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Dia dos Namorados também é dia de romper o ciclo da violência

A data é lembrada por flores e chocolates enquanto milhares de mulheres seguem sofrendo abusos

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colagem digital uma mulher com expressão assustada presa em uma teia de aran. Uma sombra sobre ela simboliza o ciclo da violência

No Brasil, o dia 12 de junho celebra o Dia dos Namorados. Nesta data é comum nos depararmos com flores, chocolates e diversas declarações de amor. Se o símbolo de afeto é demonstrado com beijos e abraços, o de socorro pode vir de outra maneira. 

Recentemente, uma cena de novela causou repercussão pelo gesto simples de abrir a palma de uma das mãos e esconder o polegar com os outros dedos. Na trama, a personagem sofre uma relação abusiva. A exposição em uma rede de televisão levou à busca pelo significado do símbolo e fez com que muitas pessoas tomassem conhecimento da importância de uma atitude que pode salvar vidas. 

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Feminismo bem informado

O gesto foi criado em 2020, no Canadá, por uma ONG de proteção às mulheres e ficou famoso em 2021, quando foi feito por uma vítima, acompanhada de seu agressor, em um centro médico de Barcelona. Em uma tradução livre ele significa ‘Sinal por Ajuda’, e foi o estopim para uma investigação que levou o suspeito para a prisão. 

Aqui no Brasil, 3 em cada 10 mulheres afirmam já ter sido vítimas de violência doméstica, segundo dados da 10ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, produzida pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV).

Dados da plataforma ‘Evidências sobre Violências e Alternativas para Mulheres e Meninas’ (EVA), uma realização do Instituto Igarapé, também nos ajudam a compreender essa realidade. Em 2023, mais de 46% dos agressores eram os companheiros e ex-companheiros, dentre as diversas formas de violências não letais sofridas por mulheres, como a física, sexual, psicológica e patrimonial. 

Leia mais: Dia dos Namorados e a solidão da mulher preta

Companheiros predominam em pesquisas

Pesquisas de vitimização mostram que a participação dos companheiros, atuais e antigos, como perpetradores da violência contra a mulher pode ser ainda mais expressiva. Entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, eles também foram 66,8% dos agressores em casos de violência contra a mulher, conforme o levantamento ‘Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil’, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha. 

Não por acaso, somente em 2023, os tribunais de justiça brasileiros concederam 540.255 medidas protetivas a mulheres vítimas de violência doméstica. E o número 190, que é o canal da Polícia Militar utilizado para emergências, recebeu 848.036 chamadas por violência doméstica. 

Maridos, namorados, companheiros ou ex-companheiros são os principais agressores de mulheres, não somente no Brasil, mas ao redor do mundo. Segundo a ONU Mulheres e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em 2023, 85 mil mulheres e meninas foram assassinadas e 60% desses homicídios foram cometidos por um parceiro íntimo ou parentes próximos. No Brasil, no mesmo ano, 1.467 mulheres foram vítimas de feminicídio. Companheiros e ex-companheiros foram responsáveis por 84,2% das mortes. 

A eficácia das políticas públicas e intervenções

Buscando formas eficazes de prevenir a violência contra as mulheres, em 2024, o Instituto Igarapé analisou 99 políticas, intervenções e iniciativas desenvolvidas por organizações ao redor do mundo e selecionou, em um guia prático, as principais abordagens que tiveram elevado grau de eficácia e eficiência na prevenção da violência.

De acordo com o estudo, os programas e iniciativas que se apresentaram como mais eficazes envolviam a promoção da autonomia financeira, prevenção da violência no ambiente familiar – entendendo que ela pode contribuir para a normalização de comportamentos violentos – mudanças nas normas sociais de gênero e redução de fatores de risco, como uso abusivo de substâncias ilícitas e álcool, além de medidas de restrição à circulação de armas.

As políticas voltadas à promoção da autonomia financeira das mulheres reconhecem que mulheres financeiramente independentes têm menor probabilidade de entrar ou permanecer em relações abusivas. 

No Brasil, este tipo de iniciativa é especialmente importante, tendo em vista que as violências patrimoniais – aquelas em que os recursos econômicos são retirados – foram as formas de violência não letais contra mulheres que mais cresceram nos últimos anos, com um aumento de 35% entre 2022 e 2023, segundo dados da plataforma EVA, do Instituto Igarapé.

Leia mais: Cada passo importa: mulheres contam como romperam com relacionamentos violentos

Projeto aumentou empregabilidade na Libéria

Dentre os programas analisados pelo Instituto Igarapé com maior grau de eficácia para prevenir a violência contra as mulheres, podemos destacar a iniciativa EPAG – Empowerment of Adolescent Girls and Young Women. O projeto foi lançado em 2010 pelo Ministério de Gênero e Desenvolvimento da Libéria, com a colaboração de organizações e os governos da Austrália, Reino Unido, Noruega, Dinamarca e Suécia, com o propósito de impulsionar o emprego e geração de renda de jovens liberianas, oferecendo treinamento e facilitação em uma inserção bem-sucedida das participantes no mercado de trabalho.

Os resultados do programa indicaram aumento na empregabilidade, acesso a recursos financeiros e autoconfiança das participantes. Tudo isso potencializou investimentos e pesquisas em outros programas de subsistência para jovens mulheres na Libéria e serviu como modelo para iniciativas semelhantes em outros países, como Ruanda, Sudão do Sul, Nepal, Afeganistão, Haiti, Jordânia e Laos.

Medidas assim reforçam que reduzir a vitimização de mulheres e meninas deve ser um dever de toda a sociedade. E, para isso, é preciso o envolvimento de todos os setores – o governo, a sociedade civil, o setor privado e a comunidade. Somente com esforços conjuntos, coordenados e de longo prazo é que será possível criar um ambiente onde as mulheres possam viver livres de violência. 

Não há dúvidas, o gesto importa. E, por isso, neste Dia dos Namorados, temos que ir muito além das declarações de amor, flores ou chocolates. Precisamos exigir o cumprimento da igualdade estabelecida em lei e promover políticas públicas que permitam às mulheres gozar de uma vida com segurança, respeito e dignidade. 

Em tempo, é sempre importante reforçar: se te machuca, não é amor. Procure ajuda.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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