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De Norte a Sul do país: a jornada das mulheres negras até Brasília

Caravanas de todas as regiões do país e do exterior atravessaram o Brasil rumo a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras pelo bem viver, dez anos após primeira edição

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Luany viajou em um dos oito ônibus que partiram de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Julia integrou uma das cinco caravanas que saíram da cidade de São Paulo. Rosiane está entre as 43 mulheres que viajaram de São Domingos do Capim, no Pará. Camila embarcou em um dos três ônibus que reuniram mulheres de Iruçuca, Ilhéus e Itacaré, na Bahia. Raquel estava entre as 180 pessoas que viajaram em quatro ônibus de Curitiba, no Paraná, durante 26 horas. Serrana Silva se juntou a 30 companheiras em um voo do Uruguai com destino ao Brasil.

Nesta terça-feira (25), elas se juntam a milhares de mulheres negras – quilombolas, ribeirinhas, periféricas, do campo e das cidades – de todas as regiões do Brasil e de outros países para a 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que acontece em Brasília.  

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Feminismo bem informado

A mobilização que trouxe milhares de mulheres a Brasília enfrentou desafios logísticos e financeiros ao longo do caminho. Embora a organização da marcha tenha trabalhado para viabilizar o evento, a falta de apoio de diferentes instâncias do poder público dificultou a participação de muitas mulheres, conforme lamentaram ativistas ouvidas pela reportagem. 

Em entrevista à revista AzMina, elas contam que além de muitas horas de estrada e chuva, enfrentaram falta de energia e diversas dificuldades para marchar por reparação histórica, justiça racial e climática, combate à violência de Estado e a defesa do bem viver. Não é só sobre acesso a direitos básicos e abrange uma vida digna, livre de violências e com respeito à ancestralidade. 

Dez anos após a primeira edição da marcha, que reuniu 100 mil pessoas, a expectativa é de que o ato deste ano alcance números ainda mais expressivos. Aqui elas contam um pouco de suas jornadas.

Centro-oeste e Sudeste 

Depois de quase 19 horas de viagem de Corumbá até a capital federal, a jornalista Luany Mônaco, de 27 anos, define sua presença na marcha com uma palavra: esperança. Para a comunicadora pantaneira, o movimento por reparação e bem viver passa pela necessidade que ela e sua comunidade têm de qualidade de vida, alimentação adequada, água potável e descanso digno. 

Jornalista passou por quase 19 horas de viagem até Brasília – Foto: Luany Mônaco

Chegar em Brasília não foi fácil. As secretarias municipais de justiça racial prometeram apoio para o deslocamento das mulheres até a capital Campo Grande, de onde partiriam os ônibus para a capital federal, mas “grande parte das promessas não foi cumprida”, relata Luany. “Várias mulheres que estão participando e que vieram pra cá não tinham como ir até Campo Grande. E aí tiveram que dar os seus pulos pra conseguir chegar e pegar um ônibus pra estar aqui”, pontua. Os esforços foram desde aluguel de vans até pedir carona para caminhoneiros.

Apesar de todos os obstáculos enfrentados no trajeto – o convênio firmado com a empresa de ônibus foi rompido dias antes da marcha –, Luany reafirma que nada conseguiu tirar a vontade das mulheres de estarem presentes.

Da periferia de Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, Julia* destaca que a solidariedade marcou a viagem: mulheres se ajudaram mutuamente durante o trajeto, cada uma fazendo seu melhor para garantir que a marcha acontecesse. “Eu sei a força e a potência que as mulheres negras têm juntas”, diz. Para ela, é fundamental que o Brasil reconheça essa mobilização, especialmente diante da violência e das violações de direitos que as mulheres negras enfrentam sistematicamente.

Os ônibus que partiram de São Paulo também lidaram com limitações. Julia explica que, apesar do empenho da organização em oferecer as melhores condições possíveis, os recursos insuficientes resultaram em desistências nos últimos dias antes do evento. Mulheres que planejavam vir com crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência acabaram não conseguindo participar por falta de estrutura adequada.

Julia também relata dificuldades no planejamento das paradas. Os cinco ônibus pararam no mesmo local para banho por volta das 4h da manhã, o que causou filas e demora. Além disso, a água do estabelecimento estava gelada. “O banho foi muito ruim, com muita gente e todos os chuveiros frios. Como estou em tratamento de mioma, tomar banho frio é ruim”, conta.

Leia Mais: “Não viemos pedir, queremos reparação”: Marcha das Mulheres Negras apresenta manifesto com 11 reivindicações

Norte e Sul 

De Curitiba, Raquel Cardo, de 32 anos, faz sua primeira marcha. Ela é a mais jovem entre as 180 pessoas que viajaram nos quatro ônibus do Paraná – todas as outras participantes estiveram na primeira edição, em 2015. “O pertencimento que isso aqui traz pra gente é uma liberdade. Eu cresci numa sociedade que me reprimia bastante, até eu aceitar a cor de pele, o fato de eu ser mulher”, conta. 

Para Raquel, a marcha representa a possibilidade de conquistar reconhecimento. “Falta um pouco mais de posicionamento, um pouco mais de abertura. Eu sinto que isso aqui pode fazer com que a gente tenha mais espaço”, diz.

“Estamos vindo da caravana do Pará, do município de São Domingos do Capim, com 43 mulheres”, conta Rosiane da Silva à reportagem d’AzMina. A ativista ficou acampada na Granja do Torto, casa de campo oficial da Presidência da República, onde faltou energia elétrica durante a noite chuvosa. Ela conta que o grupo já sabia que enfrentaria obstáculos pelo caminho, mas que isso não impediu a viagem. Elas finalizam a entrevista dizendo “Viva o Pará!”, sabendo que representam ali tantas outras que não puderam estar presentes. 

Nordeste e internacional 

Da Serra Grande, no sul da Bahia, Camila Varela, de 36 anos, fala sobre a dificuldade de mobilizar mulheres para uma jornada de três dias. “A gente sustenta o país, sustenta o mundo, sustenta nossas famílias, então sair três dias assim é complicado.” 

Grupo de mulheres negras marcha em avenida, muitas com camisetas amarelas. Na 1ª fileira, elas carregam uma grande faixa branca com o logotipo e o texto “Marcha das Mulheres Negras — Comitê Território Litoral Sul da Bahia”, ladeada por símbolos gráficos em marrom/laranja. Atrás, mais pessoas com cartazes e bandeiras coloridas (ex.: “Povo Negro Vivo e Livre”), árvores e prédios ao fundo sob céu nublado. Clima de mobilização, organização e orgulho.
Mulheres do Sul da Bahia passaram três dias viajando – Foto: Jane Fernandes

Ela aponta que essa é uma das reivindicações centrais do movimento: criar condições para que mães, mulheres com deficiência e idosas possam participar plenamente, garantindo que todas as vozes sejam representadas. Cada núcleo regional fez uma mobilização de meses para conseguir recursos e viabilizar a viagem com alimentação, conforto e segurança.

Para Camila, a marcha é um momento raro e potente de reunião das mulheres negras em um contexto sociopolítico tão desafiador. “É difícil a gente se reunir para reivindicar nossas demandas próprias. Já me emocionei várias vezes com essa potência da gente junto. Eu espero que isso vá para políticas públicas que sejam realmente efetivas na nossa vida”, afirma.

Mulheres marcham em avenida larga segurando um grande banner bicolor (verde e azul-claro) com o texto: “AFRODESCENDENCIA ES LUCHA Y RESISTENCIA”. À esquerda do banner, há um símbolo de punho erguido combinado ao símbolo feminino. No canto inferior direito, lê-se “MIZANGAS – Movimiento de Mujeres Afro”. As participantes usam roupas e turbantes coloridos; ao fundo, mais pessoas com faixas, tambores e bandeiras. Céu nublado e prédios ao fundo.
O coletivo uruguaio Mizangas existe há 20 anos – Foto: Jane Fernandes

Essa união e mobilização, inclusive, ultrapassaram fronteiras. Do Uruguai, Serrana Silva, de 33 anos, integra o Mizangas Movimento de Mujeres, um coletivo de mulheres que existe há 20 anos e pratica o Kandombe, uma dança e ritmo de tambores afro-uruguaio. O grupo, formado por 30 mulheres, desenvolve ativismo antirracista no país e viajou especialmente para se juntar à marcha em Brasília. 

“Todas as mulheres negras têm que estar juntas. Se nós não estamos livres, ninguém estará livre”, afirma Serrana, demonstrando que a luta une mulheres negras em toda a América Latina.

Projeto de sociedade 

As participantes apontam que um maior investimento público poderia ter facilitado a logística e ampliado a participação na marcha, que acontece em um momento importante para o movimento de mulheres negras no Brasil. As pautas levadas a Brasília nesta terça-feira buscam enfrentar violências estruturais e construir um projeto de sociedade que garanta reparação histórica e condições dignas de vida. 

Apesar de todas as adversidades, as mulheres que chegaram a Brasília carregam consigo não apenas suas demandas, mas a certeza de que estão escrevendo um capítulo importante na história da luta antirracista no Brasil. Como diz Luany, é um orgulho estar presente. “Se fosse pelos nossos municípios, não estaríamos aqui. Mas estamos contradizendo todas as estatísticas.”

* pediu para não ser identificada.

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