Crédito Paulo Pinto/ Fotos Públicas

A primeira vez que me identifiquei como sapatão foi respondendo uma pesquisa feita na Parada LGBT do Rio de Janeiro. Senti alívio e uma pontada de triunfo.

Antes eu era lésbica, gay, homossexual, entendida (essa é do fundo do baú!). Sapatão foi o xingamento usado pelo morador de rua que me jogou uma garrafa de vidro na saída da faculdade.

Sapatão foi como minha prima pequena me chamou pra dizer que não mais sentaria no meu colo. Eu nem sabia que era sapatão mas ser chamada disso doeu pra caramba.

No dia que respondi a pesquisa, não hesitei, orientação sexual: sapatão. Respirei fundo e melhor.

Depois descobri que tipo de sapatão eu era: butch. Masculinizada. Bofinho.

Essa é minha identidade política, sou butch. Gosto de ser butch, me interesso por outras butchs e tenho orgulho da minha butchisse.

Mesmo quando, equivocadamente, mulheres heterossexuais me escolhem como “primeira experiência”, achando que eu não vou negar porque, afinal de contas, as butchs gostam de qualquer mulher! (#sqn)

Mesmo quando outras lésbicas ficam esperando que eu seja A ativa na cama. Sorry, nesses casos sou passivona e acabamos não fazendo nada, nem na cama nem nunca mais.

Mesmo quando todos os garçons e garçonetes do mundo entregam a conta pra mim, quando os vendedores de flores me oferecem “uma rosa para sua amiga” e os de brincos, só pra minha amiga (ou namorada, ou peguete, ou qualquer mulher que esteja comigo e não seja butch).

Mesmo quando amigos meus me tratam de “bróder”, acham que eu compartilharei de comentários machistas, batem nas minhas costas dizendo que minha namorada é bonita “com todo o respeito”.

Mesmo quando sou o alvo preferencial da violência lesbofóbica, verbal ou física. Quando o carro da mina com quem estou ficando é parado na blitz às dez da manhã de um domingo só por eu estar ali.

Mesmo quando digo que não sei jogar futebol, nem sinuca, nem gosto da maior parte das cantoras da Música Sapatão Brasileira e ameaçam cassar minha carteirinha da diretoria da Sapataria Progresso.

Mesmo quando esperam que eu seja violenta, ou grosseira, ou quebre tudo, ou tenha ataques de ciúmes, que chame minha companheira de “minha mulé”, enfim, que reproduza o pior do machismo contra o qual luto como a butch feminista que sou.

Mesmo quando a minha vontade anual de usar vestido aparece e isso vira um acontecimento a ser comentado pra sempre, tão constrangedor que me faz pensar dez vezes antes de por vestido ou saia. Quando digo que sei andar de salto alto ou me maquiar e recebo risadinhas debochadas como resposta.

Mesmo quando esperam que tenha uma femme a meu lado, uma mulher super feminina. Mesmo quando outras butchs não me dão bola porque elas acham que só têm que se interessar por mulheres super femininas.

Mesmo quando pensam que minha função no mundo é ser uma fonte inesgotável de estereótipos sobre a sapatão predadora, que dá em cima de qualquer mulher e que pode ser agredida com a anuência da lesbofobia social, “ué, não quer ser homem?”.

Sou butch porque politicamente me interessa que minha orientação sexual e minha identidade cheguem antes de mim, que ninguém tenha dúvida que está diante de uma sapatão muito orgulhosa de ser a butch que sou.

Explicação necessária: por que butch e não caminhoneira? Porque há, infelizmente, uma diferenciação de classe e eu não quero tomar o lugar de fala de ninguém. Caminhoneiras passam por tudo isso e mais a opressão de classe, coisa que eu não posso dizer que sofro.

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