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Não são loucos. É um projeto de poder que violenta meninas

por Helena Bertho
17 de agosto de 2020
Não minimizemos. Grupo rezando na porta de hospital e agredindo menina vítima de estupro é parte de um projeto de poder em marcha há anos no Brasil

Nos últimos dias, vimos acontecer aqui no Brasil cenas de horror tão tristes que poderiam muito bem estar no roteiro da série Handmaid’s Tale. Uma menininha, uma criança, de dez anos, depois de anos de violência sexual por um parente, engravidou – e o Brasil decidiu seguir violentando a criança, numa sequência de atos que beiram o indizível. 

Mas li e ouvi alguns comentários que diziam que as pessoas que foram rezar e revitimizá-la na porta do hospital eram apenas “meia dúzia de loucos”. Acho importante que a gente deixe bem claro que não, não são meia dúzia de loucos e sim parte de um projeto de poder que não enxerga meninas e mulheres como sujeitos portadores de direitos. 

Precisamos dar a devida importância às coisas, porque minimizar o que está acontecendo é fechar os olhos – e a boca – diante de uma estrutura violenta que vem sendo construída há anos e que revitimizou essa garota com enorme crueldade para além de toda a violência do estupro. 

Olhando só para o que houve com ela, já dá para entender que não, não foram alguns doidos que a agrediram na porta do hospital. 

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Foi toda uma sociedade que lida com assombrosos números de violência sexual contra meninas e não encara esse problema de frente. Em 2018, o Brasil teve 66 mil vítimas de estupro. Oito em cada 10 dos casos, as vítimas eram mulheres e quase 54% delas eram meninas de até 13 anos! Em 76% dos estupros, o autor era alguém conhecido da vítima.

Foram quase 30 mil meninas estupradas em um ano (considerando apenas os casos notificados). Acho que podemos concordar que não são 30 mil doentes mentais que cometerem esses crimes, né? Existe por trás disso, por trás do que autorizou o tio dessa garota a abusar sistematicamente dela, uma cultura que constrói a ideia de que os corpos dessas meninas são objetos a serem usados. 

Não à toa, a grande indignação foi com o aborto e não com o estupro. 

E disso resultou uma gravidez. Por lei, ela tinha direito a interromper a gestação. Imagine, uma menina de 10 anos! Nenhum sistema de justiça justo obrigaria uma criança a carregar a termo uma gravidez resultante de um estupro. Pois o sistema de justiça brasileiro quis fazer isso. 

Apesar do direito legal ao aborto, a garota teve seu caso colocado em análise pela justiça do Espírito Santo. E assim, o que já era uma violência desmedida, se transformou em uma sequência de novas e cruéis agressões à garota. 

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Com a demora para liberação do direito ao aborto, a história ganhou visibilidade. Se por um lado, a visibilidade foi essencial para pressionar pela garantia de seu direito, foi também responsável por direcionar a horda de extremistas que só cresce em nosso país para o caso. 

Esses “malucos” que acham que meninas de 10 anos devem passar por uma gestação fruto de um estupro não são só meia dúzia, nem novidade. Eles atuam há anos no Brasil, com respaldo de diferentes instituições religiosas e com lugar no poder. Já tentaram impedir que uma menina de 9 anos interrompesse uma gravidez fruto de estupro – que tristeza que essa história se repete! 

São grupos organizados. Que articulam armadilhas para mulheres desesperadas, tentando enganá-las no momento desesperador de uma gravidez indesejada. 

E se articulam com frequência para agredir e violentar mulheres, como fizeram no ano passado, acampando na frente de um hospital que atende vítimas de violência sexual, para causar mais dor àquelas que precisavam buscar ajuda ali. 

Estão no poder, sugerindo o tempo todo projetos de lei para retirar os poucos direitos que nós, mulheres, conquistamos no Brasil – como mostramos com o projeto Elas no Congresso, que monitora os direitos das mulheres. 

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Mesmo depois da justiça dar à menina de 10 anos seu direito, esse grupo conseguiu fazer com que os profissionais do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam) se recusassem a fazer o procedimento. Forçaram a menina – e não esqueçamos, menina que sofreu estupros sistematizados e tem apenas 10 anos – a ir para outro estado cuidar da sua saúde. Vocês conseguem imaginar a dor dessa peregrinação desnecessária? 

Não só. Expuseram o nome dela na internet e o endereço do hospital. Já não basta ter de passar por isso tudo, a garota (e sua família) tem de passar por isso tudo sendo exposta e assediada, sem o mínimo respeito por sua dor. E assim, os malucos foram para a porta do hospital, gritar contra ela, usando a fé como argumento. Sempre me pego pensando que fé é essa que prega a violência ao invés do acolhimento… 

É uma nova faceta da fé que justificou inquisição e caça às bruxas. Uma fé que serve a algo maior do que simplesmente a religião: mas a um plano de poder, econômico e de sociedade. E não sejamos levianas, a retirada de direitos das mulheres e a violência contra a mulher não são cortina de fumaça do governo para esconder outros absurdos, a violência contra a mulher é parte do plano de poder que governa o Brasil hoje, como bem explica a pesquisadora Isabela Kalil nesta conversa com a Gênero e Número. 

E nesse plano, os corpos das mulheres e menina não podem ser delas mesmas. São coisa pública, para servir a esse plano patriarcal. 

Por mais que isso tudo seja horrível, porém, precisamos lembrar de uma coisa: apesar deles serem muitos e organizados, não ganharam essa batalha. Porque também não eram só meia dúzia de feministas respondendo aos seus gritos na porta do hospital. 

O movimento de mulheres também é grande, também é organizado e também luta por um projeto de um mundo mais justo, onde meninas de 10 anos não tenham que passar por tanta violência. E assim, essa criança não vai precisar seguir carregando o fruto do estupro. Depois de uma saga de tamanha violência, ela teve seu direito garantido e abortou.

Não minimizemos o tamanho e força daqueles que violentam meninas. Mas também não minimizemos nossa força. E lembremos quem foi realmente pró-vida nesse caso. Agora vamos continuar lutando para que essa criança tenha todo o apoio necessário para se recuperar da melhor forma possível de tudo isso, sem sofrer novos assédios e violências.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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