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20 de julho de 2018

A amizade entre mulheres: ser amigas, irmãs

"Como construir entre nós cotidianamente? Quantos preconceitos vamos desandando durante nossa vida para nos dar conta de quanto nos gostamos e potencializamos? Feliz dia, amigas, bruxas e loucas".

por Redacción Marcha Notícias (Argentina)/ tradução: Bruna Odara

Imagem: Nadia Sur (Marcha)

 

É 20 de julho e nós mulheres tomamos nosso lugar: festejamos a amizade entre nós mesmas e refletimos… Como construir entre nós cotidianamente? Quantos preconceitos vamos desandando durante nossa vida para nos dar conta de quanto nos gostamos e potencializamos? Feliz dia, amigas, bruxas e loucas.

Na Argentina, Brasil, Uruguai, o dia da amizade se celebra em ocasião de comemorar a colonial data da chegada americana à lua, o dia 20 de julho de 1969. Mas não para por aí já que “o dia do amigo” não é só imposição e adoção do capitalismo em celebrações estrangeiras, mas também, como toda tradição, está tomada de patriarcado e invisibilização da história.

Basta dar um google “amizade entre mulheres” pra que uma mídia hegemônica diga que “não existe”. Façam o teste, não é invenção das “feminazis”, mas sim reprodução e estereótipos machistas, violência simbólica. É por isso que, destas breves linhas saem algumas reflexões sobre a amizade entre mulheres, esse fio de vida cotidiano que nos nutre e nos permite lutar incansáveis até que todas sejamos livres.

A rivalidade predestinada

Nos ensinaram que a amizade entre mulheres existe e que não existe entre homens e mulheres. Mas que a amizade entre mulheres existe até que haja um homem no meio. Sempre essa ideia heterosexista e patriarcal. A rivalidade entre mulheres, a competição, é uma estrutura cultural característica do patriarcado. Não é natural a competição entre nós mulheres por um homem, por quem é mais bonita, ou magra — todos os padrões de beleza que o patriarcado e o capitalismo nos impuseram.

Quem nunca? Pensemos em voz alta… Há alguns anos pude passar por esse  processo em uma experiência muito difícil: uma companheira e eu estávamos com o mesmo pegue-te/crush, que mentia a nós duas e falava mal de uma para a outra. Foi difícil pra gente, mas rompemos esse silêncio, essa parede que haviam criado entre a gente e que nós alimentamos com medo de nos aproximar uma da outra. Pudemos olhar olho no olho, falar, saber o que se passava com a outra, e passado um tempo, muita água rolou, e hoje somos grandes amigas.

Isso já aconteceu com qualquer uma de nós ou com alguma amiga muito próxima…. E estes processos fizeram a gente se dar conta de que nós, quando rompemos essas cadeias que nos impõem – não só para as relações  machistas com homens mas também entre nós mesmas – aprendemos, nos empoderamos e somos muito mais felizes.

De mãos dadas à infância

E onde começa tudo? Voltemos um pouco atrás, a nossos primeiros anos, esses que nos marcam a fogo as identidades e os olhares que nós geramos sobre o mundo que nos rodeia.

Com qual informação contamos sobre como nós mulheres nos relacionamos? Se repassamos brevemente os contos tradicionais, encontramos aí mulheres que não podem conviver em harmonia: as madrastas (esses seres que logo vemos onipresentes na vida cotidiana – quantas filhas e filhos alheios ajudamos a cuidar?–) odeiam as suas enteadas por serem “belas”, as irmãs são rivais e as excluem, as mães são a imagem que restringem as possibilidades de suas filhas, as bruxas usam seus poderes para fazer o mal (onde ficam as queridas curandeiras, erveiras, parteiras?)…. Ufa! É difícil encontrar nos contos e filmes mulheres companheiras, solidárias e que ajudam e constroem de mãos dadas.

E se permanecemos um pouquinho mais na infância, e pensamos nos jogos e brincadeiras a que temos acesso, nos damos conta de que isso de nos desenvolvermos individualmente nos é incentivado muito mais do que aos homens: enquanto que aos garotos se oferece uma bola desde os primeiros anos, e desfrutam e compartilham um jogo coletivo, em que juntos chegam a um objetivo, e correm, e ocupam o espaço público; às garotas se apresentam as bonecas, as pequenas cozinhas, pra que estejam organizadas e limpas, e cuidem de seus futuros bebês.

Assim e tudo, aos trancos e barrancos, nós vamos nos encontramos, nos reconhecendo, soltando travas para saber que somos bruxas (das boas e das más), loucas, livres e que estaremos prontas pra atender um chamado de uma amiga diante de um medo noturno, que sairemos correndo se alguém prejudicou à outra de alguma maneira, que cuidaremos de nossos filhos e filhas entre todas, que aconselharemos até que saia o sol (mesmo que não nos façam caso). Imagina o que aconteceria se a sociedade potencializasse um grupo de meninas desde pequenas? Talvez isso, justamente, seja o que assusta.

Romper a incômoda educação

E é aí, educadas sob imposições de um sistema patriarcal, onde nos ensinaram que nós mulheres somos invejosas e más amigas, onde nos taxam de “machinhas” por ter poucas amigas mulheres e por nos relacionarmos na maioria dos casos com homens. Até que sutilmente, alguém, uma, apenas recém conhecida mas grande companheira desde o primeiro minuto, sabe nos mostrar o caminho da amizade que nos une à nós, mulheres.

São essas que nos precedem, que nos abrem novas portas, que nos acompanham em processos muito difíceis que nunca homem algum poderia entender, e que sabem nos abrir a porta da amizade com muitas outras que também, como ela e como eu, e como nós, nos queremos juntas, empoderadas, felizes e livres.

Aprendemos, assim, a valorizar as amigas que temos, a dar-lhes importância, a escutar a cada uma, e a mostrar-lhes o caminho da unidade que antes conhecemos. Esse caminho que nos fortalece sabendo todos os dias que não estamos sós, que estamos juntas, construindo e, a cada vez, reconstruindo-nos.

 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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