Do alto, Belém virou coro. Literalmente.
Quando a floresta apareceu recortada pelo rio Guamá, o silêncio de um vôo entupido de gente se transformou em aplausos. E não foi pra menos. Pessoas de tantos sotaques e tantos idiomas misturados ficaram impressionadas com o que a capital do Pará e a Amazônia entregam à vista de cima. Eu também.
E realmente… Ver de perto o que eu só tinha visto pela televisão é um privilégio (infelizmente) para poucos. É meio brega dizer isso, mas senti que essa primeira paisagem foi um sinal de que coisas boas vêm aí, no sentido mais literal possível.
Desembarquei do avião com um calor que não é o do meu costume: aquele que deixa preguenta. Mas o primeiro sintoma de que a cidade está começando a se sobrecarregar veio ao pedir um carro de aplicativo. Foram quase 15 minutos para ter a corrida aceita e mais 10 até um motorista chegar.
Era ela: Aline.
Muita gente tinha me dito: Belém tem bastante motoristas mulheres. Antes de vir, cheguei até a mandar e-mails pras empresas de transporte por aplicativo para saber se os números confirmavam essa teoria, mas nenhuma delas conseguiu passar essa informação.
De certa forma, Aline, acabou sendo a confirmação que eu precisava.
Bastou um “boa tarde” pra simpatizarmos uma com a outra. Ela veio com “boa tarDe”, brincando com meu D sem chiado, mas não de um jeito pejorativo — como aquele que todo nordestino tá acostumado lá no Sudeste —, mas como quem pergunta “de onde tu és?”.
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Uma corrida e um guia da culinária belenense
Em vinte minutos de corrida, saí com seis indicações de onde comer, o que comer e como comer. Em poucas linhas: tacacá só depois do expediente, porque pode dar um revestrés em quem não tá acostumado; maniçoba boa é preta, se estiver verde, tá mal cozida; e ninguém sai de Belém sem provar o verdadeiro açaí com peixe dourada.
Eu, que não gosto nem de peixe, nem de açaí, me senti absolutamente convencida a tentar. Paguei 32 reais por um prato enorme de peixe, arroz, feijão, uma tigela generosa de açaí e suco de cupuaçu. E posso dizer? Amei.
Fiquei pensando em como a mídia comercial adorou dizer que Belém estava cara e que os preços subiram muito devido à COP. O que não é de todo mentira. Os preços das hospedagens preocuparam muitos países que deveriam estar no centro do debate: os mais pobres, vulneráveis e que mais sofrem com a destruição climática.
Só que, honestamente, vi algo parecido (em menor escala, claro) no show da Lady Gaga em maio deste ano, no Rio de Janeiro. O evento atraiu mais ou menos 500 mil turistas, os preços das hospedagens foram triplicados, quadruplicados, e ninguém transformou isso em notícia. Será que se a COP fosse sediada no Rio, essas manchetes teriam o mesmo tom? Me peguei pensando nisso.
Também ouvi que as obras não beneficiaram todo mundo (e já mostramos isso antes). Teve motoristas contando que o trânsito ficou pior com as vias fechadas por obras e artesãs falando que Belém não se preparou o suficiente.
Talvez tenha um quê de xenofobia. Eu, pernambucana e sertaneja, sempre soube que o ‘centro’ do Brasil — Rio de Janeiro e São Paulo — parece não se aguentar quando a “parte de cima” vira a cara do país. Quando saímos da caixinha do “regional” e nos tornamos o TODO, o MOMENTO, o rosto do Brasil.
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O acolhimento e o humor paraenses
Ainda quero apurar isso mais de perto, mas as primeiras impressões são de que Belém está feliz com a chegada de tanta gente. As coisas não estão exorbitantemente caras como falaram. Pelo menos, alimentação, não. E em todo canto, meu sotaque virou senha para conversa. Os paraenses estão me recebendo como uma prima distante, com muito carisma, acolhimento, humor e piadas.
Ah, e aqui a chuva tem hora. Embora nesses dois últimos dias eu não tenha visto nenhum sinal dela, me disseram que ela cai quase pontualmente todos os dias. As pessoas até combinam encontros perguntando: “antes ou depois da chuva?”.
Mas olha, apesar de tanta empolgação, existe um nervosismo também. Essa é minha primeira COP e minha primeira grande cobertura. É uma super responsabilidade representar AzMina (que, por onde falo, as pessoas dizem amar!) sozinha de corpo. Minha sorte é que estou super acompanhada de alma por uma equipe inteira que fez força pra eu estar aqui.
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Uma cobertura com as mulheres no centro
E estar cobrindo gênero, em um evento como esse, é, sinceramente, super demais. Sou só gratidão por poder olhar de pertinho como esse tópico é citado no maior encontro de negociações climáticas do mundo. Ainda mais numa COP dentro do meu próprio país, depois de sedes antidemocráticas, e num momento em que o tema começa a ganhar alguma força.
Não tem nada que me faça me sentir mais poderosa do que estar aqui ampliando a necessidade de colocar as mulheres, as que mais sofrem com as crises climáticas, no centro das decisões. Principalmente as racializadas.
Essa COP, inclusive, é a primeira em que os rascunhos oficiais trazem uma menção à população afrodescendente, fruto da mobilização de organizações como o Geledés. É um passo simbólico, mas também vejo como um começo. Pode ser que o mundo esteja se dando conta, enfim (ou não) de que o clima não é só sobre o planeta, é sobre quem tem o direito de viver nele com dignidade.
Ei, e deixa eu te levar junto?
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