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Perdi minha bolsa do FIES e corro risco de não me formar

por Equipe AzMina
16 de julho de 2020
Em resistência pelo meu povo e pela nossa luta, decidi continuar aqui, para me formar, enegrecer e dar um sotaque Nordestino à universidade e ao Direito
Bolsa do FIES
“O tempo é curto, os boletos não dormem e minha situação não só acadêmica está ficando cada vez mais insustentável”. Foto: Arquivo pessoal

Me chamo Lays Araujo, tenho 28 anos. Sou uma mulher negra, retirante nordestina em São Paulo e moradora de periferia desde que nasci e vivo na pele aquilo que é estrutural: empobrecimento constante, marginalização e evasão acadêmica da população negra, em especial das mulheres negras. Faço Direito em uma dessas universidades privadas que são verdadeiras “franquias do ensino”, onde a qualidade do ensino só cai e os preços das mensalidades só aumentam. 

Tive minha bolsa do FIES cortada e me vejo a beira de ter de desistir do meu diploma e ainda sair com uma dívida enorme do curso não concluído. Primeiro preciso dizer que sou uma retirante nordestina em São Paulo por que vim para cá com o intuito de concluir meu grande sonho que é ser uma advogada. Comecei essa jornada em 2013, lá em Salvador, cidade onde morava, usando do FIES. Porém as dificuldades eram muitas: pela falta de mobilidade urbana, minha rotina de deslocamentos entre minha casa, trabalho e faculdade não me permitiam ir além de uma manutenção de uma rotina de baixa de qualidade dos meus estudos, frequentar as aulas fora do horário e tempo para concluir as demandas universitárias. 

Eu trabalhava de domingo a domingo no comércio e meu expediente terminava exatamente na mesma hora do início das aulas e ainda assim precisava atravessar a cidade inteira até chegar lá. Muitos dos dias chegava com um atraso de no mínimo, duas horas na universidade, então tomei uma decisão drástica: já havia me mudado diversas vezes em busca da sobrevivência e fugindo da pobreza, morei em MUITOS dos noves estados do nordeste, dessa vez seria para concluir meu grande sonho, a graduação do ensino superior e a tão sonhada melhoria de vida e de trabalho que até hoje tenho como meta conhecer, como muitos de nós, retirantes nordestinos moradores dessas regiões do não esquecimento por completo das políticas públicas. 

As promessas das regiões Sul e Sudeste não só de renda, bem como a mobilidade urbana, são o grande atrativo que pôde me fazer enxergar as condições necessárias para finalmente atingir meu objetivo: o diploma do ensino superior e meu primeiro emprego de carteira assinada, sonho de uma grande conquista tão grande para todos nós jovens, negros e periféricos

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Chegando por aqui em São Paulo, o primeiro golpe foi ter que começar do zero. Minha nova universidade não aceitou creditar os semestres já feitos, porém a dívida desses 4 semestres iniciados em Salvador continuariam em meu nome. Sabia que era um processo completamente injusto, mas não desanimei, recomecei meu curso também com FIES, com a certeza que daria tudo certo, e por certo tempo deu.

Cheguei ao meu terceiro ano de faculdade, consegui meu primeiro e ótimo estágio em um incrível escritório, onde pude aprender muitas coisas fora e dentro do universo jurídico, meu sincero agradecimento ao Garcia Filho advogados Associados. Entrei em muitas redes de juristas, entre elas a deFEMde – Rede Feminista de Juristas, com o intuito de fazer com que os muros do conhecimento fossem efetivamente rompidos e tudo que eu estava adquirindo de aprendizado fosse útil para ajudar mais e mais pessoas. 

Um dos exemplos disso foi atendimentos para moradores do território em constante periferização  e marginalização da Cracolândia e todo o entorno em um projeto da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, e assim enxerguei mais um grande motivo daquele sonho que carregava desde criança: fazer do meu conhecimento uma fonte de apoio a outras pessoas, sobretudo de mulheres, negros, LGBTs e pessoas em qualquer situação de vulnerabilidade social. 

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E foi nesse momento, em 2018, que mais uma vez um empecilho se colocou no meu caminho, no meu e de mais de milhões de brasileiras e brasileiros: o do desmonte da perda de direitos em curso no nosso país. Perdi meu financiamento estudantil e, como se não bastasse a impossibilidade de continuar com meu curso sem o FIES, com a reforma trabalhista, o escritório onde eu trabalhava, focado quase que exclusivamente na área trabalhista uma das áreas que gosto muito, foi obrigado a adotar uma política de contingenciamento na qual a minha vaga de estágio não era mais viável. 

Sem vínculo com uma universidade não pude também encontrar um outro estágio. Vi-me sem emprego e sem faculdade, e passei um bom tempo totalmente desamparada até arrumar um emprego que hoje paga os gastos básicos e necessários para sobrevivência. E por conta de um acidente grave do chefe da minha família (meu padrasto, pedreiro), precisei chefiar os gastos essenciais de quatro pessoas desde o ano passado. 

Mesmo com tanta dificuldade, foi essa recolocação no mercado de trabalho que parecia renovou minha fé para a conclusão de um sonho já iniciado, e é justamente por isso que não quero me dar por vencida! 

Quero muito retomar meu curso, inclusive esse é o último semestre que tenho para isso, caso não retome os estudos no próximo semestre ficarei apenas com uma gigantesca dívida estudantil de mais de R$40 mil reais referente às etapas já cursadas de dois cursos iniciados e não concluídos.

O tempo é curto, os boletos não dormem e minha situação não só acadêmica está ficando cada vez mais insustentável, uma vez que hoje sou a única e principal renda do meu núcleo familiar. Quero me formar em Direito, devo este diploma à luta de anos da minha família e sinto que posso contribuir muito mais, tanto no Direito como na minha atuação política cotidiana (aliás, uma coisa praticamente não existe sem a outra), permanecendo aqui em São Paulo. 

Pelo menos por enquanto. Peço ajuda com uma vaquinha online porque em tempos de aprofundamento das desigualdades que estamos vivendo, a militância política não é escolha, é necessária e urgente. Precisamos lutar todos os dias para sobreviver. Principalmente nós que somos mulheres, negros e negras, LGBTs e da periferia. 

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Nos movimentos em que atuo, sobretudo o negro, aprendi que a luta por sobrevivência não é só nossa. Devo essa permanência em São Paulo e minha contribuição cotidiana ao lado de movimentos, das mulheres, dos jovens, LGBTs, periféricos a tantos e tantas que acabaram por tombar antes de mim e os que ainda estão por vir. Em resistência pelo meu povo e pela nossa luta, decidi continuar aqui, para me formar, enegrecer e dar um sotaque Nordestino a universidade e o Direito, uma área acadêmica ainda muito elitizada. 

Não vivemos numa bolha, e esse contexto de crise econômica, social e política que vivemos afeta com ainda mais força uma pessoa jovem e que vive na periferia de São Paulo. Quando a gente é mulher negra, nordestina e favelada então, a nossa própria existência está em risco. Sei que tudo isso é de uma responsabilidade imensa. Mas essa decisão minha vai em contramão a tudo o que estou passando, e que é reflexo inevitável do que o país passa e de processos muito bem continuados com as instituições que são herdeiras e detentoras do poder, fruto dos processos de colonização dos nosso ancestrais.

Por isso preciso da contribuição coletiva para ficar aqui, concluir a graduação e poder trabalhar pelo e para os nossos. Quero e não vou desistir de concluir a graduação para poder seguir trabalhando por e para os nossos e utilizar esse diploma, agora mais do que nunca coletivizado, para ser mais um braço no auxílio a tantas pessoas que precisam do Direito como ferramenta de emancipação e não de opressão.

Para apoiar a vaquinha de Lays, clique aqui.

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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