
Quando a pensadora feminista Monique Wittig afirmou que “nós, lésbicas, não somos mulheres”, ela abriu um leque de interpretações possíveis. Talvez a mais importante delas seja a de que a categoria mulher não reconhecia as lesbianidades e as sapatonices enquanto possibilidades, pressupondo que ser mulher implicaria ser heterossexual. A partir disso, temos dois caminhos: ou nos fazemos caber na categoria e a alargamos, ou reivindicamos uma outra via.
Hoje eu escrevo para reivindicar esse outro caminho, para mim e para outras pessoas que, apesar dos trânsitos e das transições, ainda têm um andar sapatão, uma vida sapatão, um amor sapatão e uma luta sapatão. Ainda-e-adiante-sapatão!
Acho que é importante destacar, primeiro, que o reconhecimento de outras formas de experimentar e reivindicar as lesbianidades e sapatonices não implica o apagamento das mulheridades lésbicas e sapatonas. Existem mulheres lésbicas e sapatonas, mas existem, também, pessoas lésbicas e sapatonas que não se enxergam na categoria mulher, que se reconhecem fora da cisgeneridade. Estou falando especialmente de pessoas transmasculinas e não-binárias, mas também daquelas que entendem os termos sapatão, caminhoneira e outros como identidades de gênero específicas.
Me refiro às lesbianidades e sapatonices no plural por entender que há uma multiplicidade dos modos de experimentá-las, vivenciá-las e reivindicá-las. Essa escolha remonta à necessidade de assumir a heterogeneidade do ser-lésbica e do ser-sapatão de acordo com outros fatores e implicações, que vão desde os recortes raciais até as performances de gênero, contextos socioculturais, regionalismos, etc. A maneira de experienciar as lesbianidades e sapatonices não é uniforme nem fixa. Há uma diversidade de experiências corporificadas, coletivas e construídas culturalmente.
Sapatonas, lésbicas, butches e tortilleras
Os termos “lésbicas” e “sapatonas” funcionam como sinônimos em diferentes contextos, além de serem compreendidos como a mesma coisa pela população brasileira. Inclusive, o “sapatão” constantemente é usado como uma ofensa, mesmo que o termo tenha sido reapropriado por pessoas e coletividades ao longo dos anos. Aprendemos, historicamente, a transformar ofensas em orgulho.
Ainda que possamos fazer essa correlação, existem tensões nesse embaralhamento entre questões de sexualidade, identidade de gênero, racialidade e classe, que são todas importantes de serem endereçadas. Nesse contexto, “lésbica” seria apontado como um termo mais adequado às expectativas de uma cisheteronormatividade, mais branco, de classes mais altas, enquanto “sapatão” falaria tanto de uma experiência de gênero fora da mulheridade padrão quanto de experiências de sapatonas negras, periféricas, com outras expressões de gênero, de classes menos favorecidas.
O movimento organizado reconhece essas tensões e aproximações e tem trabalhado, de modo geral, com essa construção de “lésbicas e sapatãos/sapatonas”. Essa correlação entre os dois termos aparece nos resultados da 1ª etapa do LesboCenso: Mapeamento de Vivências Lésbicas no Brasil (2022), onde 51,36% das mais de 20 mil pessoas que participaram do questionário se autoidentificaram como lésbicas e 26,40% se auto identificaram como sapatonas (ou “enquanto sapatão”). As demais formas de autoidentificações — mulher gay, homossexual feminina, sapa e entendida, entre outras — tiveram números bem menos expressivos, não passando dos 3,5%.
Importante ressaltar que a identidade sapatão é muito específica do contexto brasileiro; outros lugares vão ter suas próprias identidades, como a butch, nos Estados Unidos, e as tortilleras ou areperas em alguns países da América Latina. Para além dos idiomas, especificidades e regionalismos, são muitas as maneiras de compreender as lesbianidades e sapatonices e, assim, perceber como as próprias identidades são circunstanciais, sujeitas a outras formulações, nomeações e interpretações.
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Ser sapatão sem ser mulher
Nesta coluna, quero esboçar algumas respostas para a pergunta: “Como sapatonices e lesbianidades têm sido experienciadas e elaboradas fora da categoria mulher?”. Não é uma pergunta fácil ou com respostas pacificadas, mas existem dados para nos ajudar. No Eixo Autoidentificação, o LesboCenso questionou de que forma as respondentes se identificavam e qual a sua identidade de gênero. Nas respostas, apresentam-se as sapatonas, as caminhoneiras, as bofes, zamis, entre outras. Em relação à identidade de gênero, a categoria mais autodeclarada foi a cisgênero (85,23%), seguida de não-binária (6,31%), agênero (1,17%) e pessoa trans (1,07%).
Todas essas pessoas, independentemente da identidade de gênero que reivindicam, se enxergam nas lesbianidades e sapatonices. Podemos apostar que outras tantas também se enxergam, mas são dissuadidas de se identificarem dessa forma porque definimos identidades, especialmente as de gênero e de sexualidade, como fronteiras e não como composições.
Reconhecer essas maneiras de viver as lesbianidades e sapatonices fora das mulheridades cisgêneras nos provoca a discutir como essas vivências desafiam a própria lógica identitária: existem corpos e sujeitos que recusam a rigidez do sistema sexo-gênero colonial e reivindicam novas territorialidades.
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Se não for pra mudar o que é velho, é para quê?
Nossas identidades não podem ser normalizadoras e coercitivas como as categorias que queremos destruir. Buscar uma lésbica ou uma sapatão ideal e, com isso, descartar as experiências de pessoas que vivem fora da mulheridade cis e defender práticas transexcludentes é fomentar um mundo cada vez mais violento com todas as dissidências. O Combahee River, um importante coletivo de lésbicas negras dos anos 70, nos Estados Unidos, afirma: “como mulheres negras, consideramos qualquer tipo de determinismo biológico uma base particularmente perigosa e reacionária sobre a qual construir uma política”.
Pessoas transmasculinas e não-binárias historicamente fizeram parte dos movimentos lésbicos e sapatões, estivessem essas pessoas nomeadas como tais ou não. Reconhecer a presença de pessoas como nós, seja no passado, no presente ou na construção de um futuro comum é fundamental, porque queremos todas as lesbianidades e sapatonices reconhecidas, vivas e valorizadas. Como afirma o artista Mugra Itakaru, “minha transmasculinidade é sapatão y é isso. pra mim, sem antagonismos. me agonia a narrativa que me impele a (me) matar pra (me) viver”.
As lesbianidades e sapatonices têm sido experienciadas e elaboradas fora da categoria mulher como políticas do não abandono, como formas de seguir em frente coletivamente e sonhar outras formas de estar no mundo. Para ser uma pessoa transmasculina ou não-binária, eu não preciso abandonar a lésbica ou a sapatão que um dia eu lutei para ser. Isso porque a realidade se demonstra da forma como escreve Formigão: “solidariedade é a base afinal kuando nos matam não perguntam pra noiz se é kaminhoneira boyceta ou NB é tudo misoginia então sim também feminismo é importante pra noiz”.
E a nossa resposta a tudo isso é criar e reforçar os laços e as alianças que nos permitam romper com a lógica de violência que nos rodeia. Expandir essas noções sobre as lesbianidades e sapatonices é fundamental no contexto de violência contra dissidências, especialmente se partirmos de uma provocação feita pelo filósofo Paco Vidarte: “e se ser bicha não serve para mudar isso que é tão velho, para que serviria?” Eu pergunto a vocês: afinal, no mundo em que vivemos hoje, se ser lésbica e/ou sapatão não serve para mudar isso que é tão velho, para que serviria?
*Arte: Giulia Santos
**Texto revisado com uso de IA
