“Um útero é do tamanho de um punho”, já disse a poeta Angélica Freitas. Um punhado de questionamentos escondidos nas nossas entranhas. O que ele diria se tivesse voz? É este o exercício proposto por Luiza Romão em seu segundo livro, Sangria, que busca reescrever a História do Brasil evidenciando e rasurando suas bases patriarcais. Cada um dos 28 poemas – que representam as fases do ciclo menstrual – vem acompanhado de uma foto com intervenções de bordado e aplicação de objetos metálicos feitas artesanalmente pela poeta. Nas imagens, partes do corpo da própria artista, captadas pelo olhar do fotógrafo Sérgio Silva, são reinventadas para tornarem-se suporte da uma denúncia histórica.

Imagem integrante do livro. Foto: Sérgio Silva. Intervenções: Luiza Romão.

“eu queria escrever a palavra brasil

mas a caneta

num ato de legítima revolta

feito quem se cansa

de narrar sempre a mesma trajetória

me disse “PARA

e VOLTA

pro começo da frase

do livro

da história

volta pra cabral e as cruzes lusitanas

e se pergunte

DA ONDE VEM ESSE NOME?”

(trecho do poema “DIA 1. NOME COMPLETO”, de Luiza Romão em Sangria)

Esse trabalho de “escavação” das estruturas que sustentam as desigualdades sociais na sociedade brasileira por meio da “lapidação” da palavra é o cerne da trajetória literária de Luiza, que começou, não no papel, mas na voz. Em 2013, a então estudante de Artes Cênicas passou a frequentar saraus e slams nas periferias de São Paulo, numa experiência que redirecionou sua expressão artística. Após ganhar o Slam do 13, o Slam da Guilhermina e tornar-se vice-campeã nacional do Slam BR, reuniu seus versos no livro Coquetel Motolove (Selo Do Burro, 2014). Para disseminar ainda mais sua produção, começou a lançar videopoemas nas redes sociais, explorando a linguagem do spoken word.


Formada em Direção Teatral pela Universidade de São Paulo (USP), atualmente, Luiza estuda interpretação na Escola de Artes Dramáticas (EAD). Essa multi-formação convida-a transcender gêneros e linguagens em seus projetos. Foi assim que Sangria, além de livro de poesia e imagens, tornou-se uma série de videoperformance.

A autora-diretora convidou 28 mulheres de diferentes áreas artísticas (como grafite, pintura, xilogravura, circo, dança, tecido acrobático, teatro de bonecos, bordado, teatro, intervenção urbana, linguagem de sinais e música) para participar: cada uma delas escolheu um dos 28 poemas do livro e propôs uma performance. Essas intervenções foram filmadas e os poemas gravados e musicados pelo duo de baixo acústico, por Vânia Ornelas, e percussão, por Juba Carvalho.

Em uma entrevista exclusiva para a coluna, Luiza conta mais sobre seu processo criativo e sua relação com a arte e a política:

AzMina dão a letra: Quando e como você começou a escrever?

Luiza Romão: Eu escrevo desde pequena. Pra vocês terem ideia, quando eu tinha uns sete ou oito anos, lancei um livro de poesias autorais. Ele era todo ilustrado com lápis de cor: eu imprimia os textos em casa, desenhava e vendia pra minha família e pros professores da escola, pegava a grana e comprava sorvete (já era autora independente e nem sabia). Eu adorava isso. Só que, em dado momento, eu parei de escrever. Os caminhos tortos da vida. Me apaixonei por teatro, fui estudar, entrei na faculdade, mudei pra São Paulo e por aí vai. O tesão pela palavra voltou quando comecei a frequentar o saraus (em especial o Sarau do Burro) e os slams. Isso foi em 2013. De lá pra cá, são dois livros publicados e várias aventuras poéticas. Mas sinto que muito dos “livrim” caseiros ainda me alumiam por dentro.

AM: De onde vem essa paixão pela literatura?

LR: Meus pais são professores. Então, a gente lia muito em casa. Gibi, cartum, romance, livro policial, poesia. Eu adorava passar os dias na biblioteca. Minha mãe, nas férias, dava um caderno pra gente copiar poemas. De um lado era o poema, do outro, tínhamos que fazer um desenho. Pra cada página, ela dava um real (risos). Então eu passava as férias lendo Cecília Meirles, Drummond, Bandeira. Meu pai também: ele dava palestras pelo interior do estado pras Secretarias de Educação e eu acompanhava. No meio da palestra, ele me convidava pra fazer umas intervenções poéticas e eu declamava. Até hoje tenho de cor: “Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam e que fale como dois olhos”, do Drummond.

Mesmo no meu período aqui em São Paulo, antes d’eu conhecer os saraus, eu lia bastante. Na verdade, sempre gostei mais de prosa que de poesia (ironias), daqueles romances que você acompanha uma personagem por 300, 400 páginas, e quando termina você fica uns dias nocauteada recuperando as forças e sentindo a ausência.

AM: Como foi chegar aos slams nas periferias vindo do “centro”? Como é sua relação com esses espaços hoje?

LR: Bom, tô falando bastante da minha infância, né? Ô Luiza saudosa (risos)! Mas é porque, talvez, muito do que eu seja hoje tenha a ver com esse período de formação, de quando eu era criança lá em Ribeirão Preto. Além de me apresentarem a poesia, a música e o teatro, meus pais também me levaram muito cedo pruma caminhada política. Eles eram engajados em várias lutas sociais (ainda são). Me lembro de ter nove ou dez anos e participar de passeata pela libertação da Palestina (nem entendia direito o que era Palestina, mas lá estava eu pulando e festejando). A luta pelo direito à terra também era muito forte na região (Ribeirão Preto é o epicentro do agronegócio paulista, com muitos latifúndios, uso não-ecológico do solo, irregularidade trabalhista e etc); e minha mãe participava intensamente das mobilizações. Então, eu cresci nesse meio.

Quando comecei a me “formar artista”, não conseguia desvincular o meu fazer de um comprometimento político. Pra quem estamos fazendo arte? Do que queremos falar? Eu fiquei quatros anos imersa na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP) e, muitas vezes (quase sempre), essas questões não chegavam lá. Quando estava pra me formar, conheci a cena de slams e saraus. Foi arrebatador! Era isso que eu queria fazer como artista (em termos formais e de conteúdo). De lá pra cá, tem sido uma caminhada muito intensa, de aprendizado e afeto! Conheci pessoas e coletivos incríveis, que atuam a “milanos” nas suas regiões, estão fazendo cultura de resistência no sentido mais visceral da coisa. Pra mim, são exemplos de vida. Então, quando estou nesses espaço, eu mais escuto, aprendo e vejo como posso fortalecer.

AM: Nesse sentido, as lutas sociais surgem como combustível ou objetivo no seu processo criativo?

LR: Cada poema é um pedaço de mim. Se eu estou angustiada com a situação política atual, cuspindo fogo por conta de um episódio x ou y, isso estará presente na minha produção (seja ela uma cena, um poema, ou uma performance). Talvez de maneira explícita; talvez, metafórica; mais vai estar lá.

AM: Como e quando nasceu a ideia do Sangria?

LR: Eu terminei o primeiro rascunho do Sangria em novembro/dezembro 2015 (acho). Nessa época, eu entendi que queria falar sobre mulher. Tudo o que eu escrevia passava pelo “universo feminino” (cultura do estupro, afetividade, assédio, etc.). Era uma questão que eu precisava elaborar (em mim e no papel). Além disso, comecei a perceber que toda a minha produção esbarrava numa perspectiva histórica, uma compreensão estrutural da coisa. Repara quantas vezes eu falo “país”, “história”, “corpo”, “Brasil” num poema. Inúmeras. Aí saquei. Esse era o recorte. Por que não revistar nossa história pela perspectiva de um útero, compreender como os papéis femininos foram construídos através dos séculos, como as raízes do patriarcado estão láááá no “começo de tudo”? Aí veio a Sangria. Passei os últimos anos, escrevendo, reescrevendo, pesquisando essa lógica do ciclo menstrual, como afiar a palavra até ela se tornar uma lança.

AM: Desde o início o projeto era multi-plataforma?

LR: Foi nascendo aos poucos. É como se só o suporte do papel não desse conta pra mim. Eu sou atriz né. Preciso encarnar a palavra, ver ela reverberando no espaço. Ao mesmo tempo, o lance de fazer sempre vídeo parado, falando pra câmera, já tinha me saturado um pouco. Eu achava que a linguagem audiovisual podia ir mais. Podíamos arriscar voos mais altos. Aí apareceu o Sérgio [Silva] na minha vida. Ele embarcou nessa empreitada doida de filmar, editar, experimentar. Fizemos vídeos-poemas performando na cidade, com projeção, fotografia, músicas. Aí pensamos: por que não transformar o livro numa web série? É uma coisa nova, pode trazer um ar novo pra cena, vai agregar mais gente pro projeto, abrir horizontes. Bora? Bora! E daí pra frente, começamos a gestar juntos esse lance.

AM: Como foi a experiência de criação junto a outras artistas?

LR: Tem uma artista que eu gosto muito, a Sophie Calle. Ela tem um projeto chamado Cuide de você. Ela namorava (ou era casada) com um cara que terminou a relação deles por email. Ele terminava o texto dizendo “Cuide de você”. U ó!!! Sabe como ela respondeu? Com uma performance: mandou esse e-mail pra mais de 100 mulheres do mundo inteiro pedindo pra elas responderem a esse absurdo de alguma forma. Entre as minas, tinha mulher arquiteta, matemática, bailarina; mina de várias áreas. Uma fez uma música. Outra, um logaritmo. Outra, uma análise gramática. E assim por diante.

Quando descobri esse projeto, fiquei apaixonada por isso. (Clique aqui para ver o pdf online)

Aí, na época do Sangria, lembrei desse projeto. E me veio o start: vamos convidar 28 mulheres pra participar? Uma de cada linguagem? A gente manda os poemas e elas têm que propor uma resposta artística, que tal? E assim nasceu a série. Uma loucura megalomaníaca (acho que eu devia estar fora da casinha quando pensei nisso – risos). A gente não tinha grana, edital, nada, só a vontade de fazer. Aí fomos conversamos com uma mina aqui, outra ali. Pegando dinheiro de um cachê, de um freela pra comprar equipamento, objeto de cena. E o projeto rolou!

Sem sombra de dúvidas, o mais lindo de tudo isso, foi essa parceria com as minas. A disponibilidade e generosidade de cada uma. A gente está num tempo de sucateamento total, em que fazer arte tá difícil, em especial, fazer projetos coletivos. Todo mundo correndo, tentando sobreviver. Está difícil. Mas as minas abraçaram o projeto e chamaram pra si. Foi lindo! Conseguimos criar coisas preciosas!

Todas as artistas que participaram do projeto. Foto: Divulgação.

AM: Sangria é um projeto que transborda. Da palavra à cena, à imagem, à intervenção, às parcerias, a outras mulheres, ao vídeo, ao sarau, ao público, a mais parcerias… Qual o motor dessa ânsia expressiva?

LR: Acredito que essa “ânsia que transborda” têm muito a ver com o tema. A partir do momento que decidi contar a história do Brasil “sob a ótica de um útero”, não dava mais pra ser um projeto individual, nem de uma única linguagem. As construções do feminino através dos séculos são muitas e diversas (passam por recortes econômicos, regionais e raciais) e eu, sozinha, não daria conta de construir esse imaginário. Na época, acho que eu nem tinha essa elaboração toda. Foi intuitivo. Era o tema transbordando no corpo, nas ideias. Mas vendo hoje o projeto finalizado, percebo que o impulso foi esse. De transformar a minha palavra individual num projeto coletivo que de fato conseguisse dimensionar as noções de Brasil.

AM: Você acredita que é possível fazer poesia ou qualquer forma de arte hoje, como mulher, sem ser feminista ou reivindicar causas sociais?

LR: Eu não conseguiria. Mas que é possível é: está aí a mulher do “prefake” pra provar. Nesse tempo de tanto conservadorismo e patrulha ideológica, acho que eles vão disputar cada vez mais o campo artístico (só olhar pro que aconteceu na exposição queer, com o Maikon em Brasília, com o pessoal da trupe Olho da Rua). E a gente sabe que não basta ser mulher para ser revolucionária, né? O recorte de classe e raça (pra citar a Angela Davis) são tão (ou mais) importantes que o de gênero.

AM: O que você está lendo agora?

LR: Atualmente, estou lendo Uma história da leitura, do Mangel. É um livro cabuloso. Ele analisa o ato de ler desde os fenícios até a internet, entendendo como se modificaram os suportes da escrita, como a palavra falada passou a ser lida, como a literatura foi socialmente construída. Enfim, é lindo. Acho que toda e todo poeta precisa conhecer. É uma viagem sensível e aconchegante sobre a nossa arte. Agora, na poesia, eu tenho lido bastante a Marília Garcia. Terminei o Teste de Resistores esses tempos, e ainda to digerindo. É incrível o destrinchar de procedimentos criativos. Gosto muito quando a autora (ou autor) constrói a narrativa revelando ao espectador os bastidores da linguagem!

AM: Quais serão os próximos passos do Sangria (e seus)?

LR: O Sangria nasce dia 11 de outubro, no Sesc Pinheiros. Será um evento lindo! Com exibição de todos os vídeo-poemas e um show-lírico comigo, Angélica Freitas e Luz Ribeiro (todos os poemas serão acompanhados por música ao vivo e teremos microfone aberto também). Fica o convite para todas (e todos)! Em seguida, vamos circular o projeto por alguns festivais, alguns encontros feministas da América Latina (vamos pro Uruguai e pra Argentina em novembro/dezembro; pro Cariri em novembro). Enfim, estamos aí, com o desejo de circular o projeto pelo máximo possível de espaços e guetos artísticos!

Lançamento do Sangria

Dia 11 de Outubro de 2017 (quarta-feira): às 19h, exibição da websérie Sangria; às 20h, show-lírico com Luiza Romão (participação especial: Luz Ribeiro e Angélica Freitas)

Sesc Pinheiros – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo – SP

Entrada gratuita

 


 

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