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mulher negra, batom vermelho, cabelos presos
21 de março de 2024

Carta aberta às mulheres negras do BBB

Entre o racismo e a régua moral desigual da sociedade e seus realities

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carta aberta a mulheres negras do bbb
Arte: Giulia Santos

Queridas,

Neste Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, quero expressar minha solidariedade diante dos desafios que vocês – pessoas pretas – têm enfrentado no Big Brother Brasil. Em 1966, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 21 de março em memória das vítimas do Massacre de Sharpeville, ocorrido no ano de 1960 em Joanesburgo, na África do Sul. Essa data não nos deixa esquecer dos horrores no período do Apartheid e da urgente necessidade de combater todas as formas de racismo e intolerância. 

E o BBB, infelizmente, tem sido palco para a exposição dos padrões discriminatórios enraizados em nossa sociedade. No reality televisionado, vocês são confrontadas com essa realidade que permeia nosso cotidiano, e que, sem piedade e nem massagem, nos consome.

Enquanto mulheres brancas como Yasmin Brunet e Wanessa Camargo podem expressar opiniões e ter atitudes problemáticas sem enfrentar maiores consequências, vocês são alvo de muitos ataques por qualquer deslize, comentário ou atitude, mesmo que não infrinjam nenhuma regra do jogo. 

A família da Leidy, por exemplo, após o desentendimento da sister com outro participante, precisou acionar a justiça diante da intensificação de ataques racistas. Pitel, por sua vez, foi alvo de comentários racistas por uma simples pergunta sobre Bruna Marquezine — disseram que ela “está se esforçando muito para ganhar papel de mucama numa novela de época”. Raquele também recebeu ataques, devido ao seu antigo trabalho na lavoura de café – remetendo à exploração desumana vivida por nossos ancestrais durante séculos

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A discordância racista

Isso nos remete à canção “Sonho Juvenil”, interpretada por Jovelina Pérola Negra na década de 80. A música ecoa em minha mente enquanto as observo no programa. Naquela época, Jovelina clamava por ascensão social, denunciando a segregação urbana e as disparidades de oportunidades. Hoje, vocês ecoam esse mesmo protesto, desafiando os estereótipos de gênero e a submissão imposta às mulheres negras em contextos de pobreza.

Estar exposta ao julgamento do público demanda enorme coragem, especialmente em um país que insiste em invisibilizar nossa existência. Cada jogada, estratégia, palavra dita ou gesto, é analisada e julgada com um rigor desproporcional. O mais incrível é que vocês não se intimidam. Mas, infelizmente, preciso dizer que o Brasil não aceita discordar do jogo de vocês sem ser racista

A crítica não se resume à qualidade do jogo de cada participante. O ponto crucial é a disparidade de tratamento: a punição excessiva direcionada às pessoas negras, especialmente mulheres, por qualquer erro; enquanto outras são perdoadas com mais facilidade. O BBB, como espelho da sociedade, sempre expõe essa crueldade e nos convida a uma reflexão.

Foi assim em edições anteriores. Em 2020, a médica Thelma Assis foi campeã do BBB, mas, após o programa, foi alvo de ataques racistas nas redes sociais. Em 2021, a cantora Karol Conká foi eliminada do mesmo reality show com recorde de rejeição, após críticas por seu comportamento. O julgamento do público extrapolou o jogo, resultando em ameaças ao seu filho, ataques nas ruas e o encerramento de contratos profissionais. 

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Não podemos errar

Nesta semana eu assisti ao vídeo da cantora Maria Bomani, mulher negra expulsa do BBB 22, comparando sua situação com a da cantora Wanessa Camargo, que sofreu a mesma punição neste BBB 24. Ela expressou sua frustração nas redes sociais, destacando o tratamento diferenciado que recebeu da Globo em comparação com Wanessa. Eu concordo com ela, o racismo estrutural não nos dá a oportunidade de errar duas vezes

Maria argumentou que, mesmo após pedir desculpas repetidamente por seu comportamento, ainda enfrentou consequências significativas, enquanto Wanessa teve a oportunidade de se pronunciar em programas como o Fantástico.

“Esse vídeo não é para atacar a Wanessa Camargo e dizer se ela está certa ou errada. É sobre racismo estrutural e o tratamento a pessoas brancas e pessoas negras diante de seus erros. Vejam como saiu Rachel Sheherazade, Wanessa Camargo, Deolane Bezerra. Vejam como eu saí, como saiu Karol Conká e como vai sair a Leidy Elin. É só isso”, disse Maria no vídeo divulgado em seu Instagram.

Trago dados que reforçam essa realidade: 86% de mulheres negras já sofreram racismo no mercado de trabalho; e mais de 90% delas tiveram a saúde mental afetada por essa discriminação. Esse é o contexto que encontrarão ao sair do BBB. O programa, para vocês, é um trabalho. Seja por convite ou processo seletivo. 

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O papel da mídia e das redes

O público mostrou que sabia bem disso quando optou por derrubar a conta de Leidy no Instagram, principalmente por saber que as redes sociais são potenciais fontes de dinheiro para quem passou uma vida no anonimato, e agora é participante de um dos maiores programas televisivos da América Latina. Ataques como esses são de pessoas que sabem como e onde prejudicar mulheres negras e suas famílias. 

Exatamente por isso é crucial destacar o papel da mídia e das redes na perpetuação dessas desigualdades. Enquanto algumas participantes recebem apoio e admiração, outras são alvo de ataques cruéis e difamatórios. O poder das plataformas digitais para amplificar vozes e disseminar mensagens de ódio não deve ser subestimado. É necessário refletir sobre o que tem sido feito e o que pode ser feito para proteger e apoiar mulheres negras dentro e fora desses espaços

Sabemos que também podemos usar essas mesmas ferramentas para promover ações contrárias aos ataques. Portanto, desejo que esta carta seja um lembrete de solidariedade e apoio mútuo.

Com amor e sororidade,

Uma mulher negra que acompanha vocês.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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