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“O BBB mostrou que quando é uma pessoa branca que fala sobre feminismo, as pessoas ouvem mais”

Mestre em direito e doutoranda em sociologia, Winnie Bueno comenta no Twitter debates acadêmicos com a mesma naturalidade com que fala das polêmicas do Big Brother
por Letícia Ferreira
23 de abril de 2020

Quando liguei para Winnie Bueno para repercutir as discussões dessa edição do Big Brother Brasil (BBB), ela atendeu ao telefone animada, ouvindo uma das lives mais aguardadas dessa quarentena, a do Raça Negra.

Mestre em direito e doutoranda em sociologia, Winnie é uma intelectual negra que comenta debates acadêmicos com a mesma naturalidade com que fala de polêmicas de reality shows. “Eu gosto de reality show, eu sempre gostei. Eu assisto reality show até de carga de caminhão”, diz.

Isso explica seu sucesso nas redes sociais, principalmente no Twitter, onde tem quase 90 mil seguidores. Por lá, um de seus assuntos mais recorrentes tem sido a atual edição do BBB, marcada por discussões sobre feminismo e racismo.

“O discurso feminista apareceu com mais destaque porque veio de pessoas brancas. E isso está relacionado com o racismo. Quando o corpo que fala sobre feminismo é um corpo branco, as pessoas têm mais disposição em assimilar esse discurso”, diz.

Longe dos amigos por conta do isolamento social do coronavírus, Winnie tem usado a rede social para comentar o BBB em tempo real, como se eles estivem com ela no sofá de casa. Nos comentários, ela usa sua vivência e conhecimento sobre racismo e feminismo negro para “traduzir” os comportamentos dos participantes do BBB para situações que vivemos no dia a dia, mas que nem sempre nos damos conta.

“É mais fácil engajar as pessoas com o que elas estão vendo na televisão do que contar a minha própria história. Porque quando a gente conta a nossa própria história, em especial as pessoas negras, é comum as pessoas entenderem como vitimismo.”

Winnie Bueno (Foto: Marília Dias)

É também no Twitter que ela faz um ação inspirada por sua avó, que é uma leitora apaixonada. Com a Winnieteca, ela criou uma espécie de “Tinder dos livros”, uma rede que conecta pessoas negras que precisam de um livro com outras que estão dispostas a doar, com o apoio do Geledés – Instituto da Mulher Negra e do próprio Twitter Brasil.

Em entrevista à Revista AzMina, Winnie comenta como o feminismo e o debate de raça estão presentes no BBB e como eles se traduzem nas redes sociais. Confira os principais trechos do bate papo:

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AzMina: Por que você começou a comentar o BBB nas suas redes sociais?

Winnie Bueno: Eu uso o Twitter com frequência e a questão da quarentena transformou a rede em uma forma de comunicação primária pra mim, é onde eu interajo com as pessoas, com os meus amigos que estão isolamento social e me passa muito a sensação de estar conversando com as pessoas.

Eu sempre usei as redes muito assim, pra comentar reality show, tapete vermelho de Oscar, essas coisas. A interação das pessoas com esse conteúdo no Twitter é melhor do que nas outras redes sociais. No caso do BBB, eu escolhi um participante favorito, o que mudou ao longo do tempo, e isso acabou criando uma dinâmica com outras pessoas que também têm este participante como favorito.

Revista AzMina: Você vê uma mudança no programa ao longo dos anos?

Winnie Bueno: São 20 anos de programa. Reality shows tentam, de certa forma, captar algum aspecto da vida real. Em 20 anos a vida mudou muito. No BBB, muitas coisas mudaram, mas outras permanecem como 20 anos atrás. Por exemplo, a presença de pessoas negras, LGBTIs, pessoas com deficiência no programa. Elas seguem o padrão de 20 anos. É uma presença inexistente ou insuficiente.

A questão do voto na internet acabou piorando a interação do programa, porque você pode votar milhares de vezes, mas o que vai definir o resultado vai ser o engajamento do fandom [diminutivo da expressão em inglês fan kingdom, que significa “reino dos fãs”, um grupo de pessoas que são fãs de uma mesma coisa] e a participação maior ou menor de adolescentes nesse fandom. Eles não refletem necessariamente a preferência do público.

As provas ainda são organizadas pouco preocupadas com a diversidade de corpos, porque a maioria do elenco tem uma aparência considerada comercial, branca, magra, o que reflete a maneira como a sociedade se organiza. Se você é uma pessoa obesa que vai almoçar em uma área de alimentação, você não vai ter onde sentar.

AzMina: Você e a Tia Má são pessoas que contextualizam questões do programa com a experiência da sociedade fora do reality show. Qual é o seu papel neste sentido?

Winnie Bueno: No que diz respeito à questão racial e a questão de gênero, você precisa traduzir questões que estão no cotidiano para a realidade, porque, da minha parte, traduzir conteúdo teórico tendo o entretenimento como ferramenta facilita a compreensão das pessoas sobre essas dinâmicas.

Você vai falar de algo que é muito recorrente para a comunidade negra, que é a localização compulsória do corpo negro como um corpo agressivo, por exemplo. Talvez as pessoas que não passam por essa realidade não entendam. É mais fácil engajar as pessoas com o que elas estão vendo na televisão do que contar a minha própria história. Porque quando a gente conta a nossa própria história, em especial as pessoas negras, é comum as pessoas entenderem como vitimismo.

E é o que tem acontecendo muito com as narrativas atreladas ao Babu. Isso pra mim tem sido interessante para as pessoas verem que acontece na sociedade e às vezes a gente nem se dá conta.

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AzMina: O debate do feminismo foi aceito com mais facilidade do que o do racismo pelo público?

Winnie: Gisele e Marcela tinham a pauta feminista muito centralizada, principalmente a Marcela com o sagrado feminino, que eu nem considero uma questão feminista. O discurso apareceu com mais destaque, porque elas são pessoas brancas. E isso está relacionado com o racismo. É muito mais fácil as pessoas se engajarem com o discurso de conhecimento de uma pessoa branca do que com o discurso de conhecimento de uma pessoa negra.

Quando o corpo que fala sobre feminismo é um corpo branco, as pessoas têm mais disposição em assimilar esse discurso. E não é porque as pessoas são ruins, elas ouvem mais pessoas brancas do que pessoas negras porque assim foi ensinado. A produção de conhecimento de pessoas brancas tem um peso maior do que o conhecimento produzido por pessoas negras e isso tem impacto na forma como as pessoas vão assimilar esses discursos.

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AzMina: Mulheres sempre tiveram questões com o programa. A Fani (da edição BBB7) ficou sem remédios antidepressivos, o programa expôs a bulimia de uma participante, a Gleice teve sua aparência questionada e a união entre as mulheres teve um papel importante no início dessa edição. Há uma mudança no protagonismo feminino no programa?

Winnie Bueno: Acho que tem um avanço da pauta feminista, mas é um protagonismo feminino muito branco. Isso ficou muito enunciada na trajetória da Marcela e da Gisele, quando a Thelma sempre esteve com elas, mas não foi elevada a esse lugar de ícone feminista. É uma espécie de feminismo muito mercadológico, de venda de curso, de produtos para o empoderamento.

Você tem outra dinâmica na presença das mulheres e na maneira que elas são lidas em reality shows, mas, ao mesmo tempo, existe uma experiência do que é ser mulher que se pretende universal, o que não é. A maioria das mulheres no Brasil e ao redor do mundo não são como a Marcela e a Gisele.

É importante que as pessoas levem a sério nos aspectos da vida cotidiana a voz das mulheres e o lugar de onde elas trazem suas reivindicações – e a gente questiona quais mulheres têm suas reivindicações apoiadas. Essas são reflexões importantes para fazer além desse programa.

Winnie está na torcida pelo vitória do ator Babu Santana no BBB20 (Foto: Marília Dias)

AzMina: Nos últimos anos o BBB parece ter apostado em perfis de pessoas mais próximas dos debates políticos do nosso tempo, como gênero e raça. O que você vê nos personagens ali?

Winnie Bueno: Eu acho que toda questão está muito relacionada com o racismo. A gente enxerga muito facilmente a Gabi e o Rodrigo associados ao debate racial, mas existia todo um discurso de gênero organizando esses componentes. Sobretudo no caso da Gabi, com a pauta LGBT, mas isso não aparece, porque como são pessoas negras você consegue ver a questão racial, e esses debates foram ocultados do programa passado.

Nesta semana, houve uma conversa sobre uma participante do BBB19 que ganhou e tinha várias falas racistas. A Rafa, que está na casa, disse que as pessoas não tinham paciência para ensiná-la. Isso não é verdade. Quem assistiu o programa sabe que a Rízia, a Gabi e o Rodrigo se posicionaram de forma muito clara e paciente para deixar explícitos os problemas das falas preconceituosas que ela tinha.

E teve isso, mas não foi lido dessa maneira pelo público aqui fora. Rodrigo tem uma trajetória incrível, tanto no seu trabalho quanto com o compromisso ativista mesmo, mas era lido como um cara chato, como um palestrinha.

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AzMina: Muitas participantes desta edição se desculparam por suas colocações racistas. Isso é suficiente?

Winnie Bueno: Não é suficiente, porque as desculpas são individuais, a pessoa não está convencida de que o seu comportamento foi violento. Nunca é “eu queria pedir desculpas a todas as pessoas que eu magoei, que eu feri com o meu comportamento racista”. As desculpas são capengas e as pessoas acolhem rápido o racista.

Pensa bem, você está num programa e a narrativa que está colocada é que você foi racista, não dá para pedir desculpas se… Você precisa refletir sobre como você se refere a pessoas negras, quais estereótipos reproduz. Elas saem, têm o mesmo comportamento e ganham dinheiro. Isso não é só com o Big Brother, está presente em várias situações. Não existe um constrangimento.

Entender a complexidade desse sistema de dominação que é o racismo está longe das pessoas brancas. Elas podem ler de forma comprometida, tem um monte de gente pra indicar leitura, cursos, e mais do que isso, elas podem refletir sobre o que acontece que elas não se dão conta. Mas isso expõe questões de ego que as pessoas não estão dispostas a transpor. É necessário ter um compromisso.

AzMina: Casos de racismo e intolerância religiosa aconteceram no programa e a produção geralmente não interfere. Qual é a mensagem que fica para o público?

Winnie Bueno: Tem algumas questões do programa que deveriam ser conversadas com os participantes antes. Tem um mínimo de ética de relacionamento que precisa ficar bem explícito, sobretudo nas questões de racismo que claramente não fica.

E também é um reality show de convivência. As pessoas são racistas no cotidiano fora da televisão, mas cabe ao público ter repulsa a esses comportamentos na sua interação com o programa, do que o programa em si. O que o BBB deveria fazer é não cercear conversas sobre a violência racial. Nessa edição ficou mais evidente, mas não é sempre que isso acontece.

Esse BBB é muito diferente na questão racial, mas a palavra racismo nunca foi citada no programa, porque ainda existe no Brasil uma dificuldade de usar esse termo e de identificar o comportamento racista. As pessoas entendem o racismo como a conduta criminal. Ele é uma conduta criminalizada, mas não significa que outras posturas não sejam racistas porque não são crimes.

É um tema que fica difícil de ser compartilhado de maneira mais clara, é diferente do conteúdo machista que as pessoas conseguem identificar com mais facilidade nesse momento. E isso tem a ver com a repercussão dos debates feministas no presente. Para a questão racial ganhar mais espaço, as pessoas brancas vão ter que pensar nos seus comportamentos racistas.

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AzMina: O público apelidou algumas participantes de “fadas sensatas” pelas suas posturas, o que mudou ao longo do programa. O que você acha deste termo?

Winnie Bueno: Tem uma coisa muito peculiar nessa geração nova, nos adolescentes de agora, que é uma tentativa de mitificar o sujeito. E esses termos também são dinâmicos. Agora é fada sensata e daqui a pouco já se transforma em outra coisa.

Para mim, isso é ruim, porque você acaba cobrando uma espécie de perfeição das pessoas que é muito desumanizante. Pessoas são pessoas. E quando elas frustram suas expectativas, você gera uma política de ódio, de silenciamento que é muito nociva. Eu acho ruim qualquer narrativa que afasta as pessoas da sua humanidade. E quando a gente entra nessa de fadas, acontece muito isso. É perigoso.

AzMina: A Thelma viveu muitas fases durante essa edição. Pertenceu a um grupo, foi deixada de lado, defendeu o Babu, que era constantemente rejeitado, encontrou novas parcerias e foi muita questionada pelas escolhas entre amizade e uma aliança racial que poderia fazer. Qual é o lugar dela?

Winnie Bueno: As pessoas precisam entender que pessoas são pessoas. É injusto comparar comportamentos e expectativas que são suas. É um programa sobre isso, julgar as decisões das pessoas, mas estabelecer uma narrativa de traidora enquanto não teve um momento explícito em que a Thelma disse que votaria ou não em alguém, é só ataque. Ela falou que existia uma questão de representatividade com o Babu, e levou isso até onde achou que deveria.

Esse não é o problema central. Independentemente de qualquer escolha, a Thelma seria julgada, mas esse julgamento é mais incisivo porque é de uma pessoa negra que a gente está falando. Esse papel da Thelma revela o quanto mulheres negras facilmente são julgadas. E eu vejo isso até na minha experiência comentando o programa. Tem mulheres negras com outros posicionamentos que são tão atacadas quanto eu. O problema não é o ponto de vista, mas os sujeitos que estão se posicionando.

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AzMina: Babu é um grande protagonista do BBB20. Ele é um personagem rico pela rejeição, pela humanização que ele ajudou a trazer para o Prior. O medo de se aproximar que as mulheres mais politizadas tinham dele. A capacidade de expressão que o Babu tem para falar sobre temas críticos sem usar termos que afastam as pessoas. Por que ele é um personagem tão complexo?

Winnie Bueno: A questão do afeto na trajetória do Babu no jogo é uma questão crucial. As relações afetivas e o compromisso com a questão racial. Na hora que o calo apertou, que ele acabou discutindo com o seu principal parceiro que era o Pior, ele não votou. Ele tinha a amizade da Rafa. Com a Thelma, além disso, a questão racial. Ele dizia com frequência que ela era a única mulher negra do programa. Isso fez com que crescesse a figura do Babu no jogo.

Esse compromisso afetivo e político, mesmo com todos os seus deslizes, gera uma empatia com o público. Tem um reconhecimento. O Babu não se coloca como uma pessoa perfeita, sensata, ele comete erros. O que nos coloca em uma posição de caráter é a disponibilidade de rever os nossos erros – e isso cria uma identificação das pessoas com ele.

AzMina: Você é muito atacada no Twitter por debater o programa, defender participantes, e por ser uma intelectual que fala sobre um reality show. O que tudo isso trouxe para a sua vida?

Winnie Bueno: Eu passo por violência racial desde muito pequena e é isso, eu aprendi a lidar com isso. Claro que não de forma tão massiva como tomou conta nas redes, mas nas redes existem estratégias para filtrar. Às vezes me irrita, mas o ganho nesse último período com diálogo sobre essas questões com pessoas que eu nunca ia esperar é maior que o hate [ódio]. Você mensura.

Eu recebo muito ataque, mas eu também recebo muitas formas de acolhimento. Eu escolho abraçar a dádiva, o que inspira o projeto de distribuição de livros que eu tenho.É isso. Abraçar a dádiva e circular a dádiva. Eu escolho abraçar esse carinho das pessoas.
Eu sou muito debochada, uso isso como uma ferramenta pra me blindar do ódio na internet. As conversas mais poluídas eu silencio, bloqueio. Existem várias estratégias.

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