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25 de setembro de 2015

Meu punhadinho (sem nome) de gente

Se não somos mais uma família, somos o quê?

E uma chuva de horror tomou conta de mim, da minha esposa e, pelo que vejo na internet, de muitas outras existências nesta quinta. Eis que em meio a minhas leituras diárias, salta sobre mim, esbugalhando meus olhos, uma chamada que diz “Aprovado estatuto que define como entidade familiar a união entre um homem e uma mulher” (ponto final!). E lá vou eu testar minha capacidade cognitiva novamente…

Não é tão difícil provar o quão sem nexo e preconceituosa foi essa sessão ocorrida na Câmara ontem (e menos ainda o inescrupuloso resultado regado a nojentas fotos com sorrisos amarelos de vitória de alguns deputados).

O mundo continua girando, minha gente… Somente nos EUA, segundo estimativa da Escola de Direito da Universidade da Califórnia, um milhão de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais criam atualmente cerca de dois milhões de crianças. No Brasil, não há dados confiáveis sobre o número de casais homoafetivos com filhos – biológicos ou adotados – mas, certamente, tal número vem crescendo exponencialmente (as escolas estão aí para comprovar a necessidade de mudança nos formulários dos termos “pai e mãe” para algo mais verossímil como “responsáveis”).

A aprovação de tal estatuto não apenas garante os interesses da bancada evangélica, com uma manobra horrenda, de “cortar as asinhas da comunidade LGBT”, como também deslegitima a atual realidade familiar brasileira (ou todos habitantes do solo brasileiro que cruzam seus caminhos diariamente possuem uma família doriana formada por papai, mamãe e filhinhos? Ora, faça-me o favor!).

De acordo com o estatuto, devo rejeitar como pertencentes a um “verdadeiro núcleo familiar” o meu primo-irmão agregado, meu tio adotado, minha vizinha viúva que criou o neto ou aquele meu amigo solteiro que deu o sangue para ensinar o que é família para seu sobrinho órfão. Não, eles não são uma família.

Veja então a ironia: com o advento do divórcio direto, por exemplo (ou a livre dissolução na união estável) ambos constitucionais e pertencentes a essa mesma Constituição sobre a qual estamos destrinchando o conceito de “família”, vemos demonstrado que apenas a afetividade, e não a lei, mantém unidas as entidades familiares. Pois bem, AFETO! É ele que faz @ [email protected] acordar as cinco da matina para garantir sua sobrevivência e a dos seus. É ele que faz valer a pena lidar com todos os problemas que a convivência com outros homo sapiens debaixo dos mesmos poucos metros quadrados nos traz diariamente. E é ele que segura a barra quando a própria justiça – muitas vezes injusta – não nos auxilia na simples tentativa de exercício do que seria nosso direito.

E é aí que eu me pergunto: é apenas vínculo jurídico ou sanguíneo que vai dar tutela a um punhadinho de gente carimbando-o como família?

Então, minha esposa e eu, casadas legalmente e com projetos de continuidade de geração, devemos aceitar que nosso punhadinho de gente que também divide tarefas, que também se auxilia para o crescimento mútuo, que também supera dificuldades, que também divide e multiplica muito afeto simplesmente não se chama família? Pois bem, se tal conceito se tornar verdade absoluta no Brasil, preparem-se oh autores de dicionários, pois além da mudança na definição do vocábulo “família”, uma nova palavra deverá ser inventada muito em breve para carimbar a grande maioria de punhadinhos de gentes brasileiras…

A Tamy é linguista, educadora, militante LGBT e também revisora d’AzMina. Já trabalhou em diversas conferências, escolas e programas de ensino de renome no Brasil e no exterior, como a formação idiomática de médicos na Universidad de Ciéncias Médicas, de Cuba. É casada (no papel) com Maria Carolina, a quem ama há mais de dois anos e que sempre a traz de volta para a terra. Tamy, libriana típica, tem um pézinho em cada modalidade da arte. Brinca de cantora, de bailarina, de escritora e, mais atualmente, vem explorando sua paixão pela arte de viajar. Justiceira de natureza, adora conversas filosóficas e acredita piamente no potencial transformador do ser humano.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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