logo AzMina

Câmaras e assembleias multiplicam projetos para obstruir acesso ao aborto legal no Brasil

Pesquisa da ARTIGO 19 mostra que ofensiva legislativa ameaça direito garantido no país que tem muitos serviços, mas nem sempre oferece aborto seguro

Nós fazemos parte do Trust Project

Uma ofensiva antiaborto avança de forma silenciosa nos bastidores do poder em todo o Brasil. Nas assembleias legislativas dos estados e nas câmaras municipais, projetos de lei (PLs) se multiplicam com um objetivo comum: dificultar o acesso ao aborto legal – já previsto em lei – e calar qualquer informação sobre esse direito.

Esse panorama foi revelado pela pesquisa “Mapa do Aborto Legal: Direitos reprodutivos na encruzilhada da informação”, lançada pela ARTIGO 19 Brasil e América do Sul, construída no âmbito do projeto Aborto e Democracia, em parceria com o Instituto AzMina. O estudo analisou a atividade legislativa em 26 estados e 111 municípios e encontrou 193 projetos de lei relacionados ao tema.

Não dá conta de acompanhar as notícias? Deixe que a gente te ajuda!

Feminismo bem informado

Os números mostram o tamanho da ofensiva: 40% desses PLs têm o objetivo de obstruir o acesso ao aborto legal; e 48% procuram dificultar a circulação de informações sobre o procedimento. Nos municípios, esse foco é ainda mais explícito: 66% dos 91 projetos analisados tentam bloquear o acesso à informação sobre o direito ao aborto nos casos previstos em lei.

Leia Mais: Vereadores pelo país tentam barrar o acesso ao aborto legal

Atualmente, o aborto é permitido no Brasil em casos de gravidez resultante de estupro, risco à vida da mulher e fetos com anencefalia. Mas mesmo com suporte do Código Penal e da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), é comum que mulheres, meninas e outras pessoas que gestam encontrem inúmeras barreiras para acessar esse direito. Cinco reportagens publicadas em setembro e outubro deste ano pelo projeto Aborto e Democracia mostraram essas dificuldades enfrentadas em cada uma das regiões brasileiras. A série de conteúdos foi produzida por AzMina, Paraíba Feminina, Portal Catarinas e Nós, Mulheres da Periferia.

Clichês escondem censura e intimidação

O texto dessas propostas, muitas vezes, apresenta tais medidas como “proteção à vida” ou “defesa da família” – clichês dos políticos antidireitos – o que tenta esconder a censura e a intimidação às pessoas que gestam. 

Entre os projetos identificados há aqueles que determinam a fixação de cartazes antiaborto em unidades de saúde, frequentemente com conteúdos desinformativos. Outro exemplo está nos PLs que proíbem o uso de telemedicina para aborto legal, mesmo em situações em que a distância geográfica torna esse recurso essencial

A pesquisa mostra que a disputa pelos direitos reprodutivos acontece em diferentes níveis de poder – mesmo que a legislação diretamente aplicável ao tema seja federal. Os parlamentares contrários atuam também nas cidades e estados, numa guerra de narrativas em que o silenciamento também é uma arma.

Quem o sistema apaga

Embora o acesso ao aborto legal nem sempre aconteça de forma simples e rápida para qualquer pessoa que busque o serviço, alguns grupos encontram ainda mais dificuldades, exatamente por não serem vistos. É o caso das pessoas transmasculinas e não-binárias, que podem engravidar, portanto também têm direito ao aborto legal. 

A pesquisa “Mapa do Aborto Legal: Direitos reprodutivos na encruzilhada da informação” mostra que essas pessoas praticamente não existem para o sistema de dados em saúde. As bases federais não incluem identidade de gênero como categoria, o que impede qualquer diagnóstico consistente sobre acesso ou barreiras específicas. 

Nos contatos com os serviços de saúde, a equipe da ARTIGO 19 encontrou respostas evasivas, constrangimento e falta de protocolos para orientar o acolhimento de forma respeitosa e adequada. O resultado é um atendimento marcado pela cisnormatividade e pela invisibilização de corpos, que acabam empurrados para a clandestinidade ou silenciados.

Leia Mais: Aborto e Democracia

Número de serviços é maior, mas concentração regional se mantém

Apesar do Mapa do Aborto Legal de 2025 ter identificado um número maior de serviços de saúde para a interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, a distribuição geográfica faz com que o acesso seja bastante restrito em algumas partes do país. 

Vale dizer que houve mudança na metodologia do mapa e isso fez com que mais serviços fossem registrados na interface digital. A ARTIGO 19 incluiu os níveis de confirmação (federal, estadual e municipal) apurados pela equipe para cada hospital cadastrado no sistema nacional para realização do aborto legal. 

Dos 416 hospitais habilitados, 172 ficam na região Sudeste, o que corresponde a 41% do total. Somadas, as regiões Norte e Centro-Oeste têm apenas 69 serviços de aborto legal, para uma população de mais de 35 milhões de pessoas espalhadas em quase 5,5 milhões de quilômetros quadrados. O projeto Meninas Mães da Revista AzMina mostrou que as maiores taxas de fecundidade entre meninas de 10 a 14 anos estão nos municípios mais distantes dos serviços de aborto legal

A pesquisa da ARTIGO 19 também revelou grandes lacunas de informação, afinal, para usar um serviço é preciso saber da existência dele e as formas de acessá-lo. A equipe identificou uma discrepância gigantesca entre as principais bases federais de dados em saúde, como CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde) e DataSUS. Isso dificulta até mesmo o mapeamento da rede de atendimento. 

Falta transparência nas secretarias de saúde e nos serviços

A falta de transparência se repete nos estados: cerca de 63% dos sites das secretarias estaduais de saúde não têm informações sobre os serviços habilitados para aborto legal. A equipe envolvida na pesquisa também se deparou com o descumprimento da Lei de Acesso à Informação (LAI) em 12 unidades federativas, com respostas negadas ou atrasadas aos pedidos.

A informação não é apenas um direito administrativo; é uma condição fundamental para a democracia e para que o aborto legal seja, de fato, um direito exercido, e não um privilégio de quem consegue recorrer à esfera privada”, analisa Maria Tranjan, responsável pelo projeto e coordenadora de Proteção e Participação Democrática da ARTIGO 19.

Outra face da falta de acesso à informação foi revelada nos contatos telefônicos com 164 hospitais listados como serviços de aborto legal. Em 36 unidades, a equipe da pesquisa se deparou com a recusa em fornecer qualquer informação sobre o procedimento. As conversas registradas mostram profissionais de saúde operando em um contexto de medo de perseguição moral e ideológica, o que fragiliza a proteção do direito e o atendimento em saúde.

Para ampliar o combate à desinformação, a ARTIGO 19 Brasil e América do Sul lançou também a cartilha “Aborto Legal: um guia para quem precisa acessar ou conhecer o direito, profissionais de saúde e ativistas”. O objetivo é compartilhar informações acessíveis sobre o direito ao aborto legal no Brasil e as estratégias de reação em casos de negativa do procedimento ou de tentativa de silenciamento sobre o assunto. 

Mais do que reunir e organizar informações, esses produtos são resultados de uma extensa pesquisa que checa e cruza dados públicos sobre os serviços de saúde listados para oferecer o aborto legal, buscando compreender as brechas no oferecimento de informações sobre o direito pelo Poder Público“, explica Maria Tranjan.

Leia mais: Abortonobrasil.info

*Edição: Jane Fernandes e Joana Suarez / Artes: Lory Costa

Faça parte dessa luta agora

Tudo que AzMina faz é gratuito e acessível para mulheres e meninas que precisam do jornalismo que luta pelos nossos direitos. Se você leu ou assistiu essa reportagem hoje, é porque nossa equipe trabalhou por semanas para produzir um conteúdo que você não vai encontrar em nenhum outro veículo, como a gente faz. Para continuar, AzMina precisa da sua doação.   

APOIE HOJE