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Lucia e Susana são duas meninas. Seriam só duas meninas que brincavam e cresciam em uma cidade da Nicarágua. Como outros países latino americanos e caribenhos, a Nicarágua não é um país seguro para as mulheres, e lá, como aqui, as meninas são vítimas de estupro.

A avó de Lucia era católica, queria a menina na igreja. Ali estaria bem cuidada, pensava.

Nas missas e orações, Lucia notava que o padre a olhava de jeito diferente. Não poderia imaginar que aquele homem tão respeitado por todos da comunidade seria um violentador.

Susana era ainda mais miudinha, sete anos, quando o avô resolveu que ela não iria à escola, dizia que estudo era tolice, e a levava para o meio da roça. Só os dois, sem ninguém para escutá-la, o velho afiava um facão e lhe tirava a roupa.

Lucia e Susana foram vítimas de estupro intrafamiliar. Os homens eram da casa ou da vizinhança. Gente respeitada e conhecida, de confiança e afeto da família. As duas esconderam o quanto podiam a violência, mas queriam ter podido contar ao mundo. Eles diziam que ninguém acreditaria nelas. Lucia engravidou, com três meses o corpo denunciou o segredo.

Não vemos Lucia e Susana no documentário Vidas Roubadas, só acompanhamos suas silhuetas. Uma sombra nos permite imaginar suas meninices violadas: as duas têm vozes infantis, bochechas de meninas, cabelos desalinhados de quem não poderia ainda ser mãe. O pai de Lucia também se esconde pela sombra, tem medo da importância do padre na comunidade. Chora muito enquanto relembra a estória. Ele é só um camponês, o agressor, alguém de muito poder.

Acho que eu não aguentaria ver as meninas. As vozes verdadeiras já foram muito para encarnar a brutalidade do estupro contra meninas. Os dois rostos foram substituídos por aquarelas que se desfazem na tela – há uma delicadeza entre a vida e a arte no filme realizado pelo coletivo de mulheres Axayacatl.

Nenhum dos dois homens foi preso, e mesmo que o tivessem sido, aqui e lá, a prisão seria só uma peça de alívio para os casos.

A verdade é que precisamos entender e enfrentar a violência sexual contra as meninas como uma grave infração de direitos humanos: destrói-se a existência das meninas, roubando-lhes um projeto de futuro livre, deixando no lugar uma cicatriz de angústia e sofrimento.

Se para o padre e o avô a prisão deve ser o destino, é na desconstrução do gênero como um regime de poder perverso que se esconde a chave para a proteção das meninas.

 

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