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A branquitude ultrapassada do jornalismo esportivo no Brasil

por Amanda Célio
27 de novembro de 2019
O jornalismo esportivo brasileiro descobriu em outubro de 2019 que não há negros nas redações esportivas e que precisamos ouvi-los. Devemos aplaudir?
jornalismo
O narrador Júlio Oliveira fala sobre racismo no programa Redação SporTV (Foto: reprodução Youtube)

“Num país como o Brasil, nós temos uma imprensa que, quando lhe convém, declara-se contra o racismo”, escreveu a repórter Yasmin Santos na reportagem “Letra Preta”, publicada na edição de outubro da revista Piauí. Nela, a jornalista discorre sobre a experiência de ser uma das poucas repórteres negras da revista, analisa como a imprensa brasileira continua sendo racista e as redações majoritariamente “brancas”. 

Na semana em que se comemorou o Dia da Consciência Negra, a editora da Revista AzMina, Thais Folego, também escreveu na coluna ‘Vozes’, que às mulheres brancas “não basta reconhecer o racismo, é necessário ser aliada da luta antirracista reconhecendo seus privilégios e respeitando as vozes negras.” 

Inspiradas por essas duas jornalistas, escrevo essa coluna sobre um assunto que me incomoda muito enquanto jornalista esportiva, feminista e branca: a branquitude no jornalismo esportivo brasileiro. As redações brasileiras são brancas. Se você fechar os olhos e pensar em quantos repórteres, comentaristas e apresentadores esportivos negros assistimos diariamente na tela da TV, você vai conseguir se lembrar de ao menos dois ou três, não mais do que isso: Abel Neto, hoje na Fox Sports, e Karine Alves, também da Fox Sports, são alguns deles. 

No dia 12 de outubro, quando o técnico do Bahia, Roger Machado, e Marcão, do Fluminense – dois únicos técnicos negros da série A do Campeonato Brasileiro -, entraram em campo para denunciar o racismo no futebol, usando as camisetas do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, a mídia enalteceu a ação e também a catártica entrevista de Roger na coletiva de imprensa pós-jogo. 

Na primeira pergunta, Roger disse: “Não deveria chamar atenção e ter uma repercussão grande dois treinadores negros estarem se enfrentando na área técnica depois de ter tido uma passagem como protagonistas dentro do campo, mas pra mim isso é a prova de que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção.” Na mesma entrevista, Roger também questionou: “Quantas mulheres negras têm comentando esporte no Brasil?”. 

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O questionamento do técnico do Bahia deveria ser ensurdecedor nas redações esportivas, tanto nas reuniões de pauta quanto nas reuniões com a chefia. Porém o esforço para haver diversidade, que deveria vir de nós, vem, quase sempre, dos poucos repórteres negros.

Também em outubro, após novos episódios envolvendo racismo no futebol virem a tona, o narrador Júlio Oliveira foi convidado pela primeira vez para participar do Redação SporTV para falar sobre os casos e questionou: “a gente trata de um segmento, que é o esporte, que a essência é negra. No futebol o grande é o negro, no basquete os maiores da história, negros, no tênis, no futebol feminino, negras. Nós acabamos de ter um negro em outro esporte de elite, hexacampeão mundial no automobilismo. Só que pra discutir esportes são brancos, num país em que 54% da população é negra ou parda. O que tá errado?”. 

A fala, que viralizou nas redes sociais, fez a SporTV abrir uma série de diálogos com a participação do narrador e de outros repórteres negros do Grupo Globo. Para se ter uma ideia da baixa representatividade nas redações esportivas, de 40 repórteres de esporte do Grupo, apenas dois são negros: Diego Moraes e Débora Gares. 

Mostrando a falta de afinidade com as questões raciais e evidenciando o quanto falar sobre racismo em redações esportivas e fazer autocrítica na área é quase uma novidade, o apresentador Marcelo Barreto, anunciou a “iniciativa” da série assim: “Nós ontem abrimos aqui uma série de diálogos com a participação do Júlio Oliveira. Nós tivemos, infelizmente, no último fim de semana, mais episódios de racismo no futebol brasileiro e o Júlio fez uma contestação muito pertinente da presença dos negros nas redações, nas bancadas, como essa bancada aqui do Sportv, que a gente decidiu, então, abrir pra ouvir a voz deles”. 

A abertura não podia ser mais desastrosa e foi a personificação da branquitude em rede nacional, assumindo que existe racismo no jornalismo esportivo. Ora, precisam-se de episódios envolvendo racismo no esporte, e, só diante disso, convidar negros para falar sobre racismo, que, aproveitam para explanar que historicamente as redações são brancas, para que assim percebam que não há diversidade na área e, daí, chegar a conclusão e ter a brilhante ideia de se abrir para “ouvir a voz deles”? “A voz deles”?

Sim, o jornalismo esportivo brasileiro descobriu em outubro de 2019 que não há negros nas redações esportivas e que agora precisamos ouvir a voz deles. Devemos aplaudir?  

É claro que precisamos e muito ouvir “a voz deles”. Mas já tínhamos que ter ouvido há muito. Tanto que a jornalista esportiva e única repórter esportiva negra da emissora, Debora Garaes, que participava da mesa neste mesmo dia, questionou: “ainda é muito pouco, ainda é muito longe e ainda não chegamos nos cargos hierarquicamente mais altos não. Nas chefias não vemos negros”. Diego Moraes, o outro repórter negro convidado no debate, pontuou: “representar não é só o negro falar sobre racismo. Representar é o negro falar sobre qualquer assunto”. 

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O colunista da Voz das Comunidades, Rick Trindade, disse no Twitter algo que se emoldurado cairia bem como quadro em todas as paredes das redações: “A branquitude precisa sim discutir racismo, é uma ‘criação’ deles. Não tem essa de que a pessoa por ser branca pode não querer falar sobre. Chega de achar que racismo é coisa que só preto precisa falar e combater.”

A falta de debate sobre representatividade e raça no jornalismo esportivo, em comparação a outras áreas do jornalismo, também tem suas raízes fincadas no processo de formação de novos jornalistas, onde o debate sobre raça e gênero é inexistente. 

Na pós-graduação em jornalismo esportivo que faço numa universidade pública nunca se falou sobre diversidade nas redações, racismo, preconceito e machismo. Prestes a completar um ano na pós, ainda não tive nenhum professor negro e nenhuma professora mulher. Por vezes essa invisibilidade foi questionada ao coordenador, que se limitou a responder: “já tivemos uma professora no semestre passado”.

Se nesses espaços de troca, aprendizado e formação já não existem debates de raça e gênero, o resultado é aquele que a gente vê na TV: homens brancos, de meia idade, replicando frases feitas e muitas vezes sem fundamento teórico, recheada de achismos, chavões e clichês. 

Para fechar essa coluna, voltemos à reportagem “Letra Preta”, de Yasmin Santos, que cita o livro “Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil”, de Cristiane Costa, que traz uma pertinente reflexão para a branquitude e os chefes de esporte: “Quem tem melhores condições para contar a história: quem a vê a partir de um ângulo privilegiado ou quem a vive na própria pele marcada por tortura, marginalidade, engajamento, patrulhismo ou cooptação? O que acontece quando o mesmo personagem ocupa as duas posições?”

Yasmin continua: “Os poucos negros que compõem as fileiras do jornalismo brasileiro somem em meio ao conjunto do noticiário, que permanece embranquecido. Responder às críticas ao racismo midiático com ‘esse ou aquele negro’ ou ‘essa ou aquela cobertura’ é insuficiente e exime o jornalismo de sua responsabilidade. Esses poucos profissionais incorporados às redações são usados como uma espécie de escudo ao racismo ou, mais recentemente, como totem de diversidade. É uma estratégia que inviabiliza qualquer proposta de mudança estrutural dos estereótipos impingidos à população negra, como defende o professor Muniz Sodré”. E fecha aspas. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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