“Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços.” A frase foi dita em novembro de 1945, por uma mulher negra, filha de lavadeira, que havia chegado ao parlamento onze anos antes. Naquela época, a maioria do país ainda acreditava que ali não era o lugar de mulheres, nem de negros ou pobres. Antonieta de Barros não acreditou.
Ela nasceu em 11 de julho de 1901, em Florianópolis (SC). Filha de Catarina e Rodolfo de Barros, cresceu na pobreza. Após a morte do pai, quem sustentou a casa foi a mãe, lavadeira. Antonieta foi a primeira da família a concluir o ciclo escolar completo: aos 17 anos, ingressou na Escola Normal Catarinense — atual Instituto Estadual de Educação. Aos 21, fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, voltado à alfabetização, que dirigiu até o ano de sua morte.
Era 1922. O Brasil ainda não permitia que mulheres votassem.
Uma mulher negra na imprensa da época
Antes de chegar à Assembleia Legislativa, Antonieta já havia ocupado outro espaço que “não era para ela”: as páginas dos jornais. Assinou crônicas nos jornais República e O Estado, frequentemente sob o pseudônimo “Maria da Ilha”. Ela escreveu sobre educação, política, relações de gênero, civilidade e resistência. Em 1937, reuniu esses textos no livro Farrapos de Ideias — reeditado em 2022 pela Skrip Editora e hoje em domínio público.
A pesquisadora Renata Aparecida Paupitz Dranka, que analisou crônicas de Antonieta no trabalho “História, gênero e trajetórias biográficas”, identificou, em entrevista ao Geledés, a posição singular que ela ocupava. “Quem diz ‘à margem’ é negra, então está à margem, mas o seu lugar não é à margem, pois é ela, Antonieta de Barros, quem escreve. Na época não havia lugar para o discurso das mulheres, principalmente mulheres negras, que sim eram faladas. Mas a posição de Antonieta de Barros é de destaque, pois falava publicamente”, afirmou.

“Se o trabalho é o mesmo, por que se depreciar o esforço feminino, ou explorá-lo, pagando menos?“, escreveu Maria da Ilha em maio de 1932. No mesmo ano em que as mulheres brasileiras finalmente conquistaram o direito de votar e serem votadas, ela já denunciava a desigualdade salarial de gênero.
Em 1922, Antonieta também fundou e dirigiu o jornal A Semana, e em 1930 a revista quinzenal Vida Ilhoa. Ela era primeira secretária da Liga do Magistério e integrante do Centro Catarinense de Letras, circulando em meio às elites intelectuais de Florianópolis, sem jamais se tornar ornamento desses espaços.
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A primeira deputada negra do Brasil
Em 1934, Antonieta de Barros foi eleita deputada estadual em Santa Catarina pelo Partido Liberal Catarinense (PLC). Poucos anos após as mulheres conquistarem o direito de exercer mandatos no Brasil, ela foi a primeira mulher negra eleita em todo o país.

Em julho de 1937, chegou a presidir sessões da Assembleia Estadual — feito registrado pelo jornal A Notícia na época. O Estado Novo de Getúlio Vargas interrompeu seu percurso na política, que foi retomado após a redemocratização de 1945. Em 1947, Antonieta foi reeleita pelo Partido Social Democratico (PSD).
“É algo extraordinário, inédito“, afirmou a pesquisadora Karla Leonora Dahse Nunes, doutora pela UFSC ao Geledés, que dedicou sua dissertação de mestrado à trajetória de Antonieta. Para Karla, o fato de uma mulher negra ter penetrado no campo político quando as oligarquias catarinenses revezavam-se no poder e a política era vista como “coisa de homem” torna sua história singular.
Na cadeira de deputada, Antonieta não esqueceu de onde veio. Ela é a autora da Lei Ordinária nº 145, de 12 de outubro de 1948, que instituiu o Dia do Professor em Santa Catarina. A data acabou se tornando referência nacional para a valorização da categoria.
Mulheres negras seguem sub-representadas na política
Quase noventa anos após a eleição de Antonieta de Barros, os números do Congresso brasileiro mostram que a representatividade feminina e negra na política segue sendo minoria. Segundo matéria do G1, em 2022, o Brasil elegeu um número recorde de mulheres e negros para a Câmara dos Deputados: 91 deputadas federais e 135 parlamentares negros — pardos e pretos.
A representação segue muito abaixo da proporção da população: 55,5% dos brasileiros se autodeclaram pardos ou pretos; e as mulheres são 51,5% da população. Na Câmara, um em cada quatro deputados federais é negro. A cada seis parlamentares, em média, apenas um é mulher. Somente 29 mulheres negras foram eleitas em 2022, mais que o dobro de 2018, quando foram 13. Ainda assim, elas representam menos de 6% das 513 cadeiras.
Em Santa Catarina, estado natal de Antonieta de Barros, o cenário é ainda mais grave. Nas eleições de 2022, apenas três mulheres foram eleitas entre os 40 deputados estaduais da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) — 7,5% das vagas. O número coloca o estado entre os quatro com menor representação feminina nas assembleias de todo o país, segundo levantamento do G1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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O legado de Antonieta de Barros na educação e na política
“Cada ser é um mundo completo, com as suas leis e as suas obrigações“, Antonieta escreveu em janeiro de 1933. E em março do mesmo ano: “Luta-se e morre-se por um ideal. (…) mas não se deixam morrer, matar, assim, animalmente, pelos ideais alheios.” Ela morreu em 1952, aos 50 anos, por complicações da diabetes.
Hoje, o rosto de Antonieta está em murais no centro de Florianópolis, em escolas, em auditórios e em medalhas da Câmara de Vereadores. A Universidade Federal de Santa Catarina concedeu-lhe, em 2021, o título póstumo de Doutora Honoris Causa — iniciativa das pesquisadoras Joana Célia dos Passos, Eliane Debus e Patrícia de Moraes Lima.
Em 2023, o nome dela foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que fica no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. Naquele ano, o livro tinha 64 nomes e apenas 13 eram mulheres.


A ALESC mantém o Programa Antonieta de Barros (PAB), política pública de ação afirmativa que articula estágio, educação e trabalho para jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Mas o Brasil segue devendo educação como direito, a equiparação salarial entre homens e mulheres, e espaço político para quem sempre foi colocado do lado de fora.
“Foi a revolução quem deu à mulher o direito de ter cérebro, de deixar de ser sombra da criatura e ser a própria criatura“, ela escreveu em outubro de 1934. Noventa e dois anos se passaram desde então. A frase ainda não expirou.