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Afinal, o que querem as mulheres negras?

por Thais Folego
25 de julho de 2019
Queremos propor alternativas e soluções. O Bem Viver é uma oportunidade para imaginar outros mundos, um modelo de sociedade com base comunitária. 
bem viver mulheres negras
(Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Após ver postagens minhas nas redes sociais sobre um evento contra a reforma da previdência promovido pela Marcha das Mulheres Negras de São Paulo (MMNSP), um amigo me perguntou: “mas o que as mulheres negras querem no lugar da reforma?”. As mulheres pretas estão conquistando cada vez mais espaço (na mídia, na política, na moda), mas ainda pouco se sabe do projeto de mundo que querem.

A maioria das mulheres pretas já não consegue se aposentar com as exigências das regras atuais. Considerando que estamos sempre entre os piores indicadores de qualquer índice social (pobreza, moradia, mortalidade, feminicídio, violência doméstica, violência obstétrica, estupro, mercado de trabalho, acesso à saúde. A lista poderia seguir), não é difícil imaginar que, enquanto Marcha das Mulheres Negras, somos contra o desmonte das políticas sociais que está em andamento no país

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Mas não estamos apenas na resistência, na posição de quem espera as propostas para dizer: somos contra ou a favor. Nós queremos propor alternativas e soluções. No ato que a Marcha fará em São Paulo neste 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e o Dia de Tereza de Benguela, sairemos às ruas para apresentar e defender o nosso projeto de mundo (haverá marchas de mulheres negras também em Salvador, Rio e Belém).

Nosso projeto de mundo é baseado no Bem Viver, filosofia indígena que propõe uma outra forma de organização social e práticas políticas. O Bem Viver é uma oportunidade para imaginar outros mundos, como bem define o economista Alberto Acosta, um dos teóricos do conceito. É uma alternativa forjada no calor das lutas indígenas e populares, contrária ao acúmulo de capital e suas relações de opressão. No lugar, propõe um modelo de sociedade com base comunitária. 

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A Marcha tem sido um laboratório do Bem Viver na minha vida. Com uma estrutura absolutamente caótica para os padrões ocidentais e capitalistas de uma organização, ela acolhe as mulheres mais diversas que já conheci. Mulheres diversas e infinitas em suas existências. Tão infinitas que cabem no caos.

Na Marcha descobri e tenho vivido um tempo diferente. O tempo das coisas. Que não é o meu tempo, não é o tempo do capital, nem das horas do relógio. É o tempo que as coisas precisam para ficarem prontas. E cada coisa tem seu tempo, não adianta apressar ou ficar ansiosa. Vai ficar pronto quando estiver pronto.

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Tá muito doida essa conversa? Então vou dar um exemplo. A Marcha é uma organização absolutamente orgânica, sem dona, sem hierarquia, sem estrutura jurídica, sem financiamento. Então tudo é decidido no coletivo e, sempre que possível, na formação de um consenso. Pensa resolver coisas em reuniões com 50 mulheres por meio do consenso. Pensou? Pois é: caos. 

Para colocar o bloco na rua no dia 25 de julho de cada ano, com milhares de pessoas parando as movimentadas ruas do centro de São Paulo, são necessárias infinitas reuniões de organização, encontros de formação política, eventos para arrecadar dinheiro, produção de uma infinidade de materiais de comunicação e divulgação e uma série de burocracias com órgãos do governo da cidade para obter autorização para usar o espaço público (porque sei lá quando a rua deixou de ser das pessoas, né?).

Como pessoa controladora que sou, quando cheguei na Marcha no ano passado pensei: isso não vai dar certo, o ato não vai sair. Faltava um mês para ele acontecer e parecia que nada estava pronto – isso do meu modo de pensar que naquela época tava mais parecido com o da Marie Kondo. 

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Mas o ato saiu. Lindo e potente. Porque ele levou o tempo dele para ficar pronto. E ficou pronto pelas mãos de cada mana preta que o construiu da maneira possível. E o conceito de “possível” das mulheres negras, que têm tecnologias ancestrais de resistência e sobrevivência, é uma coisa que às vezes parece de outro mundo. Mil vezes melhor do que o ISO 9000 (aquele sistema de gestão de qualidade que as empresas usam, sabe?).

Aí esse ano eu decidi fazer o que no processo de construção da Marcha? Curtir a viagem. Abracei e beijei cada mana em cada encontro. Olhei nos olhos. Troquei afeto, vivências. Abracei o caos. Não olhei no relógio. Não sai correndo. Vivi bem. Aprendi e vivi um pouquinho do Bem Viver.

Vem marchar com a gente!

Serviço Marcha das Mulheres Negras

São Paulo
Mote: “Sem violência, racismo, discriminação e fome! Com dignidade, educação, trabalho, aposentadoria e saúde!”
Data: 25 de julho (quinta)
Horário: Concentração às 17h30, saída em marcha às 20h
Local: Praça da República – Centro de São Paulo

Salvador
Mote: “Por uma Bahia livre do racismo”
Data: 25 de julho (quinta)
Horário? 13h
Local: Praça da Piedade

Belém
Mote: “Mães negras amazônidas em luta contra o genocídio do povo negro”
Data: 25 de julho (quinta)
Horário: 16h
Local: Avenida Rio Tucunduba

Rio de Janeiro
Mote: “Mulheres Negras resistem: em movimento por direitos, contra o racismo, o sexismo e todas as formas de violência”
Data: 28 de julho (domingo)
Horário: 10h
Local: Posto 4 da Praia de Copacabana


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