Quem senta no divã hoje é a Marina Cavalcante.

“Em minha certidão de nascimento original, de 1992, minha raça é negra. E na vida, nas relações, no espelho: quem eu sou? Negra me define ou negra faz parte de mim? É permitido ser negra de molde, de forma, de traços e não de cor? Meu cabelo cacheado, volumoso, é menos negro que um cabelo black power? Quem tem pele clara pode colocar dreads? Quem tem cabelo enrolado pode alisar? Clarear o cabelo é embranquecer nossa raça? Para ser negra, eu tenho que entrar para algum movimento, coletivo, grupo no Facebook de empoderamento negro? Para eu me considerar negra, tenho que ter uma triste história de racismo contra mim para contar? Ser negro, no Brasil, é também sofrer racismo?

Quem me gerou, me pariu e me criou foi minha mãe: pele bem branquinha, quadril largo, cintura fina, cabelos lisos e escuros, nariz largo e alongado, olhos rasgadinhos. Quem me registrou no cartório foi meu pai: pele preta, voz de Seu Jorge, nariz largo, achatadinho, cabelo crespo, movimento negro, orgulho black, coisa e tal.

Minha mãe me gerou, me pariu e me criou sem dizer se eu era isto ou aquilo. Muito pelo contrário: sempre fez questão de me mostrar que eu era eu, e ninguém mais nem menos. Minha mãe nem quis saber meu sexo na ultrassom, só descobriu quando eu nasci e lá estava a minha pepeca. Meu enxoval foi verde, até. Chora, moda genderless, pois eu já nasci assim. Mas não cresci cem por cento assim. Minha mãe sempre gostou de me enfeitar, me vestir “de menina” e ao mesmo tempo de criança, sem gênero, só criança mesmo. Meu brinquedo preferido durante alguns anos foi um boneco dos Tartarugas Ninja, o da bandana vermelha, Raphael. O outro foi uma boneca bebê chamada Olivinha.

Parece bobagem, mas não era não

Mulata é o adjetivo que foi mais utilizado para me definir durante minha vida, definição essa externa e vinda de pessoas muito próximas e desconhecidas também. Mulata ou mulato refere-se aos filhos e filhas mestiços de mãe negra e pai branco, ou vice-versa. Ora, é o que sou mesmo, não é? Mas aprendi que a palavra mulata é um termo pejorativo, pois vem de mula (o cruzamento de um cavalo/jumenta ou de uma égua/jumento) e era usado para designar os filhos e filhas mestiços(as) das escravas com os senhores brancos de engenho. Eu sou mulata?

O estigma da mulata vai desde a cantada de rua à escola, do samba, do pagode aos relacionamentos.

Tinha 17 anos quando um professor de química, no meu último ano do Ensino Médio, parou a aula para comentar em frente à sala toda que eu me parecia com uma dançarina de escola de samba, e começou a justificar seu comentário ao descrever minhas características físicas (naquela época, ainda imaturas e inocentes assim como minhas vivências) associadas a um corpo e volume negros. Quando ele falou isso, eu quase me enterrei na cadeira, dei um sorriso amarelo sem mostrar dentes e meu rosto ficou vermelho de vergonha e de nojo daquele comentário vindo de um professor que não tinha intimidade alguma comigo, professor esse que nunca dei liberdade para fazer aquele tipo de comentário, muito menos em frente aos meus colegas e amigos(as).

Carne nua

Ser mulata, mestiça, ser aquilo – curvas, cachos, traços, imagem – que as pessoas viam e vêem em mim me fez ser sexualizada desde muito cedo. Nascer mulher no Brasil, talvez no mundo, já é nascer também condenada tanto a sexualização quanto ao ser puta ou santa, a depender de como essa menina se desenvolva enquanto mulher. Parece que ser gostosa, nos padrões brasileiros normativos, é também ser puta.

Já escutei de uns amigos “o que é bonito é para ser mostrado” quanto já fui condenada por mostrar demais, para o gosto de outros. Já fui elogiada, incentivada a exibir minhas curvas, o mestiço, o negro em mim, quanto já fui assediada por usar um decote, um comprimento mais curto, roupas justas, em que a culpa é cotidianamente direcionada a mim, a vítima da história.

A minha condição de mulher aliada ao meu corpo negro farto parece que grita sexo, convida olhares e vozes a se pronunciarem – sejam eles desconhecidos ou não -, reforça uma certa disponibilidade amorosa e sexual e me condena a ser, de certa forma, a “nêga” de todo mundo, a mulher que pode dar pra todo mundo e que vai ser gostoso, porque ela é uma “nêga boa do caralho”, mas quiçá essa mulher pra trepar não seja a mesma mulher para namorar: o negro em mim não é passível de amor, de intimidade, mas única e exclusivamente de sexo.

É curioso e preocupante, pois, quando ouço um comentário de cunho sexual, seja ele elogio ou assédio ou ambos, ele vem acompanhado das palavras mulata, morena, nêga ou preta.

Eu não decifrava, eu não conseguia

A primeira vez que escutei outra pessoa me chamar de negra foi na escola. Eu devia ter uns 13 anos e, diferentemente da maioria das situações que as pessoas vivem, não foi um caso de racismo mas eu confesso que me incomodei. Estávamos começando a estudar a história do Brasil e a questão étnica, diversidade racial. E então para iniciar o assunto, foi proposta uma dinâmica em que, numa roda, os professores nos incentivavam a dizer como nos víamos: se branco, se moreno, se amarelo, se indígena, se negro. Foi uma situação no mínimo estranha. Não é todo dia que a gente tem que dizer, em voz alta para todos os nossos colegas de sala (nossa pequena sociedade de segunda a sexta) como nos compreendemos, ainda mais naquela idade em que não se compreende quase nada – sobre nós mesmos e sobre o mundo.

Lembro de uma amiga virar pra mim e comentar “Mas você é negra, né. Seu nariz é largo e tudo mais…”. E eu fiquei pensativa. A outra amiga que escutava aquilo falou “É, Marina é negra sim”, num tom de julgamento e ao mesmo tempo reconhecimento. Foi tudo muito estranho pra mim, e a pergunta vinha: eu sou neguinha? Quando chegou a minha vez de dizer como eu me via, balbucei: “N… Negra? … Negra”.

Mais tarde, numa nova ocasião dessa roda pré-adolescente da verdade racial, após desenvolvermos melhor os temas da história do brasil e da diversidade, eu falei, agora muito mais segura de mim e de como eu me via: “Eu sou brasileira. Sou brasileira! Meu nariz é largo, mas minha pele é clara, meu cabelo é cacheado, minha mãe é branca mas se diz morena de cor, meu pai é negro e se diz negro de cor e de raça, e eu sou isso tudo, eu sou brasileira”.

Foi um alívio. Alguns colegas me olharam como se eu estivesse me negando, negando o meu negro. Outros concordaram. Outros continuaram confusos como eu talvez esteja até hoje, apesar de mais segura. Segui na vida, brasileira, negra, morena, mestiça, Marina.

Um possível ou impossível em mim

Tanto me dizem que ou se é ou se não é negro, negra, sem abertura para meios termos. Essas auto-afirmações, ao que vejo, auxiliam no fortalecimento e empoderamento pessoais e enquanto grupo, enquanto minoria social que luta e deve lutar pelos seus direitos. No meu caso, não sei como me definir: se dentro ou fora. Dizem que a dúvida é racista, um racismo com nós mesmos, e que a identificação racial parte de cada um. Muito é falado sobre a auto-afirmação enquanto pessoa da raça negra. Tem que ser dito “eu sou negro(a) e me orgulho de ser assim”.

É lindo se reconhecer e se afirmar, isso é motivo de orgulho. Porém, em pleno final de 2016, neste país miscigenado por razões que nada tem a ver com o incentivo à diversidade e a ausência de racismo, quem é que pode dizer que é ou que não é negro?

Quem é que pode me chamar de “branquinha” (escuto isso frequentemente e até me ofendo por não me identificar como tal)? Quem é que pode me chamar de neguinha? Como eu posso me identificar como uma coisa ou outra?

Até então, me compreendo enquanto mulher brasileira, mulher essa que tem pai negro miscigenado e mãe branca miscigenada, ambos brasileiros. Me olho no espelho e sei que ali está uma mulher de pele morena clara, boca carnuda, nariz largo, olhos rasgadinhos, cabelos cacheados, quadril largo, seios fartos de auréola marrom-rosada, cintura fina, pernas grossas, corpo abundante e curvilíneo, rosto forte e marcante. Eu sou neguinha?

Via o que é visível, via o que não via

Por não ter sido criada por e/ou na companhia do meu pai, a questão da identidade negra em mim pode até ter sido pouco incentivada. Não que minha mãe me incentivasse a ser branca, mas ela me incentivava a ser como eu fosse, essa mistura toda que se mostra no meu físico, tudo ao mesmo tempo.

Minha mãe foi a pessoa que primeiro me disse que meu nariz largo, afro-descendente, igualzinho ao do meu pai era lindo e, mais importante: era e é meu. Na mesma escola da rodinha pré-adolescente de auto-identificação racial (ou era apenas de cor? nem sei, aquela experiência foi toda muito confusa), eu sofri bullying por causa do meu nariz. Bullying não é nem deve ser visto como algo americanizado, em que os fortões da escola jogam suas vítimas num latão de lixo ou que determinado estudante, vítima de bullying e provavelmente com fortes tendências psicopatas, arquiteta um assassinato em massa dentro de sua própria escola e vira filme. Bullying não é coisa de filme, bullying é diário, é local e geral, é entre amigos também.

E, por causa do meu nariz não ser afiladinho, dentro do padrão, um amigo meu que ditava grande parte dos bullyings e problemáticas na nossa turma me sugeriu fazer uma cirurgia plástica para “corrigir” o nariz. Para eu ser igual a elas, as minhas amigas que não tinham o nariz negro. Para me embranquecer, para apagar o que de mais nítido e negro tenho em mim. Para eu ficar mais normativa. Tenho lembranças fortes de quando chegava na frente do espelho para ver como seria meu nariz menos afro, menos meu pai, menos eu. Lembro desse meu amigo – era amigo mesmo, o que só torna tudo pior – colocando a mão em frente ao meu nariz e dizendo algo como “olha como tu fica bonita sem teu nariz”, e eu ria nervosamente e nossas amigas riam e concordavam ou talvez não entendiam o que estava acontecendo. Hoje, traduzo para “olha como tu fica bonita sendo menos negra”.

Eu era a saída

Essa relação torturante com o meu nariz deve ter durado anos, pois concluo que só fui começar a me libertar dela lá pros 17, pouco tempo antes de fazer 18 anos e poder decidir ou não sobre a rinoplastia tão sugerida e incentivada na época da escola. Quando minha mãe ficou ciente do meu incômodo originalmente externo acerca do meu nariz, ela fez por mim o que sozinha eu talvez não conseguisse: iluminou e direcionou meu olhar, mostrando que o belo não é sinônimo de branco, de Barbie, e que o feio não é sinônimo de negro, de mim.

Ela tentou não dar tanto valor ao que eu havia dito, mostrando assim que não valia a pena pensar daquele jeito negativo sobre o meu próprio nariz. Ela não me deu uma aula sobre identidade racial, mas sim uma conversa sobre reflexão, carinho, reconhecimento e empoderamento de quem eu era e sou: brasileira, com o negro presente, marcante, paterno e materno também, misturado, pulsante, mas que não me define e que não ser nada e ser tudo ao mesmo tempo é lindo. Que ser quem somos, como quisermos ser, entre aceitação e libertação, reconhecimento e possibilidades, é mais interessante que sermos quem os outros querem que sejamos e como querem que sejam nossos narizes.

Hoje eu continuo em talvez eterna reflexão sobre minha raça ser negra, como meu pai tanto fez questão de afirmar e imprimir em minha certidão de nascimento, e ao mesmo tempo me identificando cada vez mais com o negro em mim, minhas curvas, meu estilo, minha beleza, minhas divas. Hoje, graças a minha mãe e pelo caminhar da vida, eu não optei pela rinoplastia e meu nariz continua tão negro, tão largo e achatadinho como veio ao mundo. Este ano, me presenteei com um piercing dourado na narina esquerda que ficou lindo, inclusive. Um grande amigo comentou “até parece que ele sempre esteve aí, de tanto que combinou”. Assim como a impressão dele sobre meu piercing, meu nariz sempre esteve aqui, bem no centro do meu rosto, bem no meio da minha brasilidade, e daqui não sai de tanto que combina comigo. Se não fosse meu nariz, eu não seria eu.


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