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12 coisas que aprendi nos 12 meses sem Marielle

por Ana Paula Lisboa
14 de março de 2019
“Fiquei para participar da roda de conversa “Mulheres Negras Movendo Estruturas”, por causa da Mari”. Foto: Reprodução/ Youtube

Qualquer pedido da Marielle era irrecusável. Naquela noite de 13 de março de 2018 eu deveria ter embarcado de volta para Luanda, na Angola, onde moro. Mas naquela quarta-feira fiquei para participar da roda de conversa “Mulheres Negras Movendo Estruturas”, por causa da Mari. Pra ver, ouvir e abraçar aquela mulher que tanto me admira e orgulha (com ela, o verbo nunca é no passado).

Hoje faz um ano que a estrutura racista brasileira arrancou Mari de nós. Essa estrutura que nos mata de fome, de medo e de tiro. Mas continuaremos a ser porque ela foi. Será sempre.

Nesses 12 meses sem ela, aprendi algumas coisas.

1 – Não morra

O racismo nos mata de várias formas, a bala é a mais estúpida, mas tristeza é a mais comum. É preciso tentar de tudo, fazer de tudo para não morrer. Morrer é a pior coisa que pode acontecer.

2 – A gente não sabe o nosso tamanho

Dias depois do assassinato da Marielle, Flávia Oliveira escreveu que Mari teve a “ingenuidade de não se enxergar relevante; a arrogância de se sentir camuflada”.

A gente até imagina, mas são tantos séculos ouvindo que a gente é pequena, que demora para a gente entender a grandeza do nosso corpo. Isso fez com que uma vereadora que denunciava violência policial e milícias do Estado do Rio de Janeiro andasse sem seguranças.

3 – A visibilidade não salva

Continuo acreditando que “visibilidade é um direito que dispara outros direitos”, mas ela não é um colete à prova de balas.

Os pretos, pobres e periféricos chegaram ao audiovisual, por exemplo, produzindo suas narrativas, contando suas histórias, denunciando. Isso fez acreditar que câmera de celular era escudo.

Leia mais: Marielle continua movendo estruturas após sua morte

Só após o assassinato da quinta vereadora mais votada do município, pouco depois das 9h da noite no centro de uma das maiores cidades do Brasil, é que entendi.

4 – Quilombo é vida

Esse é o momento em que os negros brasileiros, agora se reconhecendo como negros, estão se olhando nos olhos. Nos olharmos faz com que nos vejamos não só no que nos une, mas também no que nos torna únicos, diferentes entre si. Os negros brasileiros não são uma grande massa homogênea.

O momento do desespero e dor teve a beleza dos que colocam as diferenças de lado para abraçar o outro e fazer o que fazemos há séculos: chorarmos juntos nossos mortos.

5 – Nada está resolvido

As pautas e lutas pretas por representação, inclusive política, são tantas, que quando Marielle foi eleita eu me lembro de pensar: “resolvemos isso! ” O Assassinato dela me lembrou que nada está resolvido. Em 15 de março de 2018 iríamos lançar o web programa “Querendo Assunto”, a questão principal era o direito de ser uma mulher negra e poder falar sobre qualquer coisa. A gente sonhou que poderia viver sem ter que falar de morte.

No próprio dia 14, um dos assuntos foi a possibilidade de mulheres negras estarem juntas não para chorar nossas dores, mas dividir nossos planos. Confesso que me senti ingênua e burra ao pensar que já estava resolvido e que já poderia pular algumas pautas. Nada está dado. Tudo ainda é luta.

6 – Muitos não entenderam nada

Muitas pessoas só foram conhecer Marielle depois do seu assassinato. Muita gente entendeu, sentiu dor, sentiu medo, virou aliado, mas muita gente não entendeu nada.

Há os que vendem placas com o nome dela no Mercado Livre, há os que vendem pôsteres, há os que vendem camisa. Há os que compram tudo isso.

Há ainda os que gritam “Marielle presente” mas continuam em suas atividades racistas diárias.

7 – O autocuidado

Ele chegou para todas nós, esse foi um entendimento coletivo, cada uma a seu jeito. Percebeu-se a necessidade do cuidado, interno e externo. O amor por si mesma, a preservação da própria vida e a necessidade de pedir ajuda quando se percebe que não vai conseguir sozinha.

8 – Pode sofrer, pode chorar

A mulher negra recebe usualmente o “elogio” de guerreira. Dandara, Luiza Mahin, Nzinga, Aqualtune, Tereza de Benguela, Marielle são sempre citadas como exemplos de mulheres guerreiras e batalhadoras. Toda a minha reverencia a elas.

Mas uma guerreira não come, não dorme, uma guerreira não desiste, não sofre, ou se sofre, não demostra nunca. Destemida, uma guerreira não chora, uma guerreira aguenta tudo, uma guerreira luta, uma guerreira vence.

É incontestável que estas habilidades nos trouxeram até aqui, mas ser resumida a “guerreira” tira mais uma vez das mulheres negras a humanidade. Retira o direito ao sofrimento, ao luto, ao choro, a fragilidade, ao descanso. As mulheres negras precisam descansar até para honrar as que vieram antes.

9 – Diga à elas

Diga às mulheres negras o quão maravilhosas elas são, o quanto você as admira. Diga todos os dias. Não tenha medo! Diga! É que a gente esquece…

10 – Semente

Sabemos como ninguém transformar luto em verbo. Após o assassinato da Mari, três mulheres negras que trabalhavam diretamente em seu mandato foram eleitas deputadas estaduais. Três: Monica Francisco, Dani Monteiro e Renata Souza.

11 – Quando a gente se movimenta, tudo se move

Não importa no que você acredite, eu só consigo explicar o movimento das mulheres negras pela força espiritual do axé, e axé não é sobre convencimento. É o princípio de tudo, a energia e força motriz. Só o axé explica sermos as que mais morrem, as que trabalham mais, as que ganham menos, as que gastam mais tempo cuidando dos outros do que de si, e ainda assim continuarmos nos movendo.

“Movendo as estruturas” foi o título do último encontro em que Mari esteve presente e eu precisei tatuar essa frase alguns dias depois. Nessa noite que eu entendi o que já sabia, eu entendi porque querem tanto nos parar: quando a gente se move, nada fica parado.

12 – Uma vida de luta e saudades

Dói dizer isso, confesso, ainda mais aos 31 anos: a luta está longe de acabar. Marielle deixou um legado tão grande quanto ela, e uma saudade sem tamanho também. Cadeiras são mais fáceis de serem preenchidas, mas mesmo que elegêssemos toda uma câmara de vereadores de mulheres negras no próximo ano, nenhuma seria ela. Seguimos com nenhum passo atrás, mas com algumas pausas para recuperar o fôlego. Especialmente na luta por justiça, são doze meses de aprendizado e a pergunta continua: quem mandou matar Marielle Franco?

Leia mais: Por que Marielle era única?

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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