aborto, defendendo o endurecimento de penas. Professora Dorinha (União) é contrária a ampliação ou a legalização geral do aborto. É o famoso “deixa como tá”. O resto? Temos Jussara Lima, é a primeira suplente do senador Wellington Dias (PT) que se isentou ao responder que “o senado precisava discutir com mais cautela” e Lourdinha Pereira, que é suplente de Ana Paula Lobato que, por sua vez, é suplente de Flávio Dino, atual ministro do STF.
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Isto posto, das 18 senadoras é possível dizer que oito são contrárias a descriminanalização do aborto, sendo elas Damares Alves (Republicanos), Tereza Cristina (PP), Professora Dorinha (União), Michelle Bolsonaro (PL), Bia Kicis (PL), Gracinha Caiado (União), Carol de Toni (PL), Mara Rocha (Republicanos). Cinco são abertamente favoráveis à descriminalização e/ou ampliação da lei, sendo elas Teresa Leitão (PT), Luizianne Lins (Rede), Marília Campos (PT), Marília Arraes (PDT) e Samanda de Lula (PT). Sem posição pública clara temos Jussara Lima (PSD) e Lourdinha Pereira (PSB) e Marina JHC (PSDB). Rayssa Furlan (Podemos) e Teresa Surita (MDB) não comentaram o tema, mas já se declaram cristãs. Ou seja, podem facilmente migrar ao grupo majoritário que pode restringir direitos já conquistados.
Além dos direitos reprodutivos, estão em tramitação 24 projetos considerados estratégicos para o avanço dos direitos das mulheres no geral, além de outros 21 que aguardam votação na Câmara dos Deputados. Para citar apenas alguns: violência obstétrica, proteção a mães solo, estabilidade de gestantes e participação feminina na política. Pois bem…
Há algum canal de diálogo possível nessa bancada?
A proteção às mulheres é o mais óbvio. Segundo um levantamento daqui mesmo, d’AzMina, uma em cada quatro propostas apresentadas entre junho de 2025 e junho de 2026 para alterar a Lei Maria da Penha foi considerada desfavorável aos direitos das mulheres por organizações especializadas no enfrentamento à violência doméstica. A maior parte das mudanças propostas mira o que acontece depois da agressão: mais punição, monitoramento e restrições aos agressores. Apenas 5,6% tratam de prevenção e educação, justamente o que, de fato, pode agir antes que a violência aconteça.
A mulher sobre a qual progressistas e conservadoras conseguem conversar parece ser, sobretudo, aquela que pode estar vulnerável. Que precisa de alguma forma de proteção. Os caminhos só se distanciam quando esta mesma mulher reivindica autonomia. Seja pelo seu próprio corpo, pelo seu dinheiro, pela sua família ou que almeja poder.
Se o Senado está apontando para a direita, a representatividade feminina na Câmara contempla também a esquerda. Antes de continuarmos, uma breve comemoração: o recorde de mulheres eleitas também se repetiu. Foram 109 deputadas, superando as 91 de 2022 (tá, o número é baixo diante dos 51,5% de mulheres na população, mas, vamos lá: foram 18 mulheres a mais em uma eleição).
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Segundo um levantamento realizado pela Folha, das 109 deputadas, 47 são de esquerda, ou 43%. Dez são de centro e 52, de direita. Entre os 404 homens eleitos, apenas 19% são de esquerda e 62% são de direita. A bancada feminina progressista, além de maior, é ideologicamente diferente da bancada masculina.
O dado, no entanto, não é muito surpreendente. Quando faltam creches, escolas em tempo integral ou serviços para idosos e pessoas com deficiência, o cuidado não deixa de existir: ele volta para dentro de casa. E sobra para quem? Nós, mulheres. Afinal, ainda vivemos numa sociedade em que esse tipo de “cuidado” recai desproporcionalmente em nosso colo.
O mesmo vale para cortes em saúde, assistência social e políticas de enfrentamento à violência. Mulheres são maioria entre responsáveis por famílias monoparentais e estão mais expostas à informalidade e à sobrecarga do cuidado. Uma política pública pode desaparecer com uma canetada no Orçamento, mas a necessidade que ela atendia, não. Alguém continuará cuidando da criança, acompanhando o idoso, procurando atendimento ou tentando escapar de uma situação de violência. E esse alguém, na maior parte das vezes, é a mãe, a filha, a cunhada, a sogra. Mas quase sempre uma mulher.
Crescemos. Mas vamos sobreviver ali?
As mulheres chegam à política depois de atravessar uma peneira muito mais estreita. E, como sabemos, estar no poder tampouco significa necessariamente ter poder: mulheres eleitas continuam submetidas a violência, ameaças e estruturas de decisão construídas historicamente por homens.
Ser considerada enfeite ou apenas conveniente numa maneira de fazer política estruturalmente machista pode trazer desvantagens, como a necessidade constante de enfrentamento a violência política de gênero, mas também pode abrir caminho para outras práticas. Dificilmente, as parlamentares eleitas serão incluídas no Clube do Bolinha (ou Clube do Vorcaro) e terão que encontrar espaços para sobreviver para além dos que estão postos. Se unir em torno de projetos em comum pode ser mais do que um caminho para isso, mas uma necessidade.
É confortável demais, por exemplo,concluir que mulheres são menos corruptas, como se cromossomos viessem acompanhados de algum dispositivo ético de fábrica. Balela.
Mulheres podem participar dos mesmos esquemas, cometer os mesmos crimes e fazer péssima política. A diferença é que o acesso às mesas em que poder, negócios e favores não chegam até nós.
Precisamos agir para não deixar de sonhar
Representatividade não é um prêmio concedido às mais virtuosas. Homens nunca precisaram provar que eram moralmente superiores para ocupar quase 80% da Câmara. A igualdade começa quando mulheres também possam ocupar o poder em toda a sua variedade: brilhantes, medíocres, progressistas, conservadoras, feministas, antifeministas, honestas e, eventualmente, corruptas. Democracia, oras.
Políticas de inclusão, mobilidade social e acesso ao consumo fizeram com que grupos, antes acostumados a desejar pouco, começassem a imaginar outros futuros. A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado discute muito bem esse conceito no excelente “Brasil vai às urnas dividido entre quem realiza sonhos e quem se vê deixado para trás”. No texto ela defende que uma das maiores transformações brasileiras das últimas décadas foi a ampliação da nossa capacidade de sonhar.
Durante muito tempo, o horizonte para nós, mulheres, era simplesmente poder entrar: se candidatar, se eleger, assinar documentos. Aos poucos, esse horizonte também se alargou. Hoje, por exemplo, já não parece tão absurdo imaginar uma Câmara com mais mulheres, uma bancada feminina numerosa ou mulheres disputando os cargos mais poderosos do país.
O Congresso eleito neste ano mostra, ao mesmo tempo, o tamanho da conquista e a distância que ainda existe entre ocupar o poder e transformá-lo. Há mais mulheres nas cadeiras, sim, mas elas chegam carregando projetos de país, ideias sobre gênero e concepções de liberdade profundamente diferentes.
Representação não é, nem nunca foi linha de chegada. É o ponto que marca onde outras disputas começam: quais mulheres chegam, quais interesses representam e, principalmente, que possibilidades abrem para aquelas que ainda estão do lado de fora.
Não é exatamente o sonho que muita gente imaginou, mas sonhos, já havia avisado Freud, raramente chegam até nós em sua forma literal. Isso não é um convite para deixar de tê-los ou para aceitá-los como estão postos.
