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1 de abril de 2020

É hora de repensar nosso modelo de negócios como sociedade

Temos a oportunidade histórica de usar as ferramentas que temos em mãos para transformar as organizações e a sociedade

Tive o primeiro cancelamento de trabalho por conta da crise do coronavírus no dia 6 de março, ao fim de uma sexta-feira incrível após conduzir duas conversas sobre igualdade de gênero, uma na Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e outra em uma daquelas empresas em que saio pilhada e certa de que o mundo corporativo tem sim um papel importantíssimo nesta pauta e que podemos chegar lá.

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, saindo de uma reunião com mais uma possível signatária dos WEPs (programa da ONU que incentiva igualdade de gênero nas empresas), percebi várias ligações e uma mensagem de voz no celular. No e-mail a má notícia: “por conta de uma diretriz global, estamos cancelando com muito pesar as 3 palestras que você faria em nossas unidades. Espero que logo possamos retomar nossos eventos e o trabalho com você”. 

O Brasil tinha 13 casos confirmados de infectados, todos recém-chegados de viagem e eu uma agenda de Março linda a ser cumprida, pela qual eu esperava há anos: eventos, palestras, cursos, prospecção e parecia que as humilhadas realmente estavam prestes a ser exaltadas.

Xinguei o destino, entrei naquela pira egocêntrica de achar que o problema era comigo, me lamentei um pouquinho, reclamei do “exagero” com amigas no whatsapp e segui na minha ignorância achando que ia passar e que, quem sabe em maio, retornaríamos aproveitando as pautas de dia das mães. Enfiar a cabeça na terra e entrar em negação parece funcionar para tanta gente, poderia começar a funcionar para mim também não é mesmo? 

Na semana seguinte ainda cumpri minha agenda, viajei a trabalho, mas o alerta começou a acender. Os eventos e as viagens começaram a ser todos cancelados, as palestras também. No dia 16 de março a escola do meu filho anunciou que fecharia a partir do dia 23, mas a esta altura eu já havia saído da negação e fui fazer o que sempre faço: estudar e me informar.

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Optei por não mandá-lo mais a partir do dia seguinte e iniciamos oficialmente nosso isolamento no dia 17, saindo de casa só para levar e buscar o marido no escritório que precisou se preparar para fechar a partir do dia 23. 

De lá para cá, tenho focado em todo o trabalho que tenho a fazer que não depende de estar na rua, como minha dissertação, revisão de pesquisas, textos, criar conteúdos que estava atrasados, mas a produtividade certamente não é das melhores quando penso em tudo o que mudará daqui para frente para o mundo, para a minha família, para mim, para o meu trabalho e, claro, para a minha renda também. 

Muita gente saiu correndo vender “soluções para ganhar dinheiro de casa”, “dicas para sair dessa melhor”, “x ferramentas para fazer a transição de carreira que você tanto sonhava” e por aí vai. Surgiram dezenas de cursos online nas redes sociais.

É hora de repensar modelos

Eu não sei exatamente como e quando sairemos dessa, mas algumas coisinhas eu sei:  

  1. Não existem respostas simples para problemas complexos e este é um baita de um problema complexo; 
  2. Não existe economia no caos, nem renda sem vida; 
  3. Mulheres sempre são as mais impactadas e as que mais sofrerão as consequências de tudo isso; 
  4. Como alguém que trabalha com diversidade e inclusão e questões de gênero, militando por uma sociedade mais justa, sei que todas essas pautas são agora mais relevantes e essenciais do que nunca
  5. Temos a oportunidade histórica de usar as ferramentas que temos em mãos para transformar as organizações e a sociedade, não apenas porque “dá lucro”, mas porque não temos outra alternativa! 

É, se tem uma coisa que esta pandemia escancarou foi a necessidade urgente de repensarmos nosso modelo de negócios como sociedade! 

Essa crise entra na conta a ser paga por quem se beneficia desde sempre da miséria e da desigualdade e se sente confortável para defender abertamente que não se prejudique a economia, pois “só irão morrer 10% de velhinhos” e que isso não é nada perto do “prejuízo à economia.”

O Brasil tem 206 bilionários com uma fortuna conjunta de mais de 1 trilhão de reais. Esta é a hora de falar de imposto sobre grandes fortunas e redistribuição de renda e não de cortes de salários e retirada de direitos dos mais vulneráveis. 

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Absolutamente ninguém merece morrer de uma morte absolutamente evitável e previsível por causa da ignorância negacionista de quem não leva a sério consensos científicos. Teremos todas muito por fazer para assegurar nossos direitos e os direitos de nossas irmãs mais vulneráveis. Para isso, precisamos proteger umas às outras!

Esta é a hora de desconstruir a falácia do estado mínimo e das vantagens da privatização. É a hora de defender o SUS, a assistência social e a ciência que é produzida nas universidades públicas.

Essa é uma excelente oportunidade para finalmente compreendermos os limites e contradições do capitalismo e para mudarmos os rumos da história em direção a uma sociedade mais colaborativa e menos desigual.

Contribuições

Por aqui, a única certeza é a de que continuarei dando minha contribuição com o conteúdo e informações que estiverem ao meu alcance, sempre pautados na responsabilidade, no respeito às melhores evidências científicas disponíveis e no protagonismo recíproco. 

Contem comigo para tudo que possa ser online (inclusive palestras e rodas de conversa!) e, se puderem, comprem meu livrinho (tem versão online amores!) pois isso ajudará muito a passar por essa fase também. 

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Eu não tenho soluções milagrosas agora como eu nunca as tive antes porque elas simplesmente não existem! Elas são uma falácia capitalista inventada para arrancar o seu dinheiro. Pense nisso. 

Uma leitora querida compartilhou esses dias parte de uma reflexão do meu livro que serviu como uma luva para mim mesma neste momento e que compartilho aqui com vocês.

É o meu desejo para as crianças e que, no fundo é o meu desejo para a humanidade, para todas nós. 

Beijos e se cuidem, cuidem dos seus, ajudem o próximo e fiquem em casa, se puderem!

Mãe orgulhosa e babona do Cacá, sou também coach, palestrante, blogueira, advogada, estudante de psicologia, feminista e ocasionalmente dona de casa. Já fui professora de italiano, assistente de Papai Noel, vendedora, tradutora, estagiária, gerente e diretora. De São Paulo, vivo em Curitiba com um recifense, Cacá e nosso Pug Jerimum. Detesto clichês, rótulos e preconceito. Escrevo sem melindres sobre qualquer assunto e criei a Self sonhando com a transformação de mulheres, organizações e do mundo!

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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