
Conversamos com Renata Prado, pedagoga, dançarina, cria da Zona leste de São Paulo e uma das fundadoras da Frente Nacional de Mulheres do Funk (FNMF). A organização luta pelo bem-viver da comunidade do funk e defende o protagonismo de mulheres dentro do ritmo.
Este ano, além de não sair das paradas dos streamings nacionais, o funk brasileiro marcou presença constante nos noticiários, com a “CPI dos Pancadões” e a “lei anti-Oruam”, ambas iniciadas na Câmara Municipal de São Paulo. A CPI foi instalada em maio e se propõe a investigar omissões na fiscalização das festas periféricas, constantemente criminalizadas pelo Estado, os bailes funk. Renata Prado depôs à CPI no dia 12 de junho e rebateu falas preconceituosas contra a cultura do funk.
Já a “lei anti-Oruam” foi protocolada em fevereiro pela vereadora Amanda Veturrazo (União Brasil). O objetivo é proibir a contratação de artistas com dinheiro público por supostamente fazer apologia ao crime e ao uso de drogas em eventos públicos, gerando debates sobre censura e o racismo que mina a cultura da juventude negra no país.
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Renata é enfática: ritmos musicais com origem negra e periférica sempre foram perseguidos. O objetivo da FNMF é justamente combater estigmas sobre a comunidade e os jovens que, assim como Renata, cresceram nas periferias consumindo o ritmo musical. Hoje, a organização está presente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco. Abaixo, você confere o nosso papo sobre o funk, as mulheres do movimento e a polêmica relação do ritmo com a sociedade brasileira.
AzM: O que é a Frente Nacional de Mulheres do Funk?
RP: A Frente Nacional de Mulheres do Funk é uma organização político-feminista que surgiu em 2017 para desenvolver ações educativas e culturais voltadas para o movimento, em busca de políticas públicas de bem viver para a juventude do funk. Nos organizamos para realizar incidências políticas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco, porque são os lugares em que entendemos a cultura funk como um fenômeno cultural.
Desde o início, temos como referência a Frente Nacional de Mulheres do Hip-Hop, uma organização de mulheres negras em prol da visibilidade na luta política. Os dois ritmos são como irmãos, então como pesquisadora vejo a importância de seguirem os mesmos caminhos. Para a Frente Nacional de Mulheres do Funk existir foi desenvolvido um projeto contemplado pelo edital do Fundo Brasil de Direitos Humanos. A partir desse apoio institucional, demos os primeiros passos nessa organização que vem atuando em vários lugares do Brasil.
AzM: Qual a sua história com o movimento funk?
RP: Sou nascida e criada no bairro do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo. Tenho 35 anos e costumo dizer que faço parte da primeira geração do movimento. No início dos anos 2000, quando o funk começa a se aproximar da cidade de São Paulo, é justamente o momento em que estou vivendo minha adolescência na periferia. Vivenciei os primeiros fluxos de funk na zona leste de São Paulo. O baile funk é uma válvula de escape emocional e cultural para essa juventude.
Tive, então, uma vivência de adolescente consumindo funk de forma muito orgânica, justamente por eu ser quem sou, por morar onde moro e por viver o momento social e político daquela época. Quando entro na universidade, entendo a importância de falar sobre a temática do funk. Isso porque, até então, dentro do campo acadêmico, não havia pessoas do movimento falando sobre a cultura funk. É também o momento em que começo a me colocar como dançarina e professora de funk, porque passo a me afirmar dentro dessa cultura de forma profissional e a desenvolver projetos de acordo com quem sou: uma funkeira.
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AzM: Como você enxerga a relação do funk com as mulheres?
RP: As mulheres sempre fizeram parte do movimento funk, só que a história delas foi apagada. Também é por isso que existe a Frente Nacional de Mulheres do Funk, para evidenciar as vozes da política, da cultura e da arte que representam essa cultura, mas foram invisibilizadas. Quando olhamos os primeiros livros sobre funk, pouco se fala da trajetória das mulheres. E quando se fala, coloca a mulher em um lugar sexualmente subalterno. Sendo que as mulheres do funk têm uma participação muito relevante na história do movimento. Temos mulheres que cantam, dançam, escrevem, pesquisam, são intelectuais, produtoras de eventos e produtoras musicais.
O funk é escrito por mãos de grandes mulheres, de grandes homens, de vários intelectuais, pessoas cis e trans. E é essa narrativa que a gente precisa evidenciar. O funk é uma música muito sensual, e é importante que as mulheres sejam associadas a isso. Para nós, a sexualidade não é o problema, e sim a sociedade achar que não temos a liberdade de exercer desejos sexuais e sensuais na nossa cultura.
AzM: Como você analisa os debates sobre objetificação das mulheres no funk?
RP: Acho importante entender que a presença das mulheres do funk vai além da sexualidade. Somos plurais, atuamos em diversas frentes na cultura funk, mas isso não exclui o nosso direito de exercer a sexualidade. O movimento fala sobre liberdade, alegria, sexo, que são coisas que fazem parte da natureza humana. Para nós, não é nenhum tabu falar sobre todas essas questões, mas sem colocar a mulher somente em um lugar. Quem geralmente faz isso são os conservadores, eles acham que nós, mulheres do funk, somos obrigadas a seguir a cartilha do moralismo e do patriarcado, justamente porque entendem a nossa cultura como imoral. Acredito que uma resposta para o conservadorismo é exercer a liberdade dos corpos femininos na cultura funk, porque é isso que é perseguido.
Todas as mulheres do funk, em algum momento, já tiveram seu comportamento sexual e até mesmo sua vestimenta questionada, mas os nossos corpos vão além disso. O problema é achar que o nosso comportamento é pautado pela narrativa masculina. Existem vários homens, tanto dentro quanto fora do movimento, que reforçam essa lógica, porque vivemos em um país onde se naturaliza que as mulheres tenham um comportamento condicionado ao que o homem entende como correto. Nós, mulheres do funk, acreditamos na liberdade de ser quem somos, inclusive sexualmente.
AzM: De que maneira a Frente enxerga e se relaciona com o atual momento político do funk, como a CPI dos Pancadões e a Lei Anti-Oruam?
RP: Desde o início do movimento funk, esse é o momento mais violento que ele vem sofrendo, justamente porque a perseguição está se dando de forma institucionalizada. Hoje temos projetos como a Lei Anti-Oruam, a CPI dos Pancadões e a privatização do movimento na cidade de São Paulo – quando olhamos a relação da Secretaria Municipa de Cultural com grandes empresários do funk, por exemplo.
A Frente Nacional de Mulheres do Funk atua para provar que o funk não é um movimento ligado à criminalidade, mas sim relacionado à cultura negra. E é exatamente por isso que passa a ser criminalizado. Quando analisamos um país com raízes escravocratas, entendemos por que uma cultura de jovens negros é perseguida, assim como mostram esses projetos de lei.
A ideia é rotular o movimento como criminoso, assim como já fizeram com o hip-hop e com o samba. Temos o direito de exercer a nossa cultura, de ocupar as ruas e as praças, de garantir o nosso direito de ir e vir, desde que isso seja dialogado com o poder público e a sociedade civil. Mas, hoje, a única resposta concreta do poder público é a polícia. A CPI dos Pancadões poderia discutir como os bailes podem ser construídos de uma melhor forma, mas prefere criminalizar uma cultura que, mundialmente, está sendo reconhecida.
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AzM: Na sua opinião, por que existe divergências políticas no movimento funk?
RP: A juventude do funk é politicamente desassistida e, em comparação com o hip-hop, tem menos formação política. Isso aproxima o movimento do conservadorismo, mesmo diante de tantas contradições. É por isso que existem tensões dentro do movimento, alguns representantes acreditam na teologia da prosperidade e na meritocracia e esses valores são amplamente vendidos à juventude.
Também existe um lado progressista no movimento funk, ainda que distante das grandes produtoras e empresários, mas muito presente nas ruas. Por isso, é importante dizer: o funk tem lado político. Muitas vezes a resistência que entra nas instituições de ensino se assume como intelectual, se debruça sobre essa cultura e entende a importância do funk enquanto política de esquerda. Isso não é sobre bandeiras partidárias, mas sobre posicionamento histórico. O funk é uma cultura negra que, historicamente, sempre esteve ligada ao campo progressista, isso porque foi onde tiveram espaço de luta e sobrevivência.
A Frente Nacional de Mulheres do Funk faz parte desse projeto político e quer construir um funk mais humanizado. Um movimento onde a polícia não ache legítimo entrar em um baile para matar jovens, como aconteceu em dezembro de 2019, no Baile da 17, quando uma operação policial resultou na morte de nove jovens inocentes, sem qualquer ligação com o crime organizado.