
Você está vendo o horário eleitoral e percebe uma coisa: a extrema direita está muito mais feminina. Que bom? Não sei.
Passamos anos cobrando mais mulheres na política, e com razão. Principalmente porque, até hoje, o Congresso continua sendo desproporcionalmente masculino. São 107 mulheres para 487 homens, somando as duas casas legislativas. Essas candidaturas femininas, da extrema-direita, no entanto, não são bem a representatividade que reivindicamos em nossa luta.
Em uma das propagandas eleitorais, Eduarda Campopiano, candidata a Deputada Estadual do PL (SP), se apresenta como “a maior inimiga das feministas”. Vivi Tobias, também candidata a Deputada Estadual do PL (MS), se descreve como “Pró-vida e Antifeminista”. Sophia Barclay, uma mulher trans candidata a Deputada Federal pelo mesmo partido e também por São Paulo, reivindica a identidade de “trans de direita” e promete combater a chamada “agenda woke” — termo em inglês que significa “estar desperto” e tem sido usado de forma pejorativa para se referir a políticas para inclusão de pessoas negras, mulheres e LGBTQIAPN+..
Eu não consigo deixar de achar, no mínimo, incômodo uma mulher subir em um palanque para anunciar que sua grande credencial política é ser inimiga das feministas, enquanto exerce um direito conquistado justamente pela luta feminista. Se hoje ela tem o direito de se candidatar, apresentar suas propostas políticas, ou sequer de votar, é porque mulheres antes dela se organizaram politicamente para reivindicar esse espaço para todas.
E vale até voltar um pouquinho nessa história.
TANTA LUTA PRA AINDA QUESTIONAREM NOSSOS DIREITOS
Na Constituinte de 1891, propostas para reconhecer o voto feminino foram rejeitadas. Décadas depois, quando o direito começou a parecer possível, ainda se discutia quais mulheres estariam “aptas” a votar. Em 1931, chegou a ser proposta uma regra que permitiria o voto de algumas mulheres solteiras que tivessem renda própria, e o de mulheres casadas que trabalhassem (com autorização do marido, claro). A pressão das sufragistas ajudou a derrubar essas restrições antes da aprovação do Código Eleitoral de 1932.
E mesmo assim, isso não significou que a gente participaria de igual pra igual com os homens no sistema eleitoral. O voto feminino foi reconhecido nacionalmente, mas apenas em 1946 passou a ser obrigatório também para as mulheres. Antes disso, o voto só era obrigatório para mulheres que trabalhavam no serviço público. Para as demais mulheres maiores de 18 anos e alfabetizadas, o voto ainda era facultativo. A equiparação completa só veio em 1965.
Depois vieram tantas outras batalhas para que não fôssemos apenas eleitoras, mas também candidatas, parlamentares, ministras, presidenta.
Hoje somos 83,9 milhões de eleitoras, 52,84% de quem pode votar no Brasil. Mais da metade. E mesmo assim, entre as candidaturas das eleições deste ano, as mulheres são aproximadamente 35%. Quando olhamos para as cadeiras ocupadas atualmente no Congresso Nacional, somos ainda menores: cerca de 18%. E ainda precisamos de uma Lei específica para conseguir atuar nesses espaços, já que aviolência política de gênero foi reconhecida como crime há apenas cinco anos.
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Quando eu vejo mulheres se apropriando deste lugar, que custou muito a outras para ser conquistado, para atacar nossos direitos, dá até vontade de perguntar: se a ideia é combater tanto assim o feminismo, por que não fica em casa lavando a louça?
Mas essa seria uma pergunta ruim
Primeiro, porque eu estaria usando exatamente a lógica de que existe um lugar adequado para uma mulher e que, quando ela pensa diferente, podemos mandá-la de volta para de onde ela veio.
E segundo porque, por mais desconfortável que isso pareça, gostando ou não, mulheres conservadoras existem. Mulheres que consideram o feminismo seu inimigo, também. Assim como existem pessoas trans de direita. Faz parte do processo democrático.
REPRESENTATIVIDADE PRA QUEM?
Passamos tanto tempo falando sobre representatividade que, em algum momento, começamos a tratar “mais mulheres” quase como sinônimo de “mais direitos para mulheres”, mas não é. E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais esquisitas (para não dizer, indigestas) da campanha das Eleições 2026.
De um lado, mulheres ganham espaço no horário eleitoral para dizer que são inimigas das feministas, combater pautas de gênero e defender projetos conservadores. Do outro, são também mulheres que aparecem ao lado de candidatos homens para dizer ao eleitorado feminino: olha como ele é bonzinho… Ele tem esposa, filhas e praticamente trata mulher que nem gente…
Soa como ótima a estratégia de colocar a voz de mulheres para legitimar ideias que, ditas por homens, encontrariam muito mais resistência entre elas.
Flávio Bolsonaro (PL) é um exemplo disso. Depois de declarações como a de que teve filhas mulheres para cuidarem dele na velhice e das polêmicas com sua madrasta, Michele Bolsonaro (PL), sua propaganda eleitoral passou a destacar sua mãe, esposa e filhas. Em um dos vídeos, o candidato diz até que, em casa, “quem manda são elas”.
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Seu candidato a vice, no entanto, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) foi alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sob acusação de suposto estupro de vulnerável. Em junho deste ano, Michelle Bolsonaro, então presidente nacional do PL Mulher, publicou quase meia hora de vídeo para dizer que havia sido desrespeitada e maltratada pelo próprio Flávio e que ele chegou a sugerir que ela ficasse fora das decisões do partido.
Mais recentemente, Vanessa Silva, candidata a deputada federal pelo PL conhecida como “Negona do Bolsonaro”, afirmou ter sido barrada na sede da legenda no Rio de Janeiro. Em vídeo, disse que cinco seguranças formaram uma barreira para impedi-la de entrar e que foi tratada “como um bolo de merda”.
QUAL A VIDA ÚTIL DA CARREIRA POLÍTICA DESSAS MULHERES?
Partidos como o PL, marcados pela figura de Jair Bolsonaro e por anos de declarações ofensivas e misóginas , agora tentam correr atrás do prejuízo para se aproximar justamente do eleitorado feminino, que representa mais da metade dos votos . E eles sabem que para chegar até elas, é preciso colocar mulheres falando.
Mas o que acontece depois? O próprio PL tem alguns exemplos.
Joice Hasselmann chegou ao Congresso em 2018 com mais de 1 milhão de votos, tornando-se, à época, a mulher mais votada da história da Câmara. Ganhou espaço no bolsonarismo, virou líder do governo no Congresso, mas, em 2019, quando se recusou a apoiar uma articulação para colocar Eduardo Bolsonaro na liderança do PSL (atual PL) na Câmara, foi retirada por Bolsonaro da liderança do governo no Congresso.
Ao contrário de seus aliados, foi transformada em alvo da violência política de gênero e tratada como chacota. Não se reelegeu deputada em 2022, nem conquistou a vereança em São Paulo em 2024. Agora está fora da política, apesar de toda projeção que ganhou naquele período.
Senadora pelo Mato Grosso do Sul, Soraya Thronicke, também foi eleita em 2018 na esteira bolsonarista. Chegou a ocupar a vice-liderança do governo Bolsonaro no Congresso. Mas bateu de frente com o bolsonarismo por causa da condução da pandemia da Covid-19.
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Enquanto o governo insistia no chamado “tratamento precoce” e atacava medidas de enfrentamento à pandemia, ela não encontrou espaço no partido para defender a vacinação e o isolamento social. A parlamentar chegou a relatar que passou a ser atacada por bolsonaristas e chamada até de “comunista”. Oito anos depois, é candidata a senadora pelo PSB e disputa a reeleição em uma aliança com o PT, com apoio de Lula.
Claro que Joice e Soraya têm trajetórias diferentes, e romper com um partido ou mudar de posição política faz parte da democracia. Mas as duas histórias deixam uma pergunta: o que acontece com as mulheres quando elas deixam de ser úteis ao projeto que ajudaram a eleger?
Mulheres podem ser excelentes puxadoras de votos. Podem humanizar candidatos homens. Podem funcionar como uma espécie de selo de aprovação: “olha, tem mulher aqui, então esse projeto também é para você”. Podem até servir de escudo contra acusações de misoginia ou de falta de diversidade.
Mas presença não é poder.
E a representação também não é simplesmente colocar uma mulher diante da câmera.
A extrema direita pode colocar mulheres na linha de frente e, ao mesmo tempo, usar justamente essas vozes para legitimar ideias antigênero. Pode combater o feminismo por meio de quem um dia se reivindicou feminista e hoje se apresenta como uma de suas inimigas (Sara Winter que o diga). Pode atacar direitos de pessoas LGBTQIAPN+ tendo uma mulher trans como porta-voz. Pode usar mulheres para convencer outras mulheres a votar em projetos que não necessariamente defendem seus direitos.
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A imagem muda para conquistar o eleitorado. O projeto político não necessariamente.
E antes que pareça que eu estou dizendo que, do outro lado, os partidos progressistas são um grande exemplo de igualdade de gênero: não estou. Falo especialmente sobre o PL nesta coluna porque é nele que essa estratégia me parece mais escancarada nesta eleição e porque estamos falando de um partido que, em poucos anos, deixou de ser nanico, para ser um partido que mais elegeu deputados federais em 2022. Foram 99, a maior bancada da Câmara.
Então, se tem um lugar onde vale olhar de perto para o que significa colocar mulheres na linha de frente, é ali.
O ponto aqui é olhar para o que acontece quando a presença de mulheres vira parte da estratégia de um projeto político sem que isso signifique, necessariamente, mais poder ou mais direitos para elas.
Então, novamente: talvez a pergunta desta eleição não seja apenas quantas mulheres estão aparecendo no horário eleitoral. É preciso perguntar para que elas estão ali, quais ideias estão ajudando a legitimar e quanto poder elas realmente têm quando as câmeras se desligam.
